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Planejamento vira peça-chave para nova indústria nordestina

Na segunda mesa do evento Análise Ceplan, especialistas apontam logística, infraestrutura e governança como entraves para transformar o potencial energético em desenvolvimento econômico
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  1. Nordeste concentra 83% da geração eólica e solar do Brasil, consolidando-se como potência energética nacional.
  2. Região gera apenas 9% dos empregos industriais nacionais, revelando baixa densidade produtiva apesar da abundância energética.
  3. Participação nordestina em exportações de manufaturados permanece estagnada em 8,2% desde 2012, conforme dados apresentados.
  4. Ausência de projeto nacional articulado de desenvolvimento é apontada como principal gargalo para neoindustrialização regional.
  5. Brasil necessita fortalecer cadeias produtivas, atrair investimentos industriais e qualificar mão de obra para aproveitar oportunidade energética.
segundo painel do evento Análise Ceplan
Segunda mesa do evento Análise Ceplan teve como tema “Energia limpa e abundante como oportunidade para regionalizar a Nova Indústria Brasil”. Foto: Lidiane Evelyn/Divulgação

A abundância de energia renovável já colocou o Nordeste no centro das discussões sobre o futuro econômico do Brasil. Com 83% da geração eólica e solar do País e 70% de toda a nova capacidade instalada em fontes renováveis, a região consolidou-se como uma potência energética. Mas o avanço da produção limpa ainda não foi capaz de se converter, na mesma proporção, em empregos industriais, adensamento produtivo e maior participação nas exportações de manufaturados. O desafio, segundo especialistas, empresários e representantes do setor público reunidos no segundo painel do evento Análise Ceplan, é transformar essa vantagem energética em um projeto articulado de neoindustrialização.

O evento, promovido pela Ceplan Consultoria e pelo portal Movimento Econômico, reuniu representantes do governo estadual, da Confederação Nacional da Indústria (CNI), empresários e economistas para discutir caminhos para inserir o Nordeste na nova onda de industrialização mundial impulsionada pela transição energética, digitalização e reconfiguração das cadeias globais de produção.

Na abertura do painel, a CEO do Movimento Econômico, Patrícia Raposo, destacou que, apesar do protagonismo energético, o Nordeste ainda possui baixa densidade industrial. “Só 9% dos empregos gerados pela indústria estão no Nordeste”, afirmou. Ela lembrou ainda que a participação da região na base exportadora nacional de médias e grandes empresas permanece estagnada em 8,2% desde 2012, apesar da expansão das energias renováveis.

“Essa oportunidade que se desenha para o Nordeste precisa vir agregada por um fortalecimento das nossas cadeias produtivas, novos investimentos industriais e mão de obra qualificada para esse novo momento”, ressaltou.

Falta de projeto nacional trava desenvolvimento

Ex-presidente do BNDES e um dos participantes mais aguardados do debate, o economista Luciano Coutinho defendeu que o principal gargalo brasileiro hoje não é apenas fiscal, mas a ausência de um projeto nacional de desenvolvimento articulado.

“O Brasil está estagnado há mais de uma década. O crescimento médio gira em torno de 2%, muito baseado em transferência de renda, o que é importante socialmente, mas não constitui um projeto de desenvolvimento”, afirmou.

Para Coutinho, o País perdeu capacidade de planejamento de longo prazo justamente em um momento em que o mundo reorganiza suas cadeias industriais e busca novas bases produtivas sustentáveis. “O que me incomoda é a falta de um projeto articulado para retomar o desenvolvimento”, disse.

O economista chamou atenção para o fato de que o Nordeste foi uma das poucas regiões brasileiras que ampliaram participação na economia nacional nos últimos anos, impulsionado principalmente pelo avanço do agronegócio no MATOPIBA e pelas energias renováveis.

“O Nordeste é uma fortaleza energética. Tem vento permanente, previsível, e insolação muito forte. Isso cria uma vantagem competitiva importante”, afirmou.

