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Paraíba quântica: parceria com China inicia nova era computacional no Brasil

MCTI e governo da Paraíba instalam em agosto, com a China, os primeiros computadores quânticos operacionais da América Latina, em centro de R$ 200 milhões
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  1. Brasil receberá dois computadores quânticos de 20 e 100 qubits em agosto, instalados na Paraíba em centro de R$ 200 milhões.
  2. Centro Internacional de Computação Quântica da Paraíba foi oficializado em 19 de junho pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.
  3. Projeto prevê fabricação própria de chips quânticos no Brasil, elevando o país a disputa tecnológica global estratégica.
  4. Centro operará 24 horas diárias com programa de residência de R$ 20 milhões e capacitação de 500 profissionais.
  5. Infraestrutura resultante de parceria com centro chinês de tecnologia quântica do Yangtze River Delta, em Suzhou.
Pesquisadores testam chips quânticos no Yangtze River Delta Industrial Innovation Center for Quantum Technology, em Suzhou, na China, parceiro do Brasil no projeto que instalará os primeiros computadores quânticos operacionais da América Latina na Paraíba. Foto: Xinhua/China Daily
Pesquisadores testam chips quânticos no Yangtze River Delta Industrial Innovation Center for Quantum Technology, em Suzhou, na China, parceiro do Brasil no projeto que instalará os primeiros computadores quânticos operacionais da América Latina na Paraíba. Foto: Xinhua/China Daily

O Brasil receberá em agosto deste ano seus dois primeiros computadores quânticos operacionais, com capacidades de 20 e 100 qubits, unidades que processam informações em múltiplos estados simultâneos e cuja tecnologia poucos países no mundo dominam. Os equipamentos serão instalados na Paraíba dentro de um centro com investimento de R$ 200 milhões e ambição de avançar para a fabricação própria desses componentes. A infraestrutura é fruto de parceria com o Yangtze River Delta Industrial Innovation Center for Quantum Technology, da China, e vem acompanhada de um programa de residência com R$ 20 milhões, 156 bolsas e capacitação de 500 profissionais em seis cidades do país.

O Centro Internacional de Computação Quântica da Paraíba (CIQUANTA-PB) foi oficializado no dia 19 de junho pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) durante cerimônia em João Pessoa, com a presença da ministra Luciana Santos e do governador Lucas Ribeiro. O centro concentrará pesquisas em inteligência artificial, saúde, segurança digital e novos materiais, operando em regime de 24 horas por dia, 7 dias por semana, com administração compartilhada entre os governos estadual e federal e acesso remoto via plataforma em nuvem para pesquisadores de todo o país.

Para Luciana Santos, o empreendimento reforça a capacidade nacional em uma área estratégica para a soberania tecnológica e o desenvolvimento econômico. “O Centro Internacional de Computação e Tecnologias Quânticas será um ambiente de excelência em pesquisa, desenvolvimento e inovação. Estamos construindo aqui uma infraestrutura científica de classe mundial”, afirmou.

Fabricação de chips e posição estratégica

O projeto prevê ainda o avanço para a fabricação própria de chips quânticos no Brasil. O secretário da Ciência, Tecnologia, Inovação e Ensino Superior da Paraíba, Claudio Furtado, afirmou que o passo insere o país em uma disputa tecnológica de alcance global. “A grande novidade é o interesse em avançar também para a fabricação desses chips. Isso nos eleva a outro patamar, porque não se trata apenas da tecnologia do computador quântico, mas da capacidade de desenvolver componentes estratégicos em uma área que hoje é objeto de disputa tecnológica mundial”, disse.

O investimento total é de R$ 200 milhões: R$ 140 milhões aportados pelo governo estadual e R$ 60 milhões pelo governo federal, em acordo de cooperação firmado em novembro de 2025. O centro será instalado na Estação Ciência Cabo Branco, em João Pessoa, em espaço com mais de 5,1 mil metros quadrados dotado de sistemas criogênicos, salas blindadas e estruturas de estabilização ambiental. Enquanto os chips convencionais processam informações de forma binária, em sequências de 0 ou 1, os chips quânticos utilizam qubits capazes de representar ambos os estados simultaneamente, o que permite realizar cálculos complexos com velocidade superior à da computação clássica.

Para manter essas propriedades, os equipamentos precisam operar em condições extremas. “O chip do computador quântico precisa estar refrigerado abaixo de 10 milikelvin (mK), o que está um pouquinho acima do zero absoluto (273 graus Celsius negativos). Esse chip precisa estar em uma temperatura muito baixa para manter essas propriedades quânticas”, explicou o pesquisador Amílcar Queiroz, da UFCG.

O CIQUANTA-PB também dará origem a um Hub Nacional de Experimentação Quântica para compartilhamento de laboratórios, equipamentos e conhecimento entre pesquisadores, universidades e empresas, com acesso remoto às máquinas via plataforma em nuvem.

