
Em vez de milho, sorgo. Vinte e quatro dias após a primeira viagem experimental, a Ferrovia Transnordestina volta a circular com uma composição de 20 vagões carregados, partindo às 14h deste domingo (11) do Terminal Intermodal do Piauí, em Bela Vista do Piauí. O destino final é o Terminal Logístico de Iguatu (CE), com chegada prevista entre 5h e 6h de segunda-feira (12). O sorgo cultivado na região do Matopiba será destinado a granjas cearenses. As informações são do jornal cearense O Povo.
A operação repete o percurso da viagem inaugural, realizada em 18 de dezembro de 2025, quando mil toneladas de milho foram transportadas em 12 horas, percorrendo 585 quilômetros. De acordo com a Transnordestina Logística S.A. (TLSA), o novo deslocamento tem função de aferição técnica, verificando estabilidade da via, precisão de frenagem e comportamento de locomotivas sob carga contínua.
A primeira viagem experimental marcou o retorno operacional da ferrovia após mais de uma década de obras e revisões contratuais. O trem partiu de Bela Vista do Piauí e chegou a Iguatu no início da madrugada seguinte, com cumprimento integral do cronograma técnico.
Os relatórios da TLSA indicaram regularidade na integridade dos trilhos, eficiência dos sistemas de comunicação e aderência entre locomotiva e vagões, sem intercorrências relevantes. O balanço consolidou o trecho Piauí–Ceará como o primeiro setor apto a operar de modo contínuo, viabilizando a sequência de testes previstos até o início da operação comercial, estimado para o segundo semestre de 2026.
Mais R$ 106,2 milhões liberados
As obras da Transnordestina começaram 2026 com um novo aporte de R$ 106,2 milhões em recursos públicos, liberados via Fundo de Desenvolvimento do Nordeste (FDNE). A autorização foi emitida pela Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) em 8 de janeiro, com o objetivo de manter o ritmo de execução da chamada Fase I, que liga São Miguel do Fidalgo (PI) ao Porto do Pecém (CE).
O repasse integra o termo aditivo de R$ 3,6 bilhões firmado em novembro de 2024 para conclusão da ferrovia. Com a nova liberação, o total já desembolsado atinge R$ 1,806 bilhão. A previsão do Governo Federal é alcançar R$ 2 bilhões em crédito do FDNE até 2027, conforme o avanço físico das frentes de trabalho.
O Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR) informou que a gestão financeira é conduzida pela Secretaria Nacional de Fundos e Instrumentos Financeiros (SNFI), responsável por R$ 4,4 bilhões do investimento total. O projeto completo demandará cerca de R$ 15 bilhões, somando aportes públicos e privados.
O acompanhamento da execução ocorre de forma conjunta entre Sudene, Banco do Nordeste e MIDR, com liberação condicionada ao desempenho técnico e à execução física das obras em campo. Segundo o ministério, o modelo busca assegurar previsibilidade financeira e continuidade operacional até 2027.
Avanço no trecho cearense
A Fase I da ferrovia compreende 1.206 quilômetros de extensão e atingiu 79% de execução física, de acordo com o balanço técnico mais recente. Todos os 22 lotes da obra estão contratados, e o Ceará concentra as etapas mais avançadas, com foco nos 120 quilômetros finais entre Missão Velha e o Porto do Pecém.
O novo aporte de R$ 106,2 milhões reforça as obras de arte especiais e a infraestrutura portuária, ampliando a integração logística do Nordeste. A Sudene classificou o investimento como estratégico para consolidar o corredor de exportação entre o Matopiba e o Pecém.
A liberação da Licença de Operação do Ibama, em dezembro de 2025, permitiu o início dos testes práticos e a transição da ferrovia para a fase operacional, com monitoramento ambiental ativo.
Trecho pernambucano segue em atraso
O trecho pernambucano, entre Salgueiro e Suape, permanece em reprogramação. O Ministério dos Transportes adiou para março a abertura das propostas licitatórias, após revisão técnica e jurídica para ampliar a concorrência. A data inicial prevista para esta fase era 8 de janeiro.
O segmento, considerado o mais complexo da ferrovia, envolve áreas urbanas, terrenos de relevo acentuado e necessidade de desapropriações adicionais. Segundo a TLSA, as atividades de topografia e drenagem estão em curso, mas o avanço físico ainda não ultrapassa 40% do previsto, mantendo o cronograma geral sob revisão.
O eixo Salgueiro–Suape é o elemento final da integração portuária da Transnordestina, conectando o interior do Nordeste aos portos de Pecém e Suape. A conclusão dessa etapa é apontada como decisiva para o fechamento do corredor ferroviário de longa distância, consolidando a logística intermodal de exportação agrícola e industrial da região.
Transnordestina: expansão e integração logística
A Transnordestina já implantou 1.206 quilômetros de trilhos, sendo 1.019 km no eixo oeste (Salgueiro–Eliseu Martins) e 187 km no eixo leste (Missão Velha–Pecém). A ferrovia alcança agora o estágio de testes integrados, quando os resultados de campo passam a definir o ritmo da transição operacional. A capacidade plena projetada é de 30 milhões de toneladas anuais, distribuídas entre cargas agrícolas, minerais e industriais.
O corredor ferroviário consolida o primeiro eixo funcional de ligação entre os polos de produção do Matopiba e os portos do Nordeste. O percurso Piauí–Ceará antecipa a operação de longo curso da ferrovia e permite avaliar o custo logístico total entre o interior e o litoral. Estimativas técnicas indicam redução de 30% a 40% nos custos de transporte para grãos e insumos agroindustriais, além da ampliação da competitividade das exportações regionais.
O empreendimento é considerado estratégico para a política de integração produtiva do Nordeste e está listado entre os projetos de infraestrutura prioritários do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O modelo de concessão prevê participação mista, com controle privado e financiamento público, articulando a atuação da Sudene, do BNDES e do Ministério dos Transportes.
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