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Carnaval que gera renda: a engrenagem invisível por trás da folia

Com impacto bilionário, a festa movimenta negócios formais e informais, antecipa contratações e transforma criatividade em geração de renda
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Adriana Cuentro
Adriana Cuentro: 1.000 fantasias confeccionadas por ano/Foto:divulgação

Por Mariana Araújo, especial para o Movimento Econômico*

Por trás das fantasias, do som das orquestras e da multidão que toma as ruas do Recife e de Olinda todos os anos, existe uma engrenagem econômica forte, diversa e, muitas vezes, invisível. O Carnaval de Pernambuco, reconhecido como uma das maiores manifestações culturais do país, é também um dos principais impulsionadores da economia criativa no Estado, movimentando uma cadeia produtiva que começa meses antes da folia e se estende além da festa.

Profissionais como artesãos, costureiras, figurinistas, músicos, dançarinos, cenógrafos, técnicos de som e luz, produtores culturais, ambulantes e muitos outros integram um ecossistema que une criatividade e geração de renda.

Para Eduardo Maciel, especialista em economia criativa do Sebrae-PE, o Carnaval é um exemplo concreto de como a cultura pode ser compreendida como vetor estratégico de desenvolvimento. “O Carnaval não é apenas um evento. Ele é um sistema produtivo complexo, que ativa diferentes elos da economia criativa e gera impacto direto e indireto em diversos setores”, afirma.

Segundo ele, o grande diferencial pernambucano está no caráter autoral da produção cultural. “Aqui, a festa é feita por quem vive a cultura o ano inteiro. São grupos, artistas e empreendedores que carregam um conhecimento acumulado, passado de geração em geração, e que transformam isso em produtos e serviços com forte identidade local”, destaca.

Eduardo Maciel
“Carnaval é sistema produtivo complexo”, diz Eduardo Maciel/Foto: divulgação

Essa engrenagem criativa se reflete também nos números da economia. De acordo com Rafael Lima, economista da Fecomércio-PE, as estimativas apontam para uma circulação próxima de R$ 3 bilhões em Pernambuco durante o período carnavalesco, considerando gastos com hospedagem, alimentação, transporte, entretenimento e consumo em geral. “O impacto positivo se espalha pelo comércio, pelos serviços e pelo turismo, reforçando a importância do Carnaval como um dos momentos mais relevantes do calendário econômico do Estado”, observa.

Festa começa meses antes

Para que os blocos e agremiações estejam prontos para desfilar, o trabalho começa meses antes, com a produção de fantasias, adereços, cenários e ensaios que mobilizam ateliês, oficinas e espaços culturais espalhados pela Região Metropolitana e pelo interior. O folião que vai às ruas também busca sua fantasia.

Esse movimento antecipado também contribui para a geração de trabalho temporário e informal. Segundo Rafael Lima, o Carnaval funciona como um vetor de ocupação sobretudo no setor terciário. “A ampliação da demanda por alimentação, bebidas, adereços e serviços nas ruas estimula empreendedores e comerciantes a se organizarem previamente para atender à sazonalidade. A contratação temporária acaba sendo uma alternativa recorrente para dar conta do aumento do fluxo de consumidores”, explica.

“Tem gente que passa o ano inteiro se preparando para o Carnaval. É um período intenso de trabalho, que garante boa parte da renda anual de muitos profissionais criativos”, complementa Maciel. “Quando a gente fala de economia criativa, estamos falando justamente da capacidade de transformar conhecimento, cultura e criatividade em geração de valor econômico”, pontua.

Dil Alves
Dil Alves: produção o ano inteiro/ Foto: divulgação

A empreendedora Dil Alves, proprietária da marca Oficina Dil, largou a advocacia há quatro anos para investir na produção de fantasias e roupas de festa estilizadas e exclusivas. A preparação para o período momesco começa em junho, quando viaja a São Paulo para pesquisar tendências e materiais. Em 2026, ela estima vender cerca de 200 peças no período momesco. 

“Recife tem Carnaval o ano inteiro. Em festas como aniversários, por exemplo, muitas clientes me encomendam roupas especiais para a ocasião, com a temática mais festiva e colorida. Fora isso, os foliões começam a vivenciar o Carnaval muito antes, com as prévias e festas organizadas por blocos”, afirma.

