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Fertilizantes mais caros pela crise global elevam busca por calcário no Nordeste

Com alta de insumos importados, produtores do Matopiba recorrem ao calcário agrícola nacional para corrigir solo e melhorar eficiência de adubos
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  1. Crise global eleva preços de fertilizantes no Brasil
  2. Polo gesseiro do Araripe lidera produção de calcário
  3. Calcário é alternativa para otimizar investimentos
  4. Uso de calcário torna adubação mais rentável
  5. Brasil é autossuficiente na produção de calcário
Polo gesseiro do Araripe, em Pernambuco, é o maior do país - Foto: Fiepe/Divulgação
Polo gesseiro do Araripe, em Pernambuco, é o maior do país e responde por 70% produção de calcário agrícola. Empresas começaram a testar envio de cargas pelo trecho já concluído da Transnordestina. Foto: Fiepe/Divulgação

​A restrição internacional na oferta de nutrientes, provocada nos últimos meses pela crise geopolítica no Oriente Médio, gerou um impacto direto no bolso do produtor rural brasileiro. De acordo com especialistas do setor, o cenário de incerteza causou um salto expressivo nos preços dos fertilizantes no mercado nacional. Diante dos custos de produção inflacionados no campo, agricultores começaram a intensificar a busca pelo calcário agrícola como alternativa estratégica para otimizar os investimentos na lavoura.

​Segundo com dados técnicos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e do Sindicato da Indústria de Mineração de Calcário, Cal e Gesso no Estado da Bahia (Sindical-BA), o fenômeno se explica pela dinâmica técnica do solo. Entidades do segmento explicam que o uso do calcário eleva o aproveitamento dos nutrientes que já estão presentes na terra ou que são aplicados por meio dos adubos tradicionais.

Em termos práticos, conforme apontam pesquisas da Embrapa, a calagem (nome dado ao processo de aplicação desse minério) torna a adubação muito mais rentável para o produtor, permitindo que as plantas absorvam melhor as substâncias necessárias para o seu desenvolvimento.

​A análise do Sindical-BA destaca que o Brasil possui uma vantagem estrutural importante nesse cenário de instabilidade global. O sindicato aponta que o país é totalmente autossuficiente na produção de calcário agrícola, o que blinda o insumo das oscilações do mercado externo e da dependência de rotas internacionais de importação. No entanto, o avanço da demanda expõe realidades e gargalos estruturais distintos entre os estados que compõem o Matopiba, a principal fronteira agrícola do Norte e Nordeste.

Avanço da demanda por calcário agrícola expõe realidades e gargalos estruturais distintos entre os estados que compõem o Matopiba, a principal fronteira agrícola do Norte e Nordeste. Foto: Giovani Faé/Embrapa
Avanço da demanda por calcário agrícola expõe realidades e gargalos estruturais distintos entre os estados que compõem o Matopiba, a principal fronteira agrícola do Norte e Nordeste. Foto: Giovani Faé/Embrapa

​O protagonismo da estrutura baiana

Na Bahia, a cadeia produtiva do minério já opera em patamares consolidados. Ainda segundo o Sindical-BA, dados da Associação Brasileira dos Produtores de Calcário Agrícola (Abracal) apontam que o estado responde por aproximadamente 15% a 20% de toda a demanda de corretivos de solo da região Nordeste.

A extração e o beneficiamento estão concentrados em municípios estratégicos do oeste baiano, como Santa Maria da Vitória, Ibotirama e São Desidério, que garantem a logística para as grandes áreas de cultivo. A produção estadual baiana, ressaltam as entidades, alcança a marca de 1,2 milhão de toneladas anuais para o atendimento do mercado interno, necessitando apenas de pequenas importações complementares de Minas Gerais.

O presidente do Sindical-BA, Sérgio Pedreira de Oliveira, reforça a importância do insumo como base para a atividade no campo. “O calcário agrícola é considerado o ‘alicerce’ da agricultura moderna. O uso de calcário em maior quantidade, como uma estratégia para corrigir a acidez do solo e aumentar a eficiência dos adubos que estão mais caros”, diz.

​Com o encarecimento dos preços dos fertilizantes, especialmente os nitrogenados, como a uréia, devido à guerra no Irã, especialistas recomendam uma atuação mais firme na correção da terra.

Extração de calcário Foto: Shutterstock
Extração de calcário agrícola vem crescendo em todo o mundo em virtude da crise de falta de fertilizantes para a toda a cadeia produtiva. Foto: Shutterstock

​Gargalos logísticos e frete no Piauí

​Se a Bahia está consolidada, os relatórios da Federação das Indústrias do Estado do Piauí (Fiepi) revelam que o estado enfrenta um cenário de produção local restrita e forte dependência de fatores logísticos. Segundo a Fiepi, o ritmo atual de extração piauiense é limitado e concentrado em empresas como a Calpi, em Santa Filomena, e na Usina de Calcário Icaraí, em José de Freitas. As capacidades instaladas dessas unidades individuais são baixas, ficando na casa de dezenas a poucas centenas de milhares de toneladas por ano.

​Para tentar mudar esse panorama e adicionar capacidade local, novos investimentos começam a surgir na Região de Processamento de Exportação (ZPE) de Parnaíba. A Fiepi acrescenta que, em novembro de 2025, a Agência Nacional de Mineração (ANM) autorizou a MBF Fertilizantes a extrair até 80 mil toneladas anuais de calcário marinho no litoral do estado.

