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Ataque ao Irã ameaça R$ 15 bi em exportações brasileiras e eleva petróleo

Ofensiva de EUA e Israel interrompe negociações nucleares e pressiona Estreito de Ormuz, por onde passam 20% do petróleo mundial. Brasil exportou US$ 2,9 bi ao Irã em 2025
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Irã Teerã ataques Estados Unidos e Israel
Os ataque dos Estados Unidos e de Israel aconteceram dois dias depois de uma rodada de negociações entre os americanos e os iranianos a respeito dos limites do programa nuclear do Irã. Foto: RS/via FotosPublicas

O ataque militar combinado de Estados Unidos e Israel ao Irã, neste sábado (28), coloca o Brasil em uma posição de dupla exposição: o país mantém com Teerã uma corrente de comércio de US$ 3 bilhões (mais de R$ 15 bilhões) ao ano e conduz, simultaneamente, negociações tarifárias sensíveis com Washington. A combinação exige do governo brasileiro uma postura de equilíbrio que especialistas em relações internacionais descrevem como tecnicamente difícil de sustentar.

O Ministério das Relações Exteriores divulgou nota ainda na manhã de sábado condenando a ofensiva e defendendo negociação como caminho para a paz. “O Brasil apela a todas as partes que respeitem o direito internacional e exerçam máxima contenção, de maneira a evitar a escalada de hostilidades e a assegurar a proteção de civis e da infraestrutura civil”, diz o comunicado.

Comércio agrícola sob risco direto

Os dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mostram que, em 2025, o Brasil exportou US$ 2,9 bilhões para o Irã e importou US$ 85 milhões, registrando superávit expressivo na relação bilateral. O Irã foi o 31º maior destino das exportações brasileiras no período. O milho não moído responde por 67,9% do valor dos embarques; a soja, por 19,3%.

Para Leonardo Paz Neves, pesquisador do Núcleo de Inteligência Internacional da Fundação Getulio Vargas (FGV), uma escalada que resulte no bloqueio naval americano ao Irã comprometeria diretamente esses fluxos. “Se o conflito escalar muito e tiver o Irã cercado pela marinha americana, vai ser um problema mandar a exportação brasileira para lá. Vai ter alguns setores aqui no Brasil que vão sofrer um pouco, perder um importante comprador”, afirmou.

O segundo vetor de impacto é o petróleo. O Estreito de Ormuz, passagem marítima no sul do Irã por onde transitam cerca de 20% da produção mundial de petróleo e gás, representa o principal gargalo de abastecimento global em caso de fechamento. Paz Neves observa que a alta do petróleo gera inflação de forma encadeada: “o petróleo é base de cadeia — então impacta em diversos setores”.

Geometria diplomática

O dilema brasileiro tem uma dimensão estrutural. O Irã tornou-se membro do Brics em 2024, grupo do qual o Brasil é fundador desde 2006, ao lado de Rússia e China — dois aliados próximos de Teerã. Ao mesmo tempo, o governo Lula conduz negociações com Washington para reduzir tarifas impostas pelo governo Trump em agosto do ano passado, que chegaram a 50% sobre produtos brasileiros. A Suprema Corte dos EUA derrubou a decisão em 20 de fevereiro, e Trump respondeu com tarifa de 10% sobre diversos países. O encontro entre Lula e Trump está previsto para o fim de março.

Feliciano de Sá Guimarães, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP), descreve a posição do Itamaraty como a busca por um ponto intermediário entre dois parceiros em confronto direto. “Como o Irã agora é um membro dos Brics, o Brasil se coloca em uma posição difícil de criar um tipo de posição em que não seja abertamente contra o Irã e não seja abertamente contra os Estados Unidos”, avaliou.

Paz Neves, da FGV, considera que a nota divulgada pelo governo foi “protocolar” e que o engajamento brasileiro no conflito deve ser limitado. Na sua leitura, antagonizar Trump às vésperas de uma reunião bilateral e em meio a negociações comerciais ativas seria politicamente custoso. “Ele sabe como o Trump funciona, e antagonizar com o Trump agora é atrair uma atenção negativa para o Brasil muito grande”, disse o pesquisador.

Williams Gonçalves, professor titular aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), contextualiza a postura de cautela também à luz do sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro, em 3 de janeiro, operação executada pelo governo Trump. “Nossa posição tem sido de muita cautela, procurando assim não fazer nada que aparente ser uma provocação ou uma reação forte”, disse.

Gonçalves admite, porém, que a evolução do conflito pode forçar posicionamentos mais explícitos. Para ele, o Brasil não pode, historicamente comprometido com a autodeterminação dos povos e com o princípio da não ingerência, sustentar indefinidamente neutralidade diante de uma ofensiva declaradamente orientada à mudança de regime.

Cenário em aberto

O impacto econômico efetivo sobre o Brasil depende da trajetória militar nas próximas horas e da decisão iraniana sobre o Estreito de Ormuz. A abertura dos mercados na segunda-feira testará a magnitude da pressão sobre o petróleo. No plano diplomático, a agenda de Lula em Washington, prevista para março, passa a operar sob pressão adicional, com o governo brasileiro obrigado a calibrar um discurso que preserve tanto a relação comercial com os Estados Unidos quanto os vínculos políticos dentro do Brics.

*Com informações da Agência Brasil

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