Ainda assim, ele alertou que energia barata sozinha não garante industrialização. “Só vamos extrair dessa vantagem se tivermos capacidade de construir cadeias produtivas, infraestrutura e serviços associados.”

Segundo painel Análise Ceplan 30 anos Fabrício Silveira, superintendente de política industrial da CNI
Fabrício Silveira, superintendente de política industrial da CNI, defendeu a criação de mecanismos de incentivo ao consumo de energia verde. Foto: Lidiane Evelyn/Divulgação

Infraestrutura e logística ainda são entraves

Representando a CNI, Fabrício Silveira afirmou que a região possui ativos estratégicos relevantes, mas ainda enfrenta obstáculos históricos ligados à infraestrutura e à logística.

“A ausência de uma logística integrada continua sendo uma das principais barreiras para adensar a indústria no Nordeste”, afirmou.

Segundo ele, a indústria busca previsibilidade regulatória, segurança jurídica e infraestrutura eficiente antes de decidir novos investimentos. Fabrício destacou que o empresário enxerga potencial competitivo na energia limpa nordestina, especialmente diante das exigências ambientais impostas pelo comércio internacional.

“Energia limpa e barata pode se tornar um diferencial competitivo enorme, principalmente com a consolidação do mercado de carbono e das novas regras globais de descarbonização”, disse.

Ele defendeu ainda a criação de mecanismos de incentivo ao consumo de energia verde, como um “green bonus”, além da ampliação da infraestrutura energética para garantir competitividade às cadeias industriais.

Segundo painel Análise Ceplan 30 anos secretário da assessoria especial da governadora e relações internacionais de Pernambuco João Salles
Secretário da assessoria especial da governadora e relações internacionais de Pernambuco, João Salles disse que a pretensão do estado é se tornar uma plataforma estratégica para abastecimento sustentável. Foto: Lidiane Evelyn/Divulgação

Pernambuco aposta em hub de combustíveis sustentáveis

O secretário estadual João Salles apresentou a estratégia de Pernambuco para transformar o Estado em referência internacional em combustíveis sustentáveis e logística verde. Segundo ele, a gestão estadual criou uma secretaria especial voltada para projetos estratégicos capazes de interiorizar o desenvolvimento e reduzir desigualdades regionais.

“A gente não quer ser apenas vendedor de commodity energética. Queremos agregar valor e inserir Pernambuco nas cadeias globais”, afirmou.

Salles destacou que o Estado vem estruturando um hub de combustíveis sustentáveis associado ao Porto de Suape, aproveitando a disponibilidade de energia renovável e a demanda internacional por combustíveis de baixo carbono.

“O mundo está olhando para Pernambuco”, afirmou. Segundo ele, empresas internacionais já enxergam o Estado como uma plataforma estratégica para abastecimento sustentável.

Entre os projetos em andamento, ele citou a instalação de um terminal totalmente eletrificado da APM Terminals, do grupo Maersk, previsto para entrar em operação em junho, além da expansão da European Energy e da EGP no segmento de combustíveis marítimos sustentáveis.

“O objetivo é fazer de Pernambuco o primeiro porto eletrificado do Brasil e um dos primeiros da América Latina”, disse.

O secretário também informou que o Estado possui uma carteira de aproximadamente R$ 35 bilhões em investimentos para os próximos 12 anos, sendo cerca de 70% direcionados à energia verde.

Segundo painel Análise Ceplan 30 anos diretor executivo da Baterias Moura, Gustavo Moura
Diretor executivo da Baterias Moura, Gustavo Moura ressaltou os desafios da competição global, principalmente com os chineses. Foto: Lidiane Evelyn/Divulgação

Baterias e armazenamento ganham protagonismo

O armazenamento de energia apareceu como um dos temas centrais do painel. Com o crescimento acelerado das fontes renováveis intermitentes, como solar e eólica, especialistas avaliam que a expansão do uso de baterias será decisiva para garantir estabilidade ao sistema elétrico.

Representando a Baterias Moura, Gustavo Moura afirmou que a empresa vem ampliando sua atuação para atender à nova dinâmica energética.

