
A retomada do voo direto entre o Recife e Praia, capital de Cabo Verde, a partir desta quarta-feira (6), reativa um corredor de negócios entre Pernambuco e o continente africano que passa pela costura de um hub de tecnologia: o projeto Arquipélago Digital, iniciativa pernambucana suspensa na pandemia que prevê transformar as dez ilhas cabo-verdianas em um polo de inovação nos moldes do Porto Digital do Recife, volta à pauta com a nova ponte aérea. É o que espera o CEO do Grupo Teleport, Gildo Neves Baptista Jr.
Operada pela Cabo Verde Airlines com frequência semanal e duração de quatro horas, a aeronave inaugural chega ao Aeroporto Internacional do Recife/Guararapes Gilberto Freyre às 22h05 trazendo cerca de 20 representantes do setor de turismo e negócios de Cabo Verde. O grupo participará de um famtour com visita ao Polo de Confecções do Agreste e de um fórum bilateral de investimentos marcado para o dia 8 de maio no Recife. Após seis anos de interrupção, Pernambuco passa a operar 13 voos internacionais diretos.
A operação é realizada com aeronave Boeing 737 MAX 8 e posiciona o Recife a 4 horas de Praia e a 8 horas de Lisboa, reforçando o estado como ponto de conexão entre a América do Sul e a Europa via Atlântico. A previsão, segundo a imprensa cabo-verdiana, é de ampliar para dois voos semanais ainda em julho de 2026, com o objetivo de aumentar o fluxo de passageiros e reforçar as trocas comerciais entre os dois países. Está prevista ainda a inclusão de nova rota para a Ilha do Sal, também em Cabo Verde.
Além do transporte de passageiros, a ligação deverá facilitar o escoamento de carga. A Latam Cargo já iniciou operação semanal levando ao Sal produtos agrícolas frescos do Brasil. O embaixador do Brasil em Cabo Verde, Alexandre Silva, afirmou, no ato de apresentação da rota realizado em Praia em 11 de abril, segundo o jornal cabo-verdiano A Nação, que a ligação marítima direta entre os dois países deve ser iniciada em breve.
“Retomar esse voo após seis anos é resultado de uma política consistente do Governo do Estado de expansão da malha aérea internacional de Pernambuco. Essa conexão com Cabo Verde tem um significado especial, ela nos aproxima da África e da Europa e fortalece laços históricos e culturais que são parte da nossa identidade”, afirmou Eduardo Loyo, presidente da Empresa de Turismo de Pernambuco (Empetur).

Corredor estratégico Pernambuco – África
Para o CEO da Cabo Verde Airlines, Armindo Sousa, a rota abre um corredor estratégico entre os dois países. “Cabo Verde funciona como uma ponte natural entre a América do Sul e a Europa, especialmente Portugal, e essa rota permite que os viajantes façam um stopover em nosso arquipélago a caminho do continente europeu. É o início de uma parceria que vai crescer e beneficiar os dois lados do Atlântico”, disse.
As tratativas para viabilização da rota foram iniciadas em 2023, em articulação entre o Governo de Pernambuco e a Cabo Verde Airlines, com apoio da Embratur, e avançaram até a confirmação da operação em 2026.
Para marcar o lançamento, o Governo de Pernambuco preparou uma cerimônia no aeroporto na noite desta quarta-feira (6), entre a chegada do voo inaugural às 22h05 e o embarque de retorno à 0h30 de quinta (7). O ato contará com a presença da vice-governadora Priscila Krause, do presidente da Empetur, Eduardo Loyo, e de representantes da Embaixada de Cabo Verde, da Aena e do Ministério de Portos e Aeroportos.
Antes da interrupção em 2020, a Cabo Verde Airlines operava para várias cidades brasileiras, incluindo Fortaleza, Recife, Salvador e Porto Alegre, com até quatro frequências semanais. A demanda reprimida é diversificada: turismo, diáspora cabo-verdiana, negócios, comércio exterior e conexões com voos europeus e africanos.

Fórum de negócios e agenda bilateral
No dia 8 de maio, o Centro Cultural Cais do Sertão recebe o Fórum de Investimento e Turismo de Cabo Verde, com início às 14h30 e encerramento previsto para as 18h30. O evento é estruturado em três painéis: oportunidades de investimento em Cabo Verde, transportes e conectividade, e instrumentos de financiamento ao investimento. As inscrições seguem abertas.
No primeiro painel, Jailson de Oliveira, presidente do Conselho de Administração da Cabo Verde TradeInvest, apresenta o ecossistema de negócios do arquipélago. Gil Costa, secretário-geral da Câmara de Comércio de Barlavento, discute o papel das câmaras de comércio na facilitação do comércio bilateral. A moderação é de Sonia Fonseca, professora de Economia da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).
