
O Nordeste permanece como a região com os piores indicadores estruturais de saneamento e moradia do país, segundo dados divulgados nesta quinta-feira (22) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A edição de 2024 da PNAD Contínua – Características Gerais dos Domicílios e Moradores revela que, apesar de avanços em áreas urbanas, milhões de famílias nordestinas ainda enfrentam restrições no acesso à coleta de lixo, rede de esgoto, abastecimento de água e moradia adequada.
A prática da queima de lixo, considerada irregular pela legislação ambiental, ainda ocorre em 1,93 milhão de domicílios nordestinos, o equivalente a 40,8% dos casos no Brasil. A cobertura de coleta de resíduos — direta ou via caçamba — alcança 88,6% das casas da região, abaixo da média nacional (93%) e inferior à da Região Norte (89,7%). Os maiores percentuais de queima foram registrados no Maranhão, Piauí e Alagoas, segundo o recorte regional da pesquisa.
Nordeste supera o Norte em estrutura, mas concentra precariedade
Embora a infraestrutura de água encanada, esgotamento sanitário e energia elétrica seja proporcionalmente mais presente no Nordeste do que no Norte, a região concentra, em números absolutos, os piores resultados do país. Isso ocorre tanto pela maior população quanto pela persistência de falhas estruturais em áreas rurais e periferias urbanas.
- Abastecimento de água por rede geral: 77,6% dos domicílios no Nordeste; 64,5% no Norte
- Esgotamento sanitário por rede coletora: 49,1% no Nordeste; 27,8% no Norte
- Energia elétrica: 99,7% dos domicílios no Nordeste têm acesso; 99,3% no Norte
Ainda assim, o Nordeste apresenta o menor índice de cobertura de coleta entre as grandes regiões e lidera em número absoluto de residências com descarte irregular de resíduos sólidos.
Déficit habitacional e moradias improvisadas
A pesquisa do IBGE também revelou condições precárias de moradia em milhares de domicílios nordestinos. Em 2024, a taxa de domicílios considerados inadequados — por falta de estrutura, serviços básicos ou localização em áreas de risco — é de 16,1% no Nordeste, a maior entre as regiões. A média nacional é de 11,5%.
Mais de 1,3 milhão de casas na região são classificadas como construções precárias, improvisadas ou em situação de coabitação forçada, segundo critérios de tipologia urbana adotados pelo IBGE. Estados como Bahia, Maranhão e Ceará concentram os maiores volumes absolutos.
O levantamento também aponta alta densidade domiciliar, especialmente em áreas urbanas pobres, onde há famílias vivendo em imóveis sem divisão de cômodos ou com mais de três moradores por dormitório.
Aluguel cresce e amplia vulnerabilidade urbana
A pesquisa mostra ainda que 17,6% dos domicílios no Nordeste são alugados, um percentual inferior à média nacional (21,5%), mas que reflete o crescimento da informalidade no mercado habitacional da região. Em muitas cidades, a expansão de moradias alugadas sem registro formal está associada à precariedade construtiva, ausência de serviços públicos e insegurança jurídica.
O aumento da proporção de domicílios alugados no Nordeste também é interpretado por técnicos do IBGE como reflexo da dificuldade de acesso ao crédito habitacional, especialmente entre famílias de renda média e baixa.
Desigualdade estrutural e desafio do marco legal
Apesar dos baixos índices estruturais, o IBGE aponta melhora gradual na cobertura dos serviços essenciais no Nordeste ao longo da última década. No entanto, a disparidade regional permanece alta, e os números de 2024 reforçam o desafio de universalização do saneamento básico previsto no novo marco legal, cuja meta é atingir 99% de acesso à água potável e 90% de esgoto tratado até 2033.
O panorama reforça a necessidade de investimentos públicos contínuos, planejamento urbano e políticas integradas para reduzir o déficit sanitário e habitacional na região..
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