
Cerca de 169,6 milhões de toneladas em dez reservas lavráveis de gipsita, calcário, traquito e granito distribuídas nos municípios pernambucanos de Ouricuri, Ipubi, Goiana, Itaquitinga, Ipojuca e Jaboatão dos Guararapes estão disponíveis para arrematação em leilão previsto para o dia 18 de junho, às 15h. O lance mínimo para aquisição integral é de R$ 69.789.479,02, com possibilidade de compra individual. A área total soma 1.168 hectares, equivalente a cerca de 16.380 campos de futebol oficiais, e está titulada pela CBE, empresa do Grupo João Santos. O maior lote é de granito, situado no Engenho Comportas de Cima, em Jaboatão dos Guararapes, com 48,79 hectares e 44,6 milhões de toneladas em reservas medidas.
Os dois lotes de gipsita (Ipubi e Ouricuri) somam 7,2 milhões de toneladas em reservas medidas, com pureza entre 88% e 98%, em município que integra o Polo do Araripe, responsável por 97% da produção nacional do mineral e 4º maior polo produtor mundial. Os dois lotes de calcário (Goiana) totalizam 29,3 milhões de toneladas em reservas medidas, com acesso ao Porto de Suape, em região onde o setor cimenteiro cresceu 7,2% no Nordeste em 2025.
O lote de traquito (Ipojuca) contam com 23 milhões de toneladas de rocha vulcânica de alta resistência. Os cinco lotes de granito (Jaboatão dos Guararapes e Itaquitinga), com cerca de 110 milhões de toneladas em reservas medidas, incluem variedades ornamentais para exportação, segmento que cresceu 15,8% em 2025. Boa parte dos ativos minerais está na área de influência da Ferrovia Transnordestina, cujas obras somam R$ 13,2 bilhões em investimentos.
Recursos para pagamento de dívidas
Em 2026, uma jazida de calcário do Grupo João Santos em Ribeirão Grande (SP) foi vendida à Votorantim Cimentos por R$ 250 milhões. O leilão dos ativos minerários pernambucanos segue a mesma estratégia. Do produto arrecadado, 80% serão destinados à recuperação judicial e 20% à Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN), no âmbito da transação tributária.
Os ativos pernambucanos integram o processo de alienação patrimonial da recuperação judicial do Grupo João Santos, fundado por João Pereira dos Santos, nascido em Serra Talhada, que em 1951 criou a Fábrica de Cimento Nassau, na época a maior unidade do ramo instalada no Nordeste.
Com a morte do fundador, em 2009, aos 101 anos, disputas entre herdeiros e uma dívida que chegou a R$ 13 bilhões levaram o conglomerado à recuperação judicial, deferida em dezembro de 2022. O plano de reestruturação foi homologado pela Justiça e validado pelo STJ em junho de 2025.
O processo é conduzido pelo leiloeiro oficial Renato Gracie, da Gracie Leilões, com supervisão técnica da administradora judicial Natália Pimentel Lopes, da LRF Líderes em Recuperação Judicial e Falência, escritório especializado em reestruturação empresarial com sede no Recife, responsável pela administração judicial do processo do Grupo João Santos junto à 15ª Vara Cível da Capital. Os lances serão realizados exclusivamente pela internet, no site www.gracieleiloes.com.br.

Concessões já aprovadas reduzem risco do investidor
Um diferencial dos 10 lotes em Pernambuco é o estágio avançado das autorizações junto à Agência Nacional de Mineração (ANM). Quatro chegam ao mercado com Portaria de Lavra ativa — os dois lotes de calcário em Goiana e o lote de traquito em Ipojuca — e seis com Relatório Final de Pesquisa aprovado. O processo regular para obter essas concessões leva de cinco a dez anos. Todos os lotes acompanham laudos técnicos e plano de negócios com projeções de retorno e custos operacionais.
“São ativos que raramente chegam ao público, as grandes mineradoras costumam absorvê-los antes. Desta vez, qualquer cidadão ou empresa pode disputar. O comprador entra com anos de burocracia já vencidos, em um mercado bilionário que raramente se abre”, afirmou o leiloeiro Renato Gracie.
O pagamento poderá ser feito à vista ou com sinal de 25% e saldo parcelado em até 12 vezes, corrigido pela Tabela ENCOGE (IPCA-E), que acumulou cerca de 4% ao ano em 2025. Incide comissão de 5% sobre o valor da arrematação, paga diretamente ao leiloeiro. A 1ª praça encerra em 18 de junho de 2026, às 15h. A 2ª praça abre na mesma data e encerra em 25 de junho de 2026, às 15h.
Recuperação judicial e acordo bilionário com a União
A recuperação judicial do Grupo João Santos foi deferida em dezembro de 2022, após mudança na gestão do grupo em agosto daquele ano. Em agosto de 2023, o grupo firmou com a PGFN o maior acordo de transação tributária da história do Brasil: uma dívida original de cerca de R$ 11 bilhões foi reduzida para aproximadamente R$ 4 bilhões, após descontos sobre juros, multas e encargos. A PGFN informou que as parcelas do acordo estão pagas até dezembro de 2026.
Em junho de 2025, o STJ decidiu, por maioria, pela continuidade do processo e pela manutenção da gestão atual, rejeitando o pedido de retorno do empresário Fernando Santos ao comando do grupo. O grupo chegou a ser o segundo maior grupo cimenteiro do Brasil, com faturamento de cerca de R$ 3 bilhões ao ano e produção de 6,4 milhões de toneladas de cimento, operando 11 fábricas em todo o país e atuando também nos setores sucroalcooleiro, de comunicação, celulose e mineração.
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