
Adequação a normas internacionais de segurança alimentar e investimentos em infraestrutura logística transformaram o Ceará no principal exportador de pescados do Brasil. Nos quatro primeiros meses de 2026, o estado embarcou US$ 28,73 milhões em lagosta, camarão e peixes, leve retração de 2,9% em relação ao mesmo período de 2025, quando o setor registrou seu pico histórico de US$ 29,59 milhões. Em quatro anos, as exportações do setor cresceram 70%: de US$ 16,88 milhões em jan-abr/2023 para o patamar atual, segundo dados do Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
A queda de 2022 para 2023 ilustra a vulnerabilidade estrutural do setor: o volume exportado cresceu 10,5% naquele período, mas a receita recuou 38,4%, de US$ 27,41 milhões para US$ 16,88 milhões, porque o mercado norte-americano pagou menos pela lagosta cearense. Preço de commodity, não política tarifária. O mesmo mercado que determina os ciclos do setor responde hoje por 56,5% das exportações cearenses de pescados, com 96% dos embarques tendo os Estados Unidos como destino.
O setor de pescado cearense enfrenta dois obstáculos simultâneos. O governo dos Estados Unidos anunciou tarifa punitiva de 25% sobre importações brasileiras via Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. Em 2025, mesmo antes da nova sobretaxa, o Ceará já havia registrado retração de 25% nas vendas de pescados aos norte-americanos, queda de US$ 13,1 milhões, reflexo do tarifaço de 50% imposto em agosto daquele ano. O setor articula a inclusão do pescado na lista de produtos isentos da nova tarifa, enquanto o estado mantém medidas de proteção à cadeia, com estimativa de 100 mil empregos preservados pelas medidas estaduais.

Acesso dificultado do pescado cearense na Europa
Pelo lado europeu, a situação é ainda mais complexa. O embargo à aquicultura brasileira vigora desde 2018, quando irregularidades em embarcações de Santa Catarina levaram a União Europeia a suspender as importações do setor. Neste mês de junho, uma missão de auditoria europeia visita embarcações do Rio Grande do Norte e Santa Catarina para avaliar rastreabilidade e controle sanitário. A reabertura, se aprovada, não será automática: plantas e embarcações precisarão ser recadastradas individualmente no sistema sanitário do bloco.
Paralelamente, um segundo obstáculo se aproxima: a partir de 3 de setembro de 2026, a União Europeia retira o Brasil da lista de países autorizados a exportar produtos de origem animal ao bloco, incluindo aquicultura, por exigências de rastreabilidade e controle do uso de antimicrobianos. O mercado europeu, maior importador mundial de pescado, permanece fora do alcance do setor cearense em um momento em que a dependência americana se torna cada vez mais arriscada.







Pontos fortes: camarão e o Porto do Pecém
O Ceará responde por mais de 50% da produção nacional de camarão na carcinicultura. Sílvio Carlos, secretário-executivo do Agronegócio da Secretaria do Desenvolvimento Econômico (SDE), vê espaço para ampliar a presença internacional. “Mesmo sem exportar para a Europa, somos o principal exportador do Brasil. Com as ações realizadas e o apoio do governador nas interlocuções com os ministérios da Pesca e Aquicultura (MPA) e da Agricultura e Pecuária (Mapa), acreditamos nesse novo momento”, afirma.
Para o secretário, o Porto do Pecém tem sido decisivo para estimular empresas ligadas à exportação e ao processamento de produtos de alto valor agregado. “O estado tem trabalhado para apresentar suas potencialidades ao mercado internacional, mostrando a localização estratégica no Atlântico e o ambiente favorável para investimentos”, ressalta.
Infraestrutura logística impulsiona cargas
A infraestrutura logística acompanhou a evolução produtiva. O terminal de cargas frias da Fracht Log, instalado no Complexo Industrial e Portuário do Pecém a 8 km do porto, com investimento de R$ 120 milhões do grupo suíço, supriu um gargalo histórico do estado: a ausência de estrutura de grande porte para armazenamento refrigerado próximo ao porto. Antes de sua operação, exportadores mantinham contêineres refrigerados parados no porto por longos períodos, elevando custos com armazenagem e energia. Hoje opera a temperaturas de até -25°C, com 80% de capacidade ocupada, processando sardinha, atum, lagosta, camarão e pescados vermelhos. “Produtos que antes eram importados por outros estados passaram a utilizar o Porto do Pecém”, afirma Thiago Abreu, diretor da Fracht Log no Ceará.
A Compex Pescados, instalada no bairro Cais do Porto, em Fortaleza, é um dos vetores desse desempenho. A empresa processa peixes vermelhos, atum e lagosta em ambiente refrigerado a -18°C, sob normas internacionais de segurança alimentar, e exporta cerca de 3,5 mil toneladas por ano para 16 países nas regiões da Ásia, Oceania e América do Norte, a partir de um parque fabril de 10 mil m².
“O desempenho do estado deve-se ao compromisso e profissionalismo dos pescadores e de todos que participam desse processo”, afirma Paulo Gonçalves, empresário da Compex e diretor do Sindicato das Indústrias de Frio e Pesca do Ceará (Sindfrio). Para ele, a posição logística é decisiva. “Estamos muito bem servidos, com dois portos de cargas gerais e um aeroporto internacional. Isso facilita o escoamento das cargas de pescados, tanto congeladas quanto frescas”, destaca.
Da costa ao chão de fábrica
O Ceará possui 573 km de litoral e cerca de 20 municípios que vivem da relação com o mar. A cadeia produtiva conecta comunidades pesqueiras do interior do estado às linhas de exportação da capital. Geralda Sousa, natural de Acaraú, no Litoral Oeste, acumula 24 anos de experiência no setor. Começou em 2002 e, em 2017, passou a integrar a equipe da Compex Pescados, ainda quando a empresa operava em sua cidade natal. Com a expansão das operações e a instalação do frigorífico no Cais do Porto, em Fortaleza, foi convidada a atuar na nova unidade na capital. Hoje coordena o setor de recebimento de matéria-prima, etapa que define a qualidade de toda a produção.
“Me sinto lisonjeada, eu e toda minha equipe, porque tudo parte daqui. Se a gente fizer um bom recebimento, tudo vai sair bem até chegar ao consumidor no exterior”, afirma. A mudança para Fortaleza também levou a irmã, Edna Sousa, responsável pela produção de crustáceos na empresa. “É o nosso sustento e o de muitas pessoas. Nós mudamos de Acaraú para cá graças a essa oportunidade”, resume Geralda.
Com informações do Governo do Estado do Ceará e dados do Comex Stat/MDIC
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