
Com renda mais apertada e maior dependência de crédito, o Nordeste concentra hoje alguns dos sinais mais agudos de deterioração financeira das famílias brasileiras. O relançamento do Desenrola 2.0 recolocou o tema no centro do debate nacional, mas os indicadores da região mostram que o peso das dívidas, o atraso no pagamento de contas e a dificuldade de recomposição do orçamento familiar atingem níveis mais severos do que em outras partes do país.
Pesquisas realizadas pelas Federações do Comércio de Bens, Serviços e Turismo apontam para um mesmo cenário: o endividamento tem comprometido a renda das famílias nordestinas.
Em Maceió, por exemplo, 83,4% dos domicílios possuem contas em atraso, percentual bem acima da média nacional de 70%. Em Natal, 84,6% das famílias estão endividadas e 49% das dívidas em atraso no Rio Grande do Norte já ultrapassam 90 dias.
Em Recife, a edição mais recente da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor aponta que 80,9% das famílias estavam endividadas em março de 2026. Já em Salvador, o percentual de famílias endividadas subiu de 64,9%, em março de 2025, para 76,3% agora, o que representa 610.951 domicílios com dívidas na capital baiana.
Para o presidente do Instituto Brasileiro de Finanças Digitais, o advogado Rodrigo de Abreu Pinto, o problema é nacional, mas tende a se agravar no Nordeste por causa da estrutura de renda da região. “Hoje, 70% dos brasileiros têm algum tipo de dívida e quase 30% da renda das famílias está comprometida com prestações, segundo dados do Banco Central. No Nordeste, porém, os dados oficiais mostram que esse peso tende a ser maior, tanto em volume quanto em dificuldade de pagamento”, destaca.
A diferença regional aparece não apenas no tamanho da dívida, mas na dificuldade de sair dela. Um estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Ibre e Serasa aponta que 89% das famílias apresentam dificuldade de pagamento e em Fortaleza, o patamar de endividamento chega a 71% das famílias, enquanto a parcela da renda comprometida atinge 42%. O dado ajuda a dimensionar um problema que vai além do simples acesso ao crédito e se aproxima de uma compressão mais permanente do orçamento doméstico.
Na avaliação de Rodrigo de Abreu, o problema no Nordeste tende a ser mais persistente exatamente porque a renda mais baixa deixa menos margem para reorganizar as finanças. “O problema não é só o volume, mas a capacidade de pagamento. Em regiões com renda menor, desequilíbrios desse tipo têm impacto mais prolongado”, afirma.

Esse quadro ajuda a explicar por que o relançamento do Desenrola 2.0 encontra no Nordeste um ambiente particularmente sensível. Mais do que renegociar dívidas, o programa volta a um cenário em que famílias já operam com pouca folga orçamentária, maior vulnerabilidade a choques de renda e mais dificuldade para recompor a capacidade de consumo depois de períodos de inadimplência.
Crédito caro amplia pressão sobre famílias
Entre os fatores que sustentam esse quadro, o cartão de crédito continua aparecendo como um dos principais vetores do endividamento. Segundo o Banco Central, o rotativo do cartão opera com juros médios de 15% ao mês. Ao mesmo tempo, levantamento do Datafolha mostra que 27% dos brasileiros usam essa modalidade com frequência.
Para Rodrigo de Abreu, a ampliação do acesso ao crédito, especialmente por meios digitais, também contribuiu para agravar o comprometimento da renda das famílias. “A digitalização, o crescimento de fintechs que oferecem crédito instantâneo e ferramentas como Pix e Open Finance ampliaram o acesso ao crédito de forma inédita. Isso é positivo do ponto de vista da inclusão, mas não veio acompanhado de educação financeira na mesma velocidade”, afirma.
A observação ajuda a entender por que o problema se torna mais agudo em regiões de renda menor. O crédito, que em muitos casos funciona como alívio de curto prazo, acaba se convertendo em pressão contínua sobre o orçamento quando não é acompanhado de capacidade real de pagamento. No Nordeste, onde a renda média é menor e o consumo já opera mais próximo do limite, esse desequilíbrio tende a produzir efeitos mais duradouros.

Apostas online disputam renda das famílias
Outro fator que passou a pressionar diretamente a renda disponível das famílias é o avanço das apostas online. Na prática, as bets passaram a disputar espaço com despesas essenciais e com o próprio pagamento de dívidas, consumindo recursos que antes poderiam ser destinados a contas de energia, cartão de crédito, empréstimos pessoais e até alimentação.
Segundo a CNC, os brasileiros já gastam R$ 30 bilhões por mês em apostas. A entidade estima que esse fluxo contribuiu para levar 270 mil famílias à inadimplência e retirou R$ 143 bilhões do varejo desde 2023. Como resposta, o Desenrola 2.0 prevê o bloqueio do CPF dos participantes para uso nessas plataformas por 12 meses.
No Nordeste, onde a renda é mais comprimida, esse efeito tende a ser ainda mais sensível. Isso porque qualquer desvio adicional de recursos pesa com mais intensidade sobre famílias que já convivem com orçamento apertado, crédito caro e alto comprometimento da renda.
Na avaliação de Rodrigo de Abreu Pinto, a resposta também passa por medidas simples de organização financeira, especialmente em um ambiente em que o crédito continua facilmente acessível e caro ao mesmo tempo. A orientação, segundo ele, é definir um limite de gastos inferior ao do cartão, acompanhar a fatura ao longo do mês, evitar o uso do crédito rotativo, optar por parcelamentos apenas em situações emergenciais, concentrar despesas em um único cartão e manter distância de plataformas de apostas.
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