Centro Internacional de Computação Quântica da Paraíba está sediado em Cabo Brancp, João Pessoa. Foto: MCTI/Reprodução
Centro Internacional de Computação Quântica da Paraíba está sediado na Estação Ciência Cabo Branco, em João Pessoa, com mais de 5,1 mil metros quadrados de área construída. Foto: MCTI/Reprodução

Parceria com a China e cronograma

O parceiro chinês do projeto é o Yangtze River Delta Industrial Innovation Center for Quantum Technology, vinculado ao 54º Instituto de Pesquisa da China Electronics Technology Group Corporation (CETC), estatal chinesa do setor de eletrônica e defesa. A parceria prevê não apenas o fornecimento dos equipamentos, mas a transferência de tecnologia e o desenvolvimento conjunto de computadores de maior porte no futuro, incluindo a implantação de redes de comunicação quântica entre João Pessoa e Campina Grande (PB).

Em junho de 2025, o centro chinês assinou acordo de cooperação em Chengdu com a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e a Universidade Federal da Paraíba (UFPB) para pesquisa aplicada em computação quântica no campo da ciência espacial. A cooperação incluirá algoritmos quânticos para processamento de dados do radiotelescópio BINGO (Baryon Acoustic Oscillations from Integrated Neutral Gas Observations), instalado na Serra da Catarina, no município de Aguiar (PB), no sertão do Vale do Piancó, a 420 quilômetros de João Pessoa. A colaboração ampliará as capacidades de observação astronômica no Hemisfério Sul, com foco na exploração da região central da Via Láctea.

A presença da CETC 54 nos dois projetos paraibanos gerou tensão diplomática. Em março de 2026, relatório do Congresso dos Estados Unidos classificou o BINGO como componente de suposta rede de inteligência chinesa no Hemisfério Sul, citando o papel da estatal na fabricação da estrutura física e dos refletores do telescópio — a mesma empresa que fornece os computadores quânticos do CIQUANTA-PB. A CETC 54 figura na lista de restrições do Departamento de Comércio dos EUA, que proíbe empresas norte-americanas de fornecerem tecnologia à estatal sem licenças especiais. O governo da Paraíba e a coordenação científica do BINGO, liderada pela USP e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), defendem o caráter estritamente científico das iniciativas.

Treinamento de pesquisadores brasileiros

O cronograma prevê treinamento de pesquisadores brasileiros no centro chinês entre junho e julho de 2026, chegada dos equipamentos em agosto e montagem pela equipe nacional até outubro. Claudio Furtado destacou que profissionais das áreas de engenharia elétrica, computação e física já participam de treinamentos com os parceiros chineses. “Esse pessoal vai acompanhar a montagem dos nossos computadores quânticos e se integrar ao esforço de formação de pessoas nas diversas áreas envolvidas no projeto”, afirmou o secretário da Ciência, Tecnologia, Inovação e Ensino Superior da Paraíba.

O pesquisador Amílcar Queiroz, professor da UFCG e presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa da Paraíba (Fapesq), detalhou que as pesquisas concentrarão em novos algoritmos, simulação de materiais, otimização, aprendizado de máquina quântico e aprimoramento de hardware, com aplicações esperadas em fármacos, agricultura de precisão, otimização financeira e materiais avançados.

MCTI lança programa de residência em tecnologias quânticas para formar especialistas e impulsionar deeptechs brasileiras
Ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Luciana Santos, lançou no dia 19, em João Pessoa (PB), o Projeto Residência em Tecnologias Quânticas – Qualificação e Empreendedorismo de DeepTechs Nacionais. Foto: Diego Galba/Ascom MCTI

Formação de pessoal e residência quântica

No mesmo evento do dia 19 de junho, o MCTI lançou o Projeto Residência em Tecnologias Quânticas — Qualificação e Empreendedorismo de DeepTechs Nacionais, com investimento de R$ 20 milhões ao longo de 36 meses, 156 bolsas e uma equipe técnica multidisciplinar de igual dimensão. A expectativa é capacitar cerca de 500 estudantes, pesquisadores e profissionais em computação quântica, microeletrônica, semicondutores e aplicações para setores estratégicos. As atividades serão distribuídas em seis cidades: João Pessoa (PB), Campina Grande (PB), Fortaleza (CE), Salvador (BA), Goiânia (GO) e Campinas (SP).

A ministra Luciana Santos afirmou que o programa vai além da qualificação técnica. “Mais do que um programa de formação, essa residência representa um investimento estratégico na autonomia tecnológica brasileira, na preparação de talentos para as profissões do futuro e na construção de uma nova geração de empresas intensivas em conhecimento”, disse a ministra durante a cerimônia realizada na Granja Santana, em João Pessoa.

Entre 2023 e 2025, o MCTI destinou R$ 513,5 milhões à Paraíba para projetos de pesquisa e inovação, valor quase três vezes superior aos R$ 174 milhões investidos entre 2019 e 2022. A Lei do Bem beneficiou 37 empresas no estado, com R$ 144,7 milhões em investimentos privados em pesquisa e desenvolvimento.

*Com informações do MCTI

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