
O Nordeste acumula déficit de 15,4 milhões de toneladas de capacidade estática de armazenagem de grãos, terceiro maior gargalo regional do Brasil, empatado com o Sul e atrás do Sudeste (18,1 Mt) e do Centro-Oeste (85,4 Mt), que sozinho concentra 64,7% do déficit nacional de 132 Mt. Os dados são do relatório “Retrato da Logística de Grãos do Brasil — Safra 2025/26”, da nstech agro, com base em análise do BTG Pactual.
O gargalo se aprofunda no Matopiba, a principal fronteira agrícola da região, que reúne 337 municípios distribuídos por partes dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia em uma área de 73,1 milhões de hectares. A área abrange predominantemente o bioma Cerrado, segundo levantamento da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
O Matopiba responde por 19% da produção nacional de soja e é apontada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária como a fronteira agrícola de maior crescimento em área plantada no Brasil, com projeção de alcançar 8,9 milhões de hectares cultivados até 2030.
A Bahia é o sexto maior estado produtor de soja do país, com 5% das 177,8 milhões de toneladas colhidas na safra 2025/26, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O Maranhão consolida posição estratégica no milho, com acesso ao Porto de Itaqui pela Ferrovia Norte-Sul, operada pela VLI.
Custos do frete rodoviário
Sem capacidade para estocar a produção, o agricultor é forçado a escoar no momento da colheita, quando a demanda por transporte está no pico e o frete rodoviário atinge os valores mais altos do ano, aponta o relatório. O insumo que move os caminhões responde por 40% a 45% do custo operacional de cada veículo. O diesel estava em torno de R$ 6,60 a R$ 6,80 por litro nas bombas brasileiras no início de 2026, e cada alta de R$ 0,50/litro eleva o custo operacional em até 5%, valor repassado integralmente ao frete nas rotas de longa distância.
A pressão estrutural vem de dois vetores simultâneos: a safra recorde de 355 milhões de toneladas em 2025/26 e o aumento do rigor da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), que passou a cruzar automaticamente os valores pagos com os pisos mínimos estabelecidos. A combinação resultou em projeção de alta de 17,1% no frete de soja ao longo de 2026, segundo a nstech agro.
Em fevereiro/2026, o volume de fretes de soja recuou 12,17% no país devido a chuvas excessivas na colheita; em março, quando as condições melhoraram, o volume disparou 30,94% na primeira quinzena. O produtor sem armazém está exposto exatamente a esse intervalo, quando o frete está mais caro e a oferta de capacidade de transporte é mais disputada.
Nas rotas de 1.000 a 2.000 km, típicas dos fluxos do Matopiba em direção a Santos, Paranaguá e Itaqui, a variação sazonal do frete pode ultrapassar 20% entre entressafra e pico de colheita, exatamente a faixa em que se concentra a originação da soja e do milho destinados à exportação, segundo o relatório.
Ferrovias no transporte de grãos
O documento mapeia cinco ferrovias do agronegócio brasileiro: Rumo, VLI, MRS Logística, Estrada de Ferro Carajás e Estrada de Ferro Vitória a Minas. A Transnordestina Logística (TLSA), única ferrovia em operação provisória no Nordeste, não é mencionada. A ferrovia conectará áreas produtoras do Matopiba ao Porto do Pecém (CE) ao longo de 1.753 quilômetros e iniciou operações em dezembro de 2025. A primeira viagem, em 18 de dezembro, transportou mil toneladas de milho em 585 quilômetros entre Piauí e Ceará em aproximadamente 12 horas.
O segundo teste operacional, em 12 de janeiro de 2026, levou 946 toneladas de sorgo do Terminal Intermodal do Piauí (TIPI) ao Terminal Logístico de Iguatu (TLI), no Ceará, em 16 horas e 34 minutos. A TLSA opera com contrato em vigor desde setembro de 2025 que prevê movimentação mínima de 5 mil toneladas por mês e frequência semanal de viagens. A Sudene destinará R$ 7,4 bilhões ao financiamento do traçado cearense e piauiense, com R$ 900 milhões ainda a distribuir até 2027.
Escoamento através dos portos
O Porto de Itaqui, em São Luís, responde por 14% do volume nacional de soja exportada na safra 2025/26, terceiro lugar no ranking, atrás de Santos (28%) e Paranaguá (21%), e por 11% das exportações nacionais de milho. Na importação de fertilizantes, o Arco Norte registrou o maior crescimento entre os grandes hubs do período, saltando de 7,5 milhões para 8,27 milhões de toneladas, segundo o relatório.
Fechar o déficit nacional de armazenagem exigiria entre R$ 80 bilhões e R$ 100 bilhões em investimentos. O Plano Safra 2024/25 destinou R$ 7,8 bilhões ao Programa para Construção e Ampliação de Armazéns (PCA), com juros de 7% ao ano para unidades de até 6 mil toneladas. Os prazos de dez anos de financiamento são considerados insuficientes para o volume necessário, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
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