
Com 68 cabeças de caprinos em 5 hectares de sertão, produção diária de até 50 litros de leite e uma linha que vai do queijo coalho ao maturado de 120 dias, o Capril Lourenço, empresa familiar de Maria Edneuly Lourenço, no distrito de Arisco, em Quixadá, ganhou notariedade na cadeia produtiva do leite de cabra no Ceará. O caminho passou por uma feira agropecuária, um programa estadual de investimento, uma parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC) e uma escola de gastronomia social. O resultado: o “Pérola do Sertão”, queijo de inspiração francesa rebatizado com identidade sertaneja, é hoje o produto campeão de vendas da marca.
Tudo começou em 2012, quando Maria Edneuly recebeu um cabrito de presente. O animal pedia companhia, a companhia virou rebanho, o rebanho exigiu espaço e ela trocou a casa na cidade por um sítio no sertão. A produção inicial era simples: leite, cerca de 50 litros por dia, sem processamento. “Tinha medo da rejeição das pessoas com o queijo”, admite.
A virada veio em 2023, com um curso de derivados de leite de cabra e a participação na PEC Nordeste, uma das maiores feiras agropecuárias da região. “Vi da imensidão das possibilidades. Vi a oportunidade e vi o que o cliente queria”, resume. A partir daí, a lógica mudou: em vez de vender matéria-prima, agregar valor.

Da França para o Sertão
A linha inaugural incluía queijo coalho, iogurte e requeijão. Mas havia um item que a própria produtora não acreditava: um queijo cremoso de inspiração francesa, o boursin. A surpresa veio nas vendas. “Fui pesquisar e comecei a vender mais”, relata. Em 2024, pesquisadores da UFC propuseram rebatizar o produto: nasceu o “Pérola do Sertão”, hoje o carro-chefe da marca.
O boursin, queijo cremoso de origem normanda, criado na França em 1957, conhecida por sua textura untuosa e combinação com ervas, encontrou no sertão cearense um terreno fértil. O produto, adaptado ao leite de cabra local, começou a se destacar nas vendas.
O renome não foi apenas marketing. Sinalizou uma operação de valorização da identidade regional, retirando o produto da referência europeia e ancorando-o na cadeia produtiva do semiárido. O movimento é coerente com uma tendência nacional: o mercado de queijos artesanais com identidade territorial cresce no Brasil à medida que o consumidor de renda média-alta busca produtos com história e diferenciação.

Investimento para crescer
O crescimento do Capril Lourenço não foi apenas esforço individual. Em 2024, o Projeto São José, programa do Governo do Estado voltado à agricultura familiar, viabilizou a aquisição de maquinários de inox: prensa, tanque e equipamentos de processamento. “Consegui comprar tudo o que eu preciso”, diz Maria Edneuly. O investimento desbloqueou a capacidade de produzir em escala e com padrão sanitário compatível com mercados mais exigentes.
Em 2025, a seleção para a Escola de Gastronomia Social Ivens Dias Branco (EGSIDB) acrescentou a última peça: capacitação técnica avançada. Foi lá que Maria Edneuly aprendeu a produzir o Ouro do Sertão, queijo maturado de 120 dias desenhado para um público mais seletivo e com potencial de exportação. “É um queijo que pode ser comercializado para fora e também pela exigência de alguns clientes”, avalia.

Atualmente, a marca conta com leite condensado, doce de leite, iogurte, requeijão, queijo coalho de cabra, queijo trufado e até sabonete artesanal com leite de cabra, além, claro, do Pérola do Sertão e do Ouro do Sertão. A diversificação responde a dois imperativos do negócio: aproveitar ao máximo cada litro produzido e atender perfis diferentes de consumidor.
O sabonete artesanal merece atenção especial. Feito com leite de cabra, é um produto de cosmética natural que conecta o Capril Lourenço ao crescente mercado de cosméticos orgânicos e artesanais, um segmento que movimentou mais de R$ 47 bilhões no Brasil em 2023, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC).
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