
A pecuária alagoana passa por uma transformação silenciosa. Longe do modelo tradicional, baseado apenas na posse de terra e rebanho, fazendas do interior do estado começam a operar com dados, indicadores, metas de desempenho e planejamento financeiro, uma mudança que tem elevado a produtividade sem ampliação de área.
Em Viçosa, na Zona da Mata, a Fazenda Camaratuba é um exemplo de como a gestão orientada por dados pode redefinir o desempenho de uma propriedade. Administrada por Amarilio Carlos Monteiro, a fazenda atua na recria e engorda de novilhas e passou por um processo de reorganização produtiva e gerencial nos últimos anos.
“Sempre entendi que a fazenda é um negócio como outro qualquer. Ela precisa produzir, pagar todo mundo e lucrar”, resume Amarilio.
Com apoio de consultoria especializada, da Start Agronegócio, a propriedade estruturou indicadores produtivos e financeiros, implantou sistemas de gestão e consolidou uma rotina de análise contínua. Segundo o consultor Marcelo Araújo, o avanço veio da organização das informações já existentes.
“Os dados sempre existiram, mas estavam espalhados. Para tomar uma decisão era preciso abrir várias planilhas. Hoje, com relatórios consolidados, a decisão é muito mais rápida”, explica.
Os resultados aparecem nos números. Durante o período de reorganização, a Fazenda Camaratuba registrou crescimento de 29,16% no faturamento por hectare, aumento de 20,75% na produção de arrobas por hectare e avanço de 6,08% no ganho médio diário dos animais, ganhos obtidos sem expansão de área, apenas com maior eficiência.

Da commodity à marca: previsibilidade como estratégia
A profissionalização não se limita ao desempenho dentro da porteira. Parte da estratégia está na conexão direta com o mercado por meio da Boi de Engenho, empresa criada por cooperados da qual Amarilio faz parte.
A iniciativa busca romper com a lógica da venda tradicional de gado, apostando na padronização da carne, rastreabilidade e construção de marca. Com critérios definidos de genética, manejo e acabamento de carcaça, os produtores passaram a trabalhar com maior previsibilidade comercial.
“O que a gente buscava era ter destino certo para o boi produzido, com critérios claros e padrão de qualidade”, afirma Amarilio.
A proposta atraiu novos produtores. Um deles é o advogado e produtor rural Fábio Henrique Cavalcante Gomes, da Agropecuária 4 Corações, em Quebrangulo. Atuando no ciclo completo da pecuária, ele já investia em pastagem rotacionada, inseminação artificial e bem-estar animal antes mesmo de aderir à nova estratégia.

“Entrei na pecuária por herança, mas não quis fazer mais do mesmo. Sempre vi espaço para evoluir”, conta.
Com a reorganização gerencial e foco no planejamento econômico, os resultados se intensificaram. Entre as safras de 2024 e 2025, a Agropecuária 4 Corações registrou aumento de 66,3% no faturamento por hectare, crescimento de 20,9% no ganho médio diário dos animais e elevação de 12% na produção de arrobas por hectare.
“A fazenda consome recursos infinitamente se não houver planejamento. Gestão é o que coloca freio e direciona o investimento”, afirma Fábio.

Gestão rural orientada por dados entra na agenda de competitividade
O movimento não é isolado. Cresce em Alagoas a demanda por consultorias voltadas à gestão rural, refletindo uma mudança de mentalidade no campo: produzir mais deixou de ser apenas questão de técnica e passou a envolver organização financeira e leitura de indicadores.
Um dos instrumentos utilizados tem sido o Sebraetec, programa que subsidia até 70% do valor de consultorias técnicas, ampliando o acesso de pequenos e médios produtores a acompanhamento especializado.
Segundo a analista Cristina Loureiro, o principal desafio ainda é separar a lógica patrimonial da lógica empresarial.
“Muitos produtores ainda misturam renda pessoal com renda da fazenda. Quando passam a enxergar a propriedade como empresa, começam a tomar decisões mais estratégicas”, afirma.
Para o gerente da Unidade de Competitividade Setorial do Sebrae Alagoas, Henrique Soares, o impacto vai além das propriedades individuais.
“Quando o produtor entende seus números e organiza processos, a atividade se fortalece e gera impacto econômico para toda a região”, diz.
Em um estado historicamente dependente da cana-de-açúcar, a pecuária começa a mostrar que o salto de produtividade não está apenas na terra, mas na capacidade de transformar informação em estratégia.
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