- Publicidade -

O ganha e perde dos royalties de petróleo no NE: BA sobe, RN cai

São Francisco do Conde saltou de R$ 565 mil para R$ 78 mi em royalties de petróleo de março. Já Alto do Rodrigues perdeu R$ 7,5 mi no mesmo período, segundo dados da ANP
- Publicidade -
Ouvir o Artigo
~7:13
  1. Bahia multiplica receita de royalties enquanto Rio Grande do Norte registra queda de 26,9% nos repasses.
  2. São Francisco do Conde eleva arrecadação em 138 vezes, impulsionado pela Refinaria de Mataripe e campos do Recôncavo.
  3. Alto do Rodrigues sofre maior perda absoluta do Nordeste, recuando de R$ 10,2 milhões para R$ 2,7 milhões.
  4. Nordeste cresce 24,3% em royalties totais, mas distribuição entre 341 municípios apresenta assimetrias de até quatro ordens de grandeza.
  5. Produção em declínio na Bacia Potiguar explica redução de repasses ao Rio Grande do Norte durante o período analisado.
Município de São Francisco do Conde, no Recôncavo Baiano, abriga a Refinaria de Mataripe, a segunda maior em capacidade instalada do país, com 323 mil barris/dia. Foto: Divulgação/Ascom
Município de São Francisco do Conde, no Recôncavo Baiano, abriga a Refinaria de Mataripe, a segunda maior em capacidade instalada do país, com 323 mil barris/dia. Foto: Divulgação/Ascom

Enquanto São Francisco do Conde (BA) multiplicou por 138 vezes sua receita de royalties de petróleo entre março de 2025 e março de 2026, de R$ 565 mil para R$ 78,4 milhões, Alto do Rodrigues (RN) perdeu R$ 7,5 milhões no mesmo intervalo e registrou a maior queda absoluta do Nordeste no período, recuando de R$ 10,2 milhões para R$ 2,7 milhões. Os números integram os dados de distribuição da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), compilados pelo Movimento Econômico. No conjunto, os repasses ao Nordeste cresceram 24,3% no período, mas a distribuição entre os 341 municípios beneficiados foi marcada por assimetrias que chegaram a quatro ordens de grandeza entre os maiores ganhadores e perdedores.

O cenário reflete dinâmicas opostas nos dois estados. A Bahia recebeu R$ 147 milhões em royalties em março de 2026, entre governo estadual e municípios, crescimento de 91,9% em relação a março de 2025, quando o repasse total baiano foi de R$ 76,6 milhões. O Rio Grande do Norte seguiu trajetória inversa: os repasses recuaram 26,9%, de R$ 64,7 milhões para R$ 47,3 milhões no mesmo intervalo, resultado que acompanha tendência de queda na produção dos campos da Bacia Potiguar registrada ao longo de 2025.

Os repasses da quinta-feira (28) referem-se à produção de março de 2026 sob contratos de concessão e cessão onerosa. No total nacional, a ANP distribuiu R$ 1,19 bilhão aos estados e R$ 1,49 bilhão aos municípios, beneficiando 979 municípios e 10 estados produtores. Os dados de partilha de produção referentes a março de 2026 estão em operacionalização e serão distribuídos em data a ser definida pela agência.

São Francisco do Conde: Recôncavo e Refinaria de Mataripe

O salto de São Francisco do Conde está ancorado na produção dos campos do Recôncavo Baiano e na presença da Refinaria de Mataripe, segunda maior refinaria em capacidade instalada do país, com 323 mil barris/dia, operada pela Acelen sob controle do fundo árabe Mubadala.

A cidade concentra uma das maiores densidades de infraestrutura petrolífera do Nordeste e tem nos royalties a principal fonte de receita municipal. A variação na comparação entre os dois meses de março pode refletir ajustes de apuração acumulados ou aumento de produção nos campos da bacia, já que a ANP não discrimina o fator individual por município nos dados de distribuição.

O movimento positivo da Bahia não se restringiu a São Francisco do Conde. Cardeal da Silva avançou 1.003%, de R$ 733 mil para R$ 8,1 milhões, e Laje subiu 393,3%, de R$ 651 mil para R$ 3,2 milhões. Em Sergipe, Indiaroba registrou alta de 624,2%, de R$ 629 mil para R$ 4,6 milhões, acompanhando o crescimento da produção na Bacia de Sergipe-Alagoas, onde campos do pré-sal offshore têm ampliado o volume extraído. No sentido oposto, Itaparica (BA) perdeu R$ 3,6 milhões (84,4% de recuo) e Penedo (AL) recuou R$ 2,6 milhões (85,1%).