O projeto mapeado pela federação prevê aportes acima de R$ 220 milhões com foco em fertilizantes de alto desempenho. Apesar de os novos projetos mitigarem os riscos de desabastecimento a médio prazo, os estudos de frete e logística da Fiepi apontam que o grande vilão do produtor piauiense é o transporte.

Por ser um insumo volumoso e de baixo valor unitário, as análises da federação mostram que o frete rodoviário representa uma fatia que varia de 40% a 60% do custo final do calcário posto na fazenda. Segundo a instituição, a malha viária deficiente e o déficit de armazenagem no interior encarecem o produto e reduzem sua competitividade frente aos vizinhos.

​O gerente corporativo da área Internacional e Mercado do Sistema Fiepi, Islano Marques, avalia que o estado se encontra em uma janela de oportunidade, mas ainda precisa vencer barreiras internas de infraestrutura.

​”O Piauí tem potencial crescente como fornecedor regional, impulsionado por Matopiba e projetos como MBF, mas enfrenta desafios logísticos e escala limitada frente a Bahia/MG. A crise internacional é uma janela de oportunidade, com governo estadual mais ativo em incentivos e mapeamento mineral”, avalia.

​Apagão de dados e alternativas no Maranhão

​No Maranhão, o cenário ganha contornos de incerteza em relação aos números da indústria. De acordo com dados levantados pelo Observatório da Indústria da Federação das Indústrias do Estado do Maranhão (Fiema), o estado abriga polos consumidores vorazes no Cerrado, mas não possui um controle claro sobre o que extrai de suas jazidas. O economista da Fiema, Carlos Eduardo Campos, confirma essa lacuna técnica que dificulta o planejamento do setor. “Em relação à produção de calcário no Maranhão, informamos que não se encontram dados abertos e confiáveis sobre a produção no estado”, informa.

​Para driblar a distância dos centros produtores e o alto custo do transporte do calcário tradicional, os relatórios da Embrapa apontam que alguns agricultores maranhenses começaram a adotar soluções caseiras. Em algumas regiões mapeadas pelo órgão de pesquisa, os produtores utilizam o pó de basalto como complemento na lavoura.

A técnica, conhecida como rochagem, funciona como fonte de liberação lenta, mas a Embrapa ressalva que ela exige a aplicação de grandes volumes de toneladas por hectare devido ao seu perfil de ação demorado.

Embrapa cria calcário mais nutritivo e resistente à umidade

Leia mais em: https://comprerural.com/embrapa-cria-calcario-mais-nutritivo-e-resistente-a-umidade
Novo calcário nanoestruturado desenvolvido pela Embrapa corrige a acidez do solo, reduz perdas causadas pelo vento e pela umidade, além de incorporar nutrientes essenciais para culturas como soja, milho, café, algodão e cana-de-açúcar. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

​O impacto técnico nas pesquisas

​A urgência econômica para escapar dos preços dos fertilizantes importados gerou um sinal de alerta nos órgãos de pesquisa. De acordo com o Observatório da Indústria da Fiema, com base em dados do Comex Stat, sistema oficial do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) para consulta e extração de dados públicos do comércio exterior brasileiro, as compras de fosfato registraram salto de 612% de janeiro a março de 2026.

Levantamentos da Embrapa indicam que cerca de 70% dos solos brasileiros são naturalmente ácidos. No Cerrado do sul do Maranhão (Balsas) e do sudoeste do Piauí (Uruçuí), as análises da Embrapa constatam que o pH da terra em água é frequentemente menor que 5,0, com saturação por alumínio tóxico acima de 40%.

​O pesquisador de fertilidade do solo da Embrapa Semiárido, Neri Marcante, explica que corrigir essa acidez de forma equilibrada liberta o potencial produtivo da região.

​”Ao elevar o pH do solo para a faixa de 5,5 a 6,5 por meio da calagem, ocorrerá a liberação de sítios de adsorção da CTC, reduzirá a fixação de P e potencializará a nitrificação, aumentando a disponibilidade de nutrientes sem o acréscimo de grandes quantidades de fertilizantes”, detalha.

“Do ponto de vista quantitativo, estudos conduzidos em Latossolos do Cerrado indicam que a correção adequada da acidez pode elevar a eficiência de uso do fósforo em até 30 a 40%, e do nitrogênio em torno de 15 a 25%”, complementa.

Risco da supercalagem

​Apesar das vantagens, as vistorias técnicas da Embrapa revelam que a tentativa de substituir o adubo pelo corretivo tem levado alguns produtores ao erro da supercalagem, aplicando de 10 a 20 toneladas de calcário por hectare sem critério.

Conforme as pesquisas do órgão, o excesso eleva o pH para níveis extremos, bloqueando a absorção de micronutrientes essenciais como o zinco e o manganês, o que provoca amarelamento e queda severa na produtividade das lavouras de soja a médio prazo.

​O especialista da Embrapa reforça que a economia imediata pode sair caro no futuro e recomenda o planejamento técnico como única saída para o bolso do agricultor.

​”O produtor que eleva excessivamente o pH do solo em busca de economia tende a enfrentar, a médio prazo, queda de produtividade por deficiência de micronutrientes, desequilíbrio nutricional e desestruturação da biologia do solo, gerando um custo alto de correção adicional no futuro. A recomendação para os produtores da região do Matopiba é realizar uma boa análise de solo como ponto de partida, seguindo com o correto uso de calcário e gesso agrícola.”

O Movimento Econômico procurou a Federação das Indústrias da Bahia (Fieb), mas a entidade não se pronunciou até o fechamento desta matéria.

Leia mais: Governo estuda ligar Transnordestina ao Matopiba e a portos do Norte do país

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