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De cabrito de presente a “mãe” do Pérola do Sertão: a saga de Maria Edneuly

A Capril Lourenço transformou um cabrito de presente em uma inovadora produções de queijo artesanal. Do leite coalho ao Pérola do Sertão, um queijo maturado de 120 dias inspirado nos franceses
Bruno Brandão
Bruno Brandão
De Fortaleza
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~4:17
  1. Maria Edneuly recebeu cabrito de presente em 2012 e transformou em criação de rebanho no sertão cearense.
  2. Capril Lourenço produz até 50 litros de leite de cabra diariamente em cinco hectares no distrito de Arisco, Quixadá.
  3. "Pérola do Sertão" é queijo francês rebatizado com identidade sertaneja que se tornou produto campeão de vendas da marca.
  4. Parceria com UFC e participação em PEC Nordeste permitiram agregação de valor ao leite, transformando matéria-prima em produtos derivados.
  5. Projeto São José do Governo do Ceará viabilizou investimento em maquinários de inox para escalar produção com padrão sanitário.
O "Ouro do Sertão", queijo maturado de 120 dias, um carros-chefes do Capril Lourenço - Foto:
O “Ouro do Sertão”, queijo maturado de 120 dias, um carros-chefes do Capril Lourenço. Foto: Estudio Voa/EGSIDB

Com 68 cabeças de caprinos em 5 hectares de sertão, produção diária de até 50 litros de leite e uma linha que vai do queijo coalho ao maturado de 120 dias, o Capril Lourenço, empresa familiar de Maria Edneuly Lourenço, no distrito de Arisco, em Quixadá, ganhou notariedade na cadeia produtiva do leite de cabra no Ceará. O caminho passou por uma feira agropecuária, um programa estadual de investimento, uma parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC) e uma escola de gastronomia social. O resultado: o “Pérola do Sertão”, queijo de inspiração francesa rebatizado com identidade sertaneja, é hoje o produto campeão de vendas da marca.

Tudo começou em 2012, quando Maria Edneuly recebeu um cabrito de presente. O animal pedia companhia, a companhia virou rebanho, o rebanho exigiu espaço e ela trocou a casa na cidade por um sítio no sertão. A produção inicial era simples: leite, cerca de 50 litros por dia, sem processamento. “Tinha medo da rejeição das pessoas com o queijo”, admite.

A virada veio em 2023, com um curso de derivados de leite de cabra e a participação na PEC Nordeste, uma das maiores feiras agropecuárias da região. “Vi da imensidão das possibilidades. Vi a oportunidade e vi o que o cliente queria”, resume. A partir daí, a lógica mudou: em vez de vender matéria-prima, agregar valor.

Maria Edneuly Lourenço, produtora que transformou leite de cabra em queijo estilo francês no distrito de Arisco, Quixadá (CE) - Foto:
Maria Edneuly Lourenço, produtora que transformou leite de cabra em queijo estilo francês no distrito de Arisco, Quixadá (CE). Foto: Estudio Voa/EGSIDB

Da França para o Sertão

A linha inaugural incluía queijo coalho, iogurte e requeijão. Mas havia um item que a própria produtora não acreditava: um queijo cremoso de inspiração francesa, o boursin. A surpresa veio nas vendas. “Fui pesquisar e comecei a vender mais”, relata. Em 2024, pesquisadores da UFC propuseram rebatizar o produto: nasceu o “Pérola do Sertão”, hoje o carro-chefe da marca.

O boursin, queijo cremoso de origem normanda, criado na França em 1957, conhecida por sua textura untuosa e combinação com ervas, encontrou no sertão cearense um terreno fértil. O produto, adaptado ao leite de cabra local, começou a se destacar nas vendas. 

O renome não foi apenas marketing. Sinalizou uma operação de valorização da identidade regional, retirando o produto da referência europeia e ancorando-o na cadeia produtiva do semiárido. O movimento é coerente com uma tendência nacional: o mercado de queijos artesanais com identidade territorial cresce no Brasil à medida que o consumidor de renda média-alta busca produtos com história e diferenciação.

O investimento em maquinários de inox, viabilizado pelo Projeto São José do Governo do Ceará em 2024, permitiu à Capril Lourenço escalar a produção com padrão sanitário para mercados mais exigentes. Foto:
O investimento em maquinários de inox, viabilizado pelo Projeto São José do Governo do Ceará em 2024, permitiu à Capril Lourenço escalar a produção com padrão sanitário para mercados mais exigentes. Foto: Estudio Voa/EGSIDB

Investimento para crescer

O crescimento do Capril Lourenço não foi apenas esforço individual. Em 2024, o Projeto São José, programa do Governo do Estado voltado à agricultura familiar, viabilizou a aquisição de maquinários de inox: prensa, tanque e equipamentos de processamento. “Consegui comprar tudo o que eu preciso”, diz Maria Edneuly. O investimento desbloqueou a capacidade de produzir em escala e com padrão sanitário compatível com mercados mais exigentes.

Em 2025, a seleção para a Escola de Gastronomia Social Ivens Dias Branco (EGSIDB) acrescentou a última peça: capacitação técnica avançada. Foi lá que Maria Edneuly aprendeu a produzir o Ouro do Sertão, queijo maturado de 120 dias desenhado para um público mais seletivo e com potencial de exportação. “É um queijo que pode ser comercializado para fora e também pela exigência de alguns clientes”, avalia.

São 68 cabeças de caprinos criadas em 5 hectares no distrito de Arisco, Quixadá. A produção atual chega a 38 litros de leite por dia, com pico de 50 litros. Foto:
São 68 cabeças de caprinos criadas em 5 hectares no distrito de Arisco, Quixadá. A produção atual chega a 38 litros de leite por dia, com pico de 50 litros. Foto: Divulgação

Atualmente, a marca conta com leite condensado, doce de leite, iogurte, requeijão, queijo coalho de cabra, queijo trufado e até sabonete artesanal com leite de cabra, além, claro, do Pérola do Sertão e do Ouro do Sertão. A diversificação responde a dois imperativos do negócio: aproveitar ao máximo cada litro produzido e atender perfis diferentes de consumidor.

O sabonete artesanal merece atenção especial. Feito com leite de cabra, é um produto de cosmética natural que conecta o Capril Lourenço ao crescente mercado de cosméticos orgânicos e artesanais, um segmento que movimentou mais de R$ 47 bilhões no Brasil em 2023, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC).

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