Alto do Rodrigues Rio Grande do Norte produção de petróleo royalties
Alto do Rodrigues, no Rio Grande do Norte, ganhou uma ação judicial que tramitava há quase 20 anos e passou a receber parcelas adicionais superiores a R$ 3 milhões mensais. Foto: UFRN/Divulgação

Alto do Rodrigues: campo histórico e ação judicial

A queda de Alto do Rodrigues tem raízes que vão além da produção. O campo que leva o nome da cidade foi descoberto na campanha exploratória da Bacia Potiguar entre 1980 e 1981 e abriu o chamado “trend” petrolífero ao longo do bloco alto da falha de Carnaubais, segundo o histórico da ANP.

Durante anos, o município liderou o ranking de royalties no Rio Grande do Norte, mas não exclusivamente pela produção: o município ganhou uma ação judicial que tramitava há quase 20 anos e passou a receber parcelas adicionais superiores a R$ 3 milhões mensais, segundo registros do setor. A normalização desse efeito contribui para explicar a queda expressiva registrada na comparação entre os dois períodos.

A dependência estrutural dos municípios potiguares em relação aos royalties torna o recuo especialmente sensível. Os repasses representam até 25% das receitas brutas de municípios como Alto do Rodrigues, Mossoró e Assú, segundo levantamento do Observatório Nacional da Indústria (CNI). Mossoró, o maior município produtor do estado, também recuou 32,4%, de R$ 2,1 milhões para R$ 1,4 milhão na mesma comparação.

Alagoas e o campo de Pilar

O recuo de Alagoas no período, de R$ 31,2 milhões para R$ 26,5 milhões (15%), chama atenção por ser o estado onde se localiza o campo de Pilar, um dos mais produtivos campos terrestres do país, operado pela Origem Energia. A queda, no entanto, não indica necessariamente recuo de produção.

Em 2023, a ANP aprovou redução de alíquota de royalties sobre a produção incremental do campo como contrapartida ao plano de investimentos de R$ 916 milhões, o que reduz o valor distribuído por barril mesmo com volumes estáveis ou crescentes.

O contexto nacional reforça essa leitura: em março de 2026, o Brasil bateu recorde de produção, com 5,531 milhões de barris de óleo equivalente por dia (boe/d), sendo o pré-sal responsável por 79,9% do total, segundo a ANP, crescimento concentrado em campos offshore do Sudeste, não nos terrestres do Nordeste.

Pernambuco e a Refinaria Abreu e Lima

O recuo nos royalties não representa o quadro completo da relação de Pernambuco com a indústria do petróleo. Ipojuca, município que abriga a Refinaria Abreu e Lima (RNEST) no Complexo Industrial Portuário de Suape, foi a sétima cidade do país que mais recebeu tributos da Petrobras em 2024, com R$ 72,7 milhões em ISS e parcela do ICMS estadual, crescimento de 44,8% em relação a 2023, segundo a própria Petrobras.

Royalties e tributos de refino são canais distintos: os primeiros incidem sobre a produção de petróleo e gás nos campos; os segundos sobre a operação industrial da refinaria. A RNEST processa petróleo extraído majoritariamente no pré-sal do Sudeste e não gera royalties para o município sede.

A distinção é relevante porque a Petrobras anunciou em dezembro de 2025 investimentos de R$ 12 bilhões para expandir a capacidade da refinaria de 130 mil para 260 mil barris/dia até 2029, o que ampliará o impacto tributário sobre Ipojuca e Pernambuco sem alterar o fluxo de royalties do estado.

Bahia lidera acumulado regional

No acumulado de janeiro a abril de 2026, os estados nordestinos produtores receberam R$ 208,8 milhões em repasses estaduais e R$ 632,8 milhões em repasses a municípios, totalizando R$ 841,6 milhões. A Bahia lidera com R$ 361,9 milhões, seguida pelo Rio Grande do Norte (R$ 173,3 milhões), Alagoas (R$ 115,1 milhões), Sergipe (R$ 112,6 milhões) e Maranhão (R$ 78,5 milhões).

Os royalties são calculados e distribuídos pela ANP com base na Lei nº 7.990/1989 e no Decreto nº 1/1991, que regulam a parcela de 5% da alíquota, e na Lei nº 9.478/1997 e no Decreto nº 2.705/1998, que regem a parcela excedente a 5%.

Leia mais: Investimento de R$ 60 bi fará Sergipe liderar produção de petróleo no Nordeste

- Publicidade -
- Publicidade -

Mais Notícias

- Publicidade -