
O campo do empreendedorismo social no Brasil está vivendo um ponto de virada: é o momento de transição da mera filantropia para a gestão profissional de impacto. Este é o argumento central que impulsiona o livro “Zero” e que norteou sua recente turnê de lançamentos em importantes centros como Recife, São Paulo, Brasília e João Pessoa. A iniciativa, liderada por Fábio Silva, fundador e CEO da Rede Muda Mundo, busca romper com a crença de que projetos sociais devem ser frágeis do ponto de vista econômico.
“O principal movimento é tirar o impacto social do lugar da boa intenção e levá-lo para o campo da gestão,” afirma Fábio Silva. Ele explica que o livro tenta virar a chave de uma crença muito forte: de que “a busca por sustentabilidade financeira é incompatível com propósito”.
Propósito não substitui estrutura
Para o autor, a urgência de resolver problemas sociais complexos exige uma nova postura. O propósito, por si só, não garante a perenidade das soluções. ”Em ‘Zero’ eu mostro que, se queremos escala, perenidade e capacidade de resolver problemas complexos do país, precisamos tratar iniciativas sociais como operações profissionais,” detalha Silva. “Isso significa ter modelo de negócio, governança, indicadores e diálogo direto com investidores, bancos e empresas. Propósito não substitui estrutura. Impacto não se sustenta sem modelo econômico.”
O livro, portanto, serve como uma linguagem comum entre dois mundos que historicamente se olham aparentemente com distância: o ecossistema social e o sistema financeiro. Nos lançamentos, o objetivo foi reunir empreendedores, gestores públicos, bancos, fundos e empresas para discutir o impacto como uma classe de ativo, e não apenas como um custo.

”Quando um banco, um fundo de investimento ou uma grande empresa escuta a narrativa de ‘Zero’ e enxerga método, governança e histórico de entrega, a conversa deixa de ser só sobre doação e passa a ser sobre investimento em impacto com retorno social e, muitas vezes, econômico,” destaca o CEO da Rede Muda Mundo.
Mapa da maturidade do impacto no Brasil
A turnê de lançamentos funcionou como um grande mapeamento do estágio de maturidade do empreendedorismo social nas diferentes regiões do país. No Recife, o ecossistema demonstrou estar “bastante articulado, com hubs, organizações e empreendedores que vêm amadurecendo há mais de uma década”. A região se destaca pela densidade de redes e um entendimento claro de que a inovação social é um vetor de desenvolvimento, segundo Fábio Silva.
São Paulo tem a característica de ser o lugar onde o capital está mais concentrado, com forte presença de fundos, family offices, institutos empresariais e estruturas robustas de ESG (Environmental, Social and Governance). O desafio paulistano, contudo, não é a falta de recurso, mas sim “aproximar esse capital de iniciativas que realmente entregam impacto mensurável”.

João Pessoa, por sua vez, aponta Silva, representa bem a força criativa e a urgência social do Nordeste. Há muitos projetos nascendo, mas ainda com lacunas em termos de governança e conexão com instrumentos de financiamento mais estruturados, de acordo com o autor. O livro, nesse contexto, ajuda a abrir portas para que projetos locais dialoguem com investidores que até então estavam distantes.
Já Brasília traz um componente único: a política pública. “Lá, a conversa é com quem desenha programas nacionais, regula marcos legais e decide onde o dinheiro público vai ser investido,” afirma o CEO. Por lá, a maturidade do impacto está ligada à capacidade de transformar experiências de sucesso em política de Estado.

Fomentar cultura: resultados e próximos passos
A expressão “fomentar cultura” utilizada na turnê de lançamentos não se restringe à venda de exemplares, mas a um ativismo de mercado que busca mudar o mindset do ecossistema. Na prática, o trabalho gerou três resultados tangíveis: novas conexões qualificadas entre empreendedores, empresas e organizações; aproximação de capital, com fundos e instituições financeiras que olham para ESG encontrando operações reais; e a revelação de talentos que, com potencial de se transformar em negócios, podem ser apoiados com capital, mentoria e rede.
”Fomentar cultura, para mim, é justamente isso: criar um ambiente em que esses encontros acontecem com mais frequência e profundidade,” resume Silva.
O livro “Zero” não termina na última página. O próximo passo é transformar o conteúdo em insumo permanente de formação, levando-o para conselhos empresariais, universidades e escolas de governo. Nos mercados que demonstraram maior necessidade de estímulo (como João Pessoa), o objetivo é apoiar a criação de núcleos locais de impacto conectados à Rede Muda Mundo.
Impacto social, vetor de competitividade
O ponto final e mais estratégico da análise do CEO é sobre o ângulo econômico: “Impacto social não é um tema lateral, é um vetor de competitividade para o país”. Fábio Silva conclui que, ao falar em inovação, produtividade, inclusão produtiva e cidades mais resilientes, estamos abordando diretamente o ambiente de negócios e o desenvolvimento econômico.
”O que o livro mostra, na prática, é que existe uma fronteira muito promissora em que sociedade civil, setor privado, sistema financeiro e poder público podem trabalhar juntos,” afirma. Se essa convergência for organizada, o impacto social será reconhecido como um ativo estratégico para o crescimento do país.
Leia mais: R$ 113 bilhões versus mão de obra: o paradoxo da nova indústria no Nordeste