“Hoje, 80% da energia do Nordeste é renovável e competitiva, mas precisamos encontrar formas de colocar essa energia no sistema sem comprometer os investimentos”, afirmou.

Ele destacou que a legislação federal já reconheceu o “agente armazenador de energia” como participante do setor elétrico, mas o mercado ainda aguarda regulamentação e a realização de leilões específicos para baterias.

Moura também ressaltou os desafios da competição global no setor, especialmente diante da escala chinesa. “A China decidiu dominar essa indústria e articulou universidades, mão de obra e financiamento para isso”, afirmou.

Apesar disso, ele acredita que o Brasil pode competir em nichos estratégicos ligados à prestação de serviços, eficiência energética e relacionamento com clientes. “A gente precisa de previsibilidade, custo competitivo de capital e coordenação entre Estado e setor privado.”

Nova industria exige mão de obra qualificada

A formação profissional também apareceu como um dos pilares centrais da estratégia regional. João Salles afirmou que Pernambuco vem investindo em programas voltados à inovação e tecnologia, incluindo iniciativas que alcançam cerca de 40 mil alunos.

“A gente precisou criar capacidade técnica dentro do próprio Estado para desenvolver projetos estruturantes”, afirmou.

Segundo ele, o governo estadual montou uma estrutura específica para elaboração de projetos de infraestrutura e atração de investimentos, com contratação de engenheiros e técnicos especializados.

segundo painel do evento Análise Ceplan - Luciano Coutinho, ex-presidente do BNDES  e economista Luciano Coutinho
Ex-presidente do BNDES, o economista Luciano Coutinho destacou que o Nordeste deve buscar protagonismo também em aplicações de inteligência artificial. Foto: Lidiane Evelyn/Divulgação

Data centers, minerais estratégicos e IA entram no radar

Além das cadeias tradicionais, Luciano Coutinho defendeu que o Nordeste também precisa se posicionar em setores emergentes ligados à economia digital e à transição energética.

Entre as oportunidades citadas estão data centers, inteligência artificial, minerais estratégicos e metalurgia verde.

“O principal custo operacional de um data center é energia. E o Nordeste tem energia renovável abundante”, afirmou.

Para ele, a região precisa ir além de apenas hospedar infraestrutura tecnológica e buscar protagonismo também em aplicações de inteligência artificial. “O Nordeste tem tradição em tecnologia, tem Porto Digital, tem universidades e pode se tornar um centro de desenvolvimento de soluções.”

Coutinho também chamou atenção para o potencial de exploração de minerais estratégicos utilizados em baterias e equipamentos tecnológicos, como grafite, níquel, vanádio e terras raras.

“A metalurgia é intensiva em energia. Então, o Nordeste pode desenvolver uma metalurgia verde baseada em renováveis”, disse.

Planejamento regional como condição para competitividade

Ao longo de todo o debate, um consenso se consolidou entre os participantes: o Nordeste possui ativos competitivos relevantes, mas precisará de planejamento integrado, governança e coordenação entre União, estados e iniciativa privada para transformar o potencial energético em desenvolvimento econômico sustentável.

A avaliação predominante é que a região vive uma janela histórica de oportunidade diante da reorganização das cadeias globais e da busca internacional por energia limpa e produtos descarbonizados.

Mas especialistas alertam que, sem estratégia industrial territorializada, infraestrutura adequada e fortalecimento das cadeias produtivas locais, o Nordeste corre o risco de permanecer apenas como exportador de energia e commodities, sem capturar os empregos, a renda e a inovação associados à nova economia verde.

“O Nordeste precisa ousar pensar grande”, resumiu Luciano Coutinho. “Temos uma oportunidade concreta de construir uma nova etapa de desenvolvimento regional baseada em energia, tecnologia, indústria e serviços.”

O evento é realização da Ceplan Consultoria em parceria com o Movimento Econômico, com patrocínio da Caixa Econômica Federal e do Banco do Nordeste.

Leia mais: Ceplan celebra 30º ano com Powershoring Intelligence e fórum sobre NE

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