
A Origem Energia deve iniciar no segundo semestre deste ano a primeira fase do projeto de estocagem subterrânea de gás natural do Brasil, em Alagoas, com capacidade inicial de 50 milhões de metros cúbicos e investimento de cerca de US$ 20 milhões. Mais do que um novo ativo energético, o projeto utiliza antigos reservatórios do Polo Alagoas como infraestrutura voltada ao equilíbrio entre oferta e demanda de gás, à redução da dependência de importações e à inserção do estado na dinâmica de balanceamento do mercado brasileiro e sul-americano.
Em entrevista ao Movimento Econômico, o diretor de Estocagem de Gás da Origem Energia, Anderson Bastos, detalhou como vai funcionar o projeto e sua importância para o setor energético nacional.
O projeto será implantado no Polo Alagoas, no município de Pilar, região Metropolitana de Maceió, utilizando reservatórios geológicos já depletados e a infraestrutura existente da unidade, que pertencia à Petrobras, e passará por adaptações para operar como sistema comercial de estocagem para terceiros.
Na fase inicial, a capacidade será de cerca de 50 milhões de metros cúbicos de gás natural, com possibilidade de expansão para até 84 milhões de metros cúbicos em uma segunda etapa já desenhada pela empresa.
A operação contará com capacidade diária de injeção de até 800 mil metros cúbicos e retirada de aproximadamente 500 mil metros cúbicos, volumes capazes de atender oscilações relevantes de oferta e demanda no mercado.
“Para viabilizar essa operação, estamos investindo aproximadamente US$ 20 milhões na adaptação do Polo Alagoas, com revisão de poços, linhas, compressores e instalação de sistemas de medição exigidos pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Embora utilizemos infraestrutura já existente, é necessário isolar completamente a operação de estocagem da produção de gás, criando uma atividade comercial dedicada a terceiros, com total controle e rastreabilidade”, explicou.
Autorização da ANP estabelece marco regulatório para estocagem de gás
A viabilização do projeto em Alagoas exigiu a construção de um caminho regulatório específico no país. Embora a estocagem subterrânea de gás seja prática consolidada em mercados como Estados Unidos e Europa, o Brasil ainda não contava com regulamentação própria para essa atividade. Nesse contexto, a autorização concedida em dezembro do ano passado pela ANP representa um avanço regulatório para o setor.
Segundo Anderson Bastos, o processo foi resultado de trabalho técnico conjunto entre a Origem Energia e a agência reguladora, com base em normas internacionais já consolidadas. “A estocagem é uma atividade madura no exterior. O desafio aqui não foi técnico, mas regulatório. Foi um processo de alinhamento, em que a ANP internalizou referências da Europa e dos Estados Unidos para criar um arcabouço seguro para o Brasil”, afirmou.
A minuta de autorização publicada pela ANP reconhece a estocagem como atividade econômica específica, sujeita à fiscalização do órgão, operada sob lógica de negociação bilateral entre os agentes de mercado. A definição estabelece parâmetros jurídicos para a prestação desse serviço e sinaliza a possibilidade de desenvolvimento desse segmento no país.
“A autorização não trata apenas do nosso projeto. Ela cria um precedente regulatório que permite o desenvolvimento de um novo mercado no Brasil, com regras claras para quem quiser investir em estocagem de gás no futuro”, destacou Bastos.

Estocagem amplia flexibilidade do mercado de gás
Segundo o diretor da Origem, a estocagem subterrânea funciona como um “pátio do gás”, permitindo equilibrar diferenças entre produção e consumo, que nem sempre caminham de forma sincronizada. A ferramenta amplia a flexibilidade do sistema, reduz riscos operacionais e aumenta a previsibilidade para produtores e comercializadores.
“A produção de gás tem uma lógica econômica própria e a demanda segue outra dinâmica. Quando essas curvas não se encontram, surgem desafios operacionais. A estocagem entra exatamente para fazer esse balanceamento”, explicou Bastos.
Esse papel é potencializado pela integração do Polo Alagoas à malha de transporte operada pela TAG, que conecta o Nordeste às regiões Sudeste e Sul do país e à Bolívia e à Argentina, integrando o sistema brasileiro ao mercado sul-americano de gás. Com essa interligação, a infraestrutura passa a atender não apenas o mercado local, mas também operações de compra e venda em escala regional.
“Qualquer agente que tenha acesso a gás competitivo em outros países da América do Sul pode armazenar esse volume em Alagoas e buscar um mercado futuro. Isso coloca o estado como um centro relevante de balanceamento do mercado”, afirmou Bastos.
Estocagem pode reduzir dependência de GNL importado
Atualmente, a principal ferramenta de flexibilidade do mercado brasileiro de gás é a importação de gás natural liquefeito (GNL), por meio de terminais com alto custo de implantação e capacidade ociosa significativa. Esses ativos foram dimensionados para atender picos de demanda, mas implicam custos estruturais elevados.
Segundo Bastos, a estocagem subterrânea surge como alternativa complementar. “Em vez de recorrer ao GNL, que depende do mercado internacional, o país pode aumentar a produção doméstica e armazenar esse gás quando não houver mercado imediato. Isso reduz custos e amplia a competitividade do mercado brasileiro”, disse.
Ao reduzir o risco de desequilíbrio entre oferta e demanda, a estocagem também atua como facilitador da abertura do mercado de gás. Enquanto grandes empresas conseguem administrar volatilidades com portfólios robustos, agentes médios e menores enfrentam mais dificuldades para operar em ambiente instável.
“A estocagem diminui essas barreiras e viabiliza a entrada de novos comercializadores, fortalecendo a concorrência e ampliando as opções para o consumidor”, afirmou.
Inserido no contexto da Nova Lei do Gás, o projeto em Alagoas passa a integrar a infraestrutura que sustenta um mercado mais aberto e competitivo, ao oferecer mecanismo de mitigação de risco operacional.

Segurança energética e suporte às renováveis
Além dos efeitos diretos sobre o mercado de gás, a estocagem subterrânea assume papel relevante na segurança energética do país e na integração com fontes renováveis. Em um sistema com elevada participação de eólica e solar, a disponibilidade de gás natural em momentos de pico é fundamental para garantir estabilidade ao fornecimento de energia elétrica.
Segundo Bastos, a estocagem viabiliza a operação das chamadas térmicas de capacidade, acionadas quando o sistema precisa de reforço. “Essas usinas garantem o aumento da oferta de renováveis, mas precisam ter segurança de suprimento de gás. A estocagem assegura que esse gás estará disponível quando for necessário”, explicou.
Nesse contexto, o projeto em Alagoas passa a funcionar como infraestrutura de suporte à expansão das renováveis, especialmente no Nordeste, região com forte presença eólica e solar.
“A estocagem traz previsibilidade de preço, garantia de acesso e estabilidade de suprimento. Esses três atributos formam a base da segurança energética”, concluiu Bastos.
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