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De mel a concreto: novo acordo amplia pauta exportadora de Alagoas à Europa

Tratado permite que estado avance além das commodities tradicionais e aproveite isenção tarifária para exportações
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  1. Acordo Mercosul-UE entra em vigor e abre mercado para produtos alagoanos com tarifas reduzidas ou zeradas.
  2. Mel, própolis, frutas e produtos químicos ganham oportunidade de expansão nas exportações alagoanas para Europa.
  3. Alagoas exportou US$ 89,89 milhões à União Europeia em 2025, liderado por açúcar, tabaco e derivados.
  4. Empresas alagoanas precisam atender rigorosos padrões sanitários, ambientais e certificações exigidas pelo mercado europeu.
  5. Fruticultura alagoana, especialmente abacaxi e maracujá, apresenta potencial imediato de crescimento e expansão comercial.
Mel produzido em Alagoas pode entrar na rota de exportação para a Europa
Com produção em 14 municípios, o mel e a própolis alagoano tem potencial para ingressar no mercado europeu e incrementar a pauta exportadora do estado. Foto: Divulgação

O novo acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, que iniciou sua vigência provisória no último dia 1º de maio, abre portas estratégicas para a economia brasileira e exige uma adaptação célere das empresas nacionais. Para Alagoas, o cenário representa uma oportunidade real de expandir a pauta exportadora, com possibilidade de incluir produtos como mel, frutas, além de produtos químicos e plásticos.

O tratado estabelece uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, conectando um mercado de aproximadamente 700 milhões de pessoas e movimentando um volume econômico sem precedentes na história recente dos blocos.

Na prática, a medida garante que mais de 80% das exportações brasileiras passem a contar com tarifa zero já neste início de operação, com a expectativa de que até 95% dos produtos do Mercosul tenham tarifas reduzidas ou eliminadas gradualmente.

Em 2025, o estado de Alagoas exportou o montante de US$ 89,89 milhões para a União Europeia. Os principais produtos que compuseram essa balança comercial foram o açúcar, o tabaco, os cabos de fibra ótica e os derivados do coco.

Segundo a avaliação do Centro Internacional de Negócios (CIN) da Federação das Indústrias do Estado de Alagoas (FIEA), o acordo favorece que o estado amplie o envio de alimentos e bebidas, mel e frutas, além de produtos químicos, plásticos, borracha, couro e manufaturados.

A gerente do CIN, Dielze Mello, destaca que o planejamento e a estratégia são fundamentais para que as empresas locais consigam se beneficiar das novas regras, especialmente diante da maior competição interna com produtos europeus que chegarão ao mercado brasileiro com preços mais competitivos.

“O CIN avalia que o acordo com o Mercosul favorece que o estado exporte para a Europa, mas lembrando que as empresas precisam estar preparadas, pois a Europa exige padrões sanitários e ambientais altos e certificações”, alertou.

Produção Maracujá - Junqueiro agreste Alagoas
Cultura mais recente no Agreste alagoano, maracujá tem ganhado adesão de produtores, como Felipe dos Santos, de Junqueiro. Foto: Divulgação

Fruticultura e o salto para o mercado global

Um dos setores com maior potencial de crescimento imediato sob a égide do novo acordo é a fruticultura alagoana. Atualmente, o estado já registra um avanço consolidado na produção de abacaxi e maracujá, especialmente na região do Agreste, nas cidades de Junqueiro, Limoeiro de Anadia e Teotonio Vilela.

Embora haja registros de cultivo de abacaxi no Agreste alagoano há pelo menos 20 anos, ele desponta como destaque nos últimos anos e passou a atender não apenas o mercado estadual, mas também estados como Paraíba, São Paulo e Minas Gerais. A produção também é exportada à Argentina, consolidando uma nova frente comercial para os produtores locais.

Dados da Pesquisa da Produção Agrícola Municipal (PAM) 2024, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Alagoas produziu 49.107 toneladas de abacaxi. O município de Limoeiro de Anadia é o líder no estado e a safra 2024 do município encerrou com 10 mil toneladas colhidas e apresentando alta de 73% no valor gerado, que saltou de R$ 19,5 milhões em 2023 para R$ 33,9 milhões.

No povoado Riachão, em Junqueiro, o maracujá tem sido uma aposta de produtores como nova alternativa produtiva, principalmente frente à cana-de-açúcar e à mandioca.

O Serviço Nacional de Aprendizagem Rural em Alagoas (Senar) vem acompanhando a produção de frutas na região, para ampliar o alcance dos produtores locais.

Segundo Anderson Santos, técnico de campo da instituição, o Agreste já concentra 30 produtores de abacaxi, muitos deles deixaram de produzir cana-de-açúcar ou mandioca para diversificar a produção. A diversificação também vem alcançando outras frutas, como maracujá, banana, mamão e coco.

