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Braskem hiberna unidade cloro-soda e mantém operação portuária em Maceió

Paralisação da unidade foi concluída em setembro e deixa futuro da Braskem em Alagoas mais incerto
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Unidade da Braskem em Maceió no bairro do Pontal da Barra
Unidade da Braskem em Maceió no bairro do Pontal da Barra/Foto: Braskem

A unidade de cloro-soda da Braskem, localizada no bairro do Pontal da Barra, em Maceió, está com suas atividades produtivas totalmente paralisadas desde setembro deste ano. A planta, que por décadas foi um dos pilares da produção industrial química em Alagoas, atualmente opera apenas como estrutura portuária para o recebimento de navios com dicloretano, produto químico utilizado na fabricação de PVC e destinado à unidade da empresa em Marechal Deodoro. A informação foi confirmada ao Movimento Econômico pelo Sindicato dos Petroleiros de Alagoas e Sergipe (Sindipetro AL/SE).

Segundo o diretor colegiado da entidade, Antônio Freitas da Silva, a empresa comunicou no ano passado que iria realizar a hibernação das três chamadas “casas de célula”, setores responsáveis pela produção de cloro-soda, em razão do alto custo de importação de sal seco do Chile, insumo fundamental para a operação. O produto é adquirido de jazidas licenciadas e o processo é feito por uma empresa especializada.

A hibernação da planta começou em janeiro, de forma gradual, e foi concluída em setembro, com a paralisação da última célula ainda em funcionamento. “A previsão era que a primeira célula fosse hibernada em abril, eles anteciparam para janeiro. Em maio eles hibernaram outra casa de célula alegando problemas operacionais e em setembro fizeram a hibernação da última casa de célula. Sabemos que isso é definitivo e que não haverá retorno. A planta do Pontal hoje está sucateada, então precisaria de um investimento alto para reativar, o que sabemos não vai ocorrer”, explicou Freitas.

Desde então, a planta do Pontal funciona apenas para receber embarcações carregadas com dicloretano oriundo dos Estados Unidos. O produto é desembarcado no terminal marítimo da Braskem e bombeado por dutos até a fábrica de PVC localizada no município de Marechal Deodoro.

Com a paralisação das operações, a Braskem iniciou a redistribuição dos trabalhadores da unidade. Segundo o Sindipetro, parte dos cerca de 350 empregados começou a ser realocada para unidades da companhia em São Paulo, Bahia, Rio Grande do Sul e para Marechal Deodoro. Ao menos sete desligamentos já foram registrados.

“O que queremos evitar é a demissão em massa. A estimativa da entidade é que cerca de 90 trabalhadores permaneçam lotados na unidade do Pontal apenas para garantir o funcionamento da estrutura portuária”, disse o sindicalista.

Unidade Industrial - Marechal Deodoro Braskem
Unidade de PVC da Braskem, localizada em Marechal Deodoro, recebe dicloretano vindo da unidade do Pontal da Barra. Foto: Braskem

Movimentação portuária da Braskem em queda

Dados da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) confirmam a retração nas operações da unidade da Braskem no Pontal. Em 2024, a movimentação portuária no Terminal Braskem somou 579.846 toneladas, com queda de 15,29% em relação ao ano anterior. Já no acumulado de janeiro a julho de 2025, foram registradas apenas 229.978 toneladas movimentadas, uma redução de 60,39% em relação ao mesmo período de 2024.

A maior parte da movimentação registrada se concentra em produtos químicos inorgânicos, especialmente o dicloretano. Toda a operação logística se dá por cabotagem, com embarcações de longo curso reduzidas ao mínimo.

as importações de sal do Chile também vêm apresentando queda. Em 2024, via Porto de Maceió foram importadas o equivalente a US$ 36,1 milhões, representando 4,2% do total importado por Alagoas no ano. Já entre janeiro e setembro deste ano as importações de sal do Chile caíram para 2,3%, representando US$18,3 milhões.

A importação de sal do país sul-americano teve início em 2021 após as operações na planta do Pontal da Barra terem sido interrompidas em 2019 em decorrência dos abalos sísmicos em Maceió e que culminaram com rachaduras e esvaziamento de cinco bairros.