Transformando pico em permanência

Mesmo que para Dil Alves haja oportunidades o ano inteiro, no geral, um dos principais desafios enfrentados por quem desenvolve atividades ligadas à festa é a sazonalidade. A concentração da demanda em um curto período do ano dificulta a sustentabilidade financeira de muitos empreendedores criativos que se dedicam majoritariamente ao Carnaval.

“O grande gargalo é como fazer com que essa produção não fique restrita a poucos dias. Existe um potencial enorme para que o conhecimento, a estética e as experiências do Carnaval sejam desdobrados em produtos e serviços consumidos ao longo do ano”, avalia Eduardo Maciel.

Trabalhando há mais de 30 anos na confecção de roupas, a empreendedora Adriana Cuentro conseguiu driblar a dificuldade da sazonalidade e usar suas habilidades apara além do Carnaval, gerando oportunidade de renda para o ano todo. Ela trabalha elaborando figurinos para apresentações artísticas escolares. Por ano, são cerca de 1.000 fantasias confeccionadas para essa finalidade.

“O Carnaval abriu as portas para esse mercado. Consigo trabalho para todo o ano”, conta. Hoje ela trabalha em um ateliê na sua casa, onde faz os desenhos e modelagem das peças. Já teve um espaço com sete funcionários, mas, com a experiência, percebeu que era melhor terceirizar. “Estimulei minhas costureiras a trabalharem de casa e hoje elas são minhas fornecedoras”, explica. 

Na avaliação de Rafael Lima, o potencial da festa dialoga diretamente com tendências como a digitalização e a economia da experiência. “O uso intensivo das redes sociais, das plataformas digitais e dos aplicativos de mensagens muda a forma como os produtos carnavalescos são divulgados e comercializados. A experiência de compra passa a influenciar o consumo, desde a promoção até o pagamento, alterando a relação entre consumidores, produtores e organizadores”, analisa.

“O Carnaval mostra que cultura não é gasto, é investimento”, resume Maciel. “Ele gera trabalho, movimenta a economia e projeta Pernambuco para o mundo. O desafio agora é ampliar esse olhar e garantir que essa riqueza criativa continue gerando oportunidades durante todo o ano.”

Política de desenvolvimento

Para Maciel, o fortalecimento da economia criativa passa, necessariamente, por políticas públicas, acesso a crédito, capacitação e articulação entre instituições, setor privado e os próprios criativos. “Não basta reconhecer o valor cultural do Carnaval. É preciso criar condições para que ele se consolide também como um negócio sustentável, com planejamento, gestão e inovação”, defende.

Rafael Lima acrescenta que, do ponto de vista econômico, o principal desafio está na capacidade da infraestrutura urbana, especialmente nas áreas de transporte, saúde e segurança, diante da intensa concentração de pessoas. “São pontos que exigem atenção permanente do poder público. Ao mesmo tempo, o Carnaval representa uma grande oportunidade de ampliação dos negócios nos setores de comércio e serviços, impulsionada pela elevada movimentação turística”, pondera.

Turismo ganha força

O impacto do carnaval se estende para além do setor cultural. Turismo, hotelaria, gastronomia, transporte e comércio são diretamente beneficiados pelo fluxo de foliões, turistas e profissionais que circulam pela cidade. O efeito multiplicador da festa movimenta a economia local e reforça a imagem de Pernambuco como destino cultural no Brasil e no exterior.

Segundo dados do Ministério do Turismo, 3,6 milhões devem participar da festa no Recife. Já Olinda espera receber mais de 4 milhões de foliões. Em todo o Brasil, mais de 65 milhões de foliões devam participar dos festejos de Momo em todo o Brasil, um aumento de 22% em comparação com 2025.

A Associação Brasileira da Indústria de Hotéis de Pernambuco (ABIH-PE) prevê uma ocupação de 95% da rede hoteleira em Pernambuco e de 97% em Olinda. Destinos como Litoral Sul (Ipojuca, Tamandaré, Carneiros) devem registrar 97% de ocupação e Fernando de Noronha, 89,85%. No Agreste, são esperados 90% dos leitos preenchidos.

“O dado mais relevante para a hotelaria do período é a consistência da alta demanda, que reforça o Carnaval de Pernambuco como um dos mais fortes e atrativos do país”, reforça Júlia Malheiros, assessora estratégica da ABIH-PE.

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