O segundo painel reúne Nadia Teixeira, administradora da Cabo Verde Airlines, Edmar Santos, administrador-delegado do Porto Grande (Enapor), e Mario Gomes, presidente do Conselho de Administração da Agência de Aviação Civil (AAC) de Cabo Verde. A moderação é de José Ricardo Galdino, Cônsul Honorário de Cabo Verde no Recife.
O terceiro painel aborda os instrumentos de financiamento disponíveis para investidores, com João Fidalgo, presidente do Conselho de Administração do Fundo Soberano de Garantia do Investimento Privado de Cabo Verde. A moderação é do professor Bruno Frascaroli, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).
Arquipélago Digital: Porto Digital da África
Entre as apresentações do fórum está o projeto Arquipélago Digital, iniciativa liderada pelo empresário pernambucano Gildo Neves Baptista Jr., CEO do Grupo Teleport, que prevê transformar as dez ilhas de Cabo Verde em um polo de inovação tecnológica inspirado no modelo do Porto Digital do Recife. O projeto havia sido suspenso em 2020 durante a pandemia, mas os contratos permanecem válidos: Baptista Jr. tem acordos firmados com o diretor do Patrimônio do governo cabo-verdiano, com a TV Pública de Cabo Verde (TV CV) e com a Universidade de Mindelo, em São Vicente, para dupla certificação dos cursos.
O pilar central é a capacitação de 100 mil jovens e trabalhadores em transição de carreira, por meio da metodologia Educação Tribida, modelo híbrido que combina transmissão de aulas pela TV CV em horário matinal, atividades presenciais em associações comunitárias e estágios em empresas cabo-verdianas e no exterior em regime remoto. Os cursos iniciais abrangem informática, logística e administração, com dupla certificação pelo MEC no Brasil e pelo Ministério da Educação de Cabo Verde.
Aproveitamento de lixo eletrônico chinês
O projeto prevê ainda o aproveitamento do lixo eletrônico acumulado nos depósitos do patrimônio público de Cabo Verde. A cada seis anos, o governo cabo-verdiano substitui todos os equipamentos de informática de órgãos públicos e empresas estatais das dez ilhas, armazenando os itens substituídos — incluindo os que ainda funcionam — em prédios do patrimônio. Baptista Jr. obteve a cessão gratuita desse material para uso nos polos de formação, onde os alunos aprenderão a montar, reparar e utilizar os próprios computadores.
“Cabo Verde tem uma localização estratégica insuperável, operando como um centro logístico entre a África, Europa e América. Nossa missão é incrementar as oportunidades digitais, especialmente na capital, Praia, e em São Vicente, transformando o país em um exportador de serviços tecnológicos”, afirmou Baptista Jr.
A aposta na tecnologia como vetor principal se sustenta em uma vantagem geográfica pouco conhecida: Cabo Verde é o hub do cabo submarino ELLA LINK, infraestrutura que conecta o arquipélago à América do Sul, à América Central, aos Estados Unidos, à Europa, à África e à Ásia. Com a internet trafegando fisicamente por cabos submarinos, e não por ondas, Cabo Verde ocupa posição central na rede global de conectividade.
A iniciativa visa diversificar uma economia em que o turismo responde por 25% do PIB, segundo o Banco Mundial, e o setor de serviços representa 72% do PIB total. O país opera em praticamente pleno emprego, com taxa de desemprego de 4%, o que reforça a necessidade de formação técnica especializada para atender a demanda de empresas globais em regime remoto. A economia cabo-verdiana cresceu 7,3% em 2024, impulsionada pelo turismo, que atingiu recorde de 1,2 milhão de visitantes.
O polo têxtil e o famtour pelo Agreste
A dimensão comercial da rota tem raízes anteriores à pandemia. Ao anunciar a retomada do voo, a governadora Raquel Lyra destacou que a ligação “vai garantir fluxo de passageiros que vão até Cabo Verde, fomentando o turismo do país, mas também que venham para Pernambuco, utilizar a nossa rede de saúde, fazer compras aqui, fazer exportação através do polo de confecções”. A rota operava antes de 2020 com forte presença de comerciantes cabo-verdianas que embarcavam no Agreste carregadas de confecções para revenda no arquipélago e em outros mercados africanos.
A retomada da rota reativa esse corredor turístico e comercial. Entre os dias 7 e 13 de maio, cerca de 20 representantes do setor de turismo e negócios de Cabo Verde participam de um famtour pelo estado, com visita ao Polo de Confecções do Agreste Pernambucano e reuniões comerciais em Caruaru, Toritama e Santa Cruz do Capibaribe.
Baptista Jr., no entanto, avalia que o vetor de maior impacto para Cabo Verde não é o comércio de confecções: a penetração de produtos chineses no mercado africano, a preços significativamente menores, inviabiliza a competitividade do polo têxtil pernambucano naquele mercado. O foco da parceria bilateral, segundo ele, é a exportação de conhecimento tecnológico. A programação do famtour inclui ainda passagens por Gravatá, Recife, Olinda e Porto de Galinhas.
*Com informações da Empetur
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