A petroquímica informou ao Movimento Econômico que entre 2021 e maio de 2024 importou 1,8 milhão de toneladas de sal para abastecer a produção de cloro, soda-cáustica e do composto químico dicloroetano.

“A empresa investiu R$ 67 milhões em adequações tecnológicas e de infraestrutura na fábrica do Pontal da Barra e na logística rodoviária e portuária para integrar o processo de transporte de sal. A matéria-prima vinda de jazidas licenciadas do Chile chega pelo Porto de Maceió, onde é armazenada e, em seguida, transportada até a fábrica por meio de carretas, que circulam em horário comercial”, explicou a Braskem por meio de nota à época.

Além da paralisação, o sindicato informou que a empresa já iniciou o processo de desmontagem de estruturas da planta do Pontal. “Hoje, a planta do Pontal está sucateada, precisa de novos equipamentos. Ela só voltaria a operar se tivesse uma nova autorização de exploração de sal-gema, eles tentaram em Paripueira, mas a população foi contra. Hoje, um a nova planta custaria à Braskem US$ 1 bilhão. Então materiais como cobre, níquel e aço carbono estão sendo separados para venda como sucata industrial, o que pode render cerca de R$ 40 milhões para eles”, destacou Freitas.

Região do Mutange e Bebedouro está desabitada após afundamento de solo ocasionado pela extração de sal-gema pela Braskem
Região do Mutange e Bebedouro está desabitada após afundamento de solo ocasionado pela extração de sal-gema pela Braskem. Foto: Itawi Albuquerque / Secom Maceió

Contexto financeiro e institucional da Braskem

A Braskem atravessa um momento de instabilidade institucional e reestruturação financeira, com reflexos diretos sobre sua operação em Alagoas. Em setembro de 2025, a empresa sacou US$ 1 bilhão de uma linha de crédito stand-by para reforçar seu caixa, que passou a somar cerca de US$ 2,3 bilhões. O movimento é parte de uma política de “gestão de caixa conservadora”, adotada em meio à deterioração dos resultados financeiros globais do setor químico.

Simultaneamente, a Braskem iniciou tratativas com bancos para renovar uma linha de crédito não garantida de mesmo valor, originalmente contratada em 2021, e contratou assessores financeiros e jurídicos para avaliar alternativas de estrutura de capital.

No mercado, o banco Citi rebaixou a ação da empresa, projetando queda de 18% na receita líquida e retração de 77% no EBITDA ajustado no terceiro trimestre. O preço-alvo do papel foi reduzido para R$ 8 e a classificação passou a ser de “alto risco”.

O cenário se agrava diante das negociações em curso para venda da participação da Novonor, acionista controladora da Braskem. O negócio depende da aceitação, por parte de compradores, da responsabilidade ambiental pelo colapso das minas de sal em Maceió, um ponto de entrave entre o grupo de Nelson Tanure e a Petrobras. A IG4 Capital, por sua vez, também apresentou proposta alternativa.

A situação da unidade de cloro-soda em Maceió, portanto, ocorre em meio a reestruturações corporativas e financeiras amplas, o que pode explicar a redução gradual de operações e o silêncio oficial da companhia sobre medidas internas mais recentes.

Em agosto, uma fonte próxima à petroquímica confirmou ao Movimento que a Braskem já teria comunicado a Gás de Alagoas (Algás) o encerramento da produção de cloro-soda em Maceió. A medida deve provocar impacto direto na economia estadual, já que a companhia é o maior consumidor industrial de gás natural em Alagoas e uma das indústrias de maior peso na economia local.

A desativação da unidade deve reduzir significativamente a demanda de gás distribuído pela Algás, o que afeta a receita da concessionária e pode repercutir na arrecadação de ICMS. Segundo apuração, o governo de Alagoas está ciente do caso e avalia internamente os efeitos sobre as contas públicas e o desempenho econômico do estado.

A reportagem do Movimento Econômico entrou em contato com a Braskem solicitando posicionamento sobre a paralisação da planta e o futuro da operação em Maceió, mas não obteve resposta até o fechamento desta matéria.

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