
As exportação de pescados brasileiros para os Estados Unidos estão suspensas desde a última quinta-feira (10), segundo confirmou a Associação Brasileira das Indústrias de Pescados (Abipesca). A decisão partiu dos próprios importadores norte-americanos, que optaram por paralisar os embarques diante da insegurança jurídica e comercial provocada pela nova tarifa de 50% anunciada pelo governo americano. Pelo menos 1.500 toneladas de peixes e frutos do mar deixaram de embarcar, gerando um efeito