“O problema é que as usinas vêm enfrentando problemas com relação ao preço e estiagem, o que prejudica o pagamento de produtores, assim como a mandioca, que por conta de fatores de mercado, não consegue ser um produto competitivo, o que tem desanimado muitos produtores, que tem nos procurado em busca de alternativas”, explicou.

Jean Ferreira, apicultura Zumbi dos Palmares, Alagoas
União dos Palmares concentra hoje polo de apicultura na Zona da Mata de Alagoas com apiário Zumbi dos Palmares. Foto: Divulgação

Mel e própolis buscam certificação para avançar no exterior

A apicultura é outra cadeia produtiva que ganha relevância estratégica com a abertura do mercado europeu. O mel produzido em Alagoas vem em uma trajetória de ganho de escala e profissionalização, com investimentos em infraestrutura como a construção da Casa do Mel no município de Traipu, impulsionada pela Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf). O objetivo dessas unidades é justamente garantir que o processamento atenda às normas de segurança alimentar exigidas para a exportação.

Em União dos Palmares, o Apiário Zumbi dos Palmares, que já está em processo avançado de certificação para viabilizar a comercialização externa de seus produtos.

Criado em 1997, o apiário evoluiu de uma produção artesanal e hoje processa cerca de 35 toneladas de mel por safra e comercializa aproximadamente 150 toneladas de derivados. Além da produção própria, a agroindústria passou a adquirir mel de produtores locais para atender à demanda, ampliando o alcance da apicultura na região.

A empresa também se prepara para ingressar no mercado internacional, com certificação para comercialização em países como o México.

Alagoas também possui selo de Indicação Geográfica. Conhecida por suas propriedades medicinais e alto valor agregado, a própolis vermelha de Alagoas é única no mundo devido à presença exclusiva da planta Dalbergia ecastophyllum, o “Rabo-de-Bugio”, encontrada nos manguezais do estado.

Hoje, a produção está presente em 14 municípios, com previsão de expansão para 22 por meio de ações da União dos Produtores de Própolis Vermelha de Alagoas (Uniprópolis). Além do litoral, estudos da Uniprópolis indicam potencial para ampliar a produção para áreas do sertão, incluindo municípios como Água Branca, Delmiro Gouveia, Olho d’Água do Casado e Piranhas. 

Produção de concreto nanocelular Isobloco
Empresa Isobloco foi selecionada por programa alemão voltado à internacionalização de pequenas e médias empresas. Foto: Divulgação

Exportação abre caminho para inovação alagoana

A abertura comercial não se restringe aos produtos agrícolas ou de base industrial tradicional. Alagoas também começa a exportar inovação tecnológica, como a empresa Isobloco, especializada em soluções construtivas e o desenvolvimento de concreto nanocelular.

Recentemente, a Isobloco foi selecionada para o Partnering in Business with Germany, programa do Ministério Federal da Economia e Energia da Alemanha voltado à internacionalização de pequenas e médias empresas. A iniciativa conecta companhias de países parceiros a empresas alemãs, com foco na formação de parcerias industriais e comerciais de longo prazo.

A participação no programa insere a empresa alagoana em uma agenda estratégica de cooperação tecnológica e acesso ao mercado europeu, ampliando as possibilidades de intercâmbio técnico e comercial. A expectativa da companhia é estabelecer conexões que possam resultar tanto em transferência de tecnologia quanto em novos contratos e projetos conjuntos.

Gerente do Centro Internacional de Negócios da FIEA Alagoas, Dielze Mello
Gerente do CIN Alagoas, Dielze Mello, destaca importância da ampliação da pauta exportadora do estado e do apoio da Federação das Indústrias às empresas. Foto: Frame/TV Globo

Suporte técnico e adequação às normas europeias

Apesar do otimismo com a redução de tarifas, a entrada permanente no mercado europeu exige que as empresas alagoanas superem barreiras técnicas. A Europa é conhecida por manter padrões sanitários e ambientais extremamente elevados, além de exigir certificações específicas que comprovem a origem e a sustentabilidade dos produtos.

O CIN/FIEA tem atuado como um facilitador nesse processo, oferecendo diagnóstico para identificar se os produtos das empresas estão contemplados no cronograma de desoneração do acordo.

“A Federação das Indústrias de Alagoas de Alagoas através do CIN está à disposição para ajudar no processo de identificação se o produto da empresa está contemplado no acordo, qual o prazo, orientação para utilização do certificado de origem e adequações para aumentar a competitividade das empresas no mercado internacional. Planejamento e estratégia são fundamentais no processo de preparação para que as empresas realmente se beneficiem com este acordo”, afirmou Dielze Mello.

Leia Mais: Alagoas estuda medidas de apoio a produtores de cana após alerta de crise

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