
Por Gabriela Castello Buarque, da Folha de Pernambuco
Pela primeira vez, no São João 2026, a Prefeitura do Recife decidiu homenagear os trabalhadores que fazem a festa acontecer nos bastidores. Artesãos como o sapateiro Lucivan Batista dos Santos, de 58 anos, que realiza um trabalho minucioso e essencial para compor o brilho da festa muito antes do início das apresentações que percorrem os palcos e os arraiais do ciclo junino.
Natural de Nazaré da Mata, na Zona da Mata do estado, há quase duas décadas Lucivan Batista ajuda a sustentar não somente a cultura popular de Pernambuco como a de outros estados do Norte e Nordeste do Brasil. Desde 2008, saem do seu ateliê na Mustardinha, Zona Oeste do Recife, sapatos que percorrem os palcos de Pernambuco, Paraíba, Alagoas, Ceará e até Roraima durante as festas juninas.
Feitos um a um, cortados, costurados, montados e finalizados artesanalmente, cada par leva um pouco da história do empreendedor que conheceu o ofício aos 11 anos e transformou conhecimento técnico em tradição e patrimônio cultural.
Do ofício à empreendedorismo
“Um senhor tinha uma fábrica de calçados na mesma rua em que meus pais moravam. Quando eles se separaram, ele me acolheu e eu comecei como ajudante. Um ano depois, eu já fazia sapatos do zero”, contou o artesão.
Curioso, enquanto outros trabalhadores dominavam apenas uma etapa da produção, ele queria entender todas. Observava até os mecânicos durante o conserto das máquinas.
“Aprendi cada etapa do processo. Desenho, corto, costuro, monto, compro o material e, quando chega nesse período de quadrilha, eu fico multifuncional, correndo para que a coisa aconteça. Se um setor está com pendência, eu conserto, arrumo e corro atrás o dia todo para que tudo funcione. Ter entrado em uma fábrica com 11 anos me deu essa vantagem de me aperfeiçoar em todas as áreas”, resumiu.
Ao sair da fábrica, próximo a completar 18 anos, alistou-se no exército e serviu por um ano. Após a baixa no serviço militar, Lucivan decidiu procurar emprego na capital do estado com os conhecimentos que possuía. “Foi quando começou toda a minha saga de procurar uma fábrica que assim me desse espaço para que eu me desenvolvesse e encontrei em Boa Viagem duas fábricas muito boas”, ressaltou.
Apaixonado pelo seu ofício, Lucivan destacou que esse sempre foi o seu propósito. “O pessoal nas fábricas pegava o décimo terceiro, as férias, comprava móvel, motocicleta, ajeitava a casa, enquanto eu comprava máquinas de costura. Quando me casei, morei com meu sogro e quando fomos morar na nossa primeira casa, não tinha nada, só as máquinas”, lembrou o sapateiro.
O curso que escancarou uma porteira
O ponto de virada na trajetória de Lucivan aconteceu antes mesmo de abrir o próprio negócio, quando ainda era funcionário de uma fábrica de calçados no Recife e foi escolhido pela empresa para participar de um curso de aperfeiçoamento profissional do Senai, com tudo pago. A formação reunia conteúdos de desenho, modelagem, desenvolvimento de produtos e gestão, áreas que ampliaram sua visão sobre o mercado e a cadeia produtiva do setor.
“A fábrica me preparou para gerenciar os negócios. Me pagou um curso de gestão e no início de 2006 a fábrica fechou. Eu estava com tudo na mão e pensei: ‘vou começar a empreender’. O curso não abriu uma porta para mim: escancarou uma porteira. Foi ali que eu deixei de pensar apenas como sapateiro e comecei a pensar como empreendedor”, afirmou Lucivan.
Lucivan compartilhou que, assim como todo começo, foi difícil. “Uma coisa é você trabalhar em uma fábrica, onde existem pessoas que pesquisam os lançamentos e têm ideias para criar looks e você já tem tudo na mão para desenhar e modelar. Isso me deixou um pouco para baixo no início, mas quando surgia a oportunidade de terceirizar a confecção para alguém eu mudava a cor, usava um material mais em conta para o sapato não sair tão caro, porque eu trabalho mais com comunidade, pessoas que não têm muito recurso, então fui vendo os prós e contras e foi dando certo.”

Da primeira encomenda à parceria com a Lumiar
A virada veio dois anos depois. Em 2008, quando Lucivan recebeu a primeira encomenda de uma quadrilha junina. Quatro anos depois, em 2012, veio a parceria com a Lumiar, uma das mais prestigiadas do ciclo junino nacional. O boca a boca entre os grupos culturais fez o restante e o que parecia apenas um novo nicho de mercado revelou-se uma oportunidade capaz de unir propósito, renda e identidade cultural. “Eu vi que ali havia um viés para mim, que eu tinha acertado, foi na veia”, declarou o artesão.
“Consideramos essa homenagem de extrema importância porque de fato ele é a única pessoa no Recife que realmente faz sapato para várias quadrilhas. Uma pessoa responsável por calçar tantos brincantes e que virou um membro da cultura popular. O conhecemos em 2012, por indicação de um colega, e estamos com ele até hoje”, afirmou Fabio Andrade, presidente da quadrilha Lumiar.
Hoje, Lucivan atende cerca de 14 grupos por temporada junina. Quando passa a época das quadrilhas, o artesão atende outras manifestações culturais como bandas marciais, blocos carnavalescos, grupos folclóricos e personagens temáticos de festas.
Resistência, preço social e o temor pelo futuro
Mas o diferencial do negócio não está apenas na capacidade produtiva. Os sapatos feitos por Lucivan são criados para suportar meses de ensaios, apresentações e competições. Precisam combinar estética, resistência e conforto. Não é raro encontrar quadrilheiros utilizando pares confeccionados há quase dez anos. “Tem gente que chega aqui dizendo que ainda ensaia com sapato de 2016.”
Essa reputação transformou o pequeno negócio em referência para grupos culturais que, muitas vezes, sobrevivem com rifas, contribuições comunitárias e arrecadações populares. Por conhecer essa realidade, Lucivan busca trabalhar sempre com variações de preços que viabilizem as encomendas. “As pessoas da cultura são, em grande parte, pessoas da periferia. A gente procura fazer um preço que elas consigam pagar”, disse.
É uma decisão empresarial, mas também social. Ao longo dos anos, a oficina ajudou a movimentar uma cadeia econômica pouco visível. Costureiras terceirizadas, fornecedores de matéria-prima, trabalhadores temporários e profissionais especializados passam a integrar a produção nos períodos de maior demanda. Antes da pandemia, a equipe chegou a reunir 12 pessoas.
Da pandemia à pergunta sem resposta
Com as festas suspensas durante a Covid-19, Lucivan precisou reinventar o negócio. Enquanto a cultura parava, a oficina passou a confeccionar sacos mortuários para atender uma empresa da Paraíba. Foi a maneira encontrada para manter o trabalho funcionando em um dos períodos mais dramáticos da história recente. “Não podíamos parar. Precisávamos fazer alguma coisa.”
Embora seja considerado um dos poucos artesãos especializados na produção manual de calçados para quadrilhas juninas ainda em atividade na região, Lucivan teme que o conhecimento acumulado ao longo de mais de 40 anos desapareça. O artesão já sugeriu projetos para capacitar jovens das próprias quadrilhas e comunidades, transmitindo técnicas de modelagem, corte e montagem. “Ainda não saiu do papel. Vai chegar uma hora que eu vou parar, quem vai continuar?”, questionou.
Em 2025, o São João bateu recorde de público em todo o estado e injetou cerca de R$ 1,1 bilhão na economia. Para este ano, segundo a Fecomércio, as festas de São João e Dia dos Namorados devem movimentar R$ 682,7 milhões adicionais, crescimento de 2,9% em relação ao ano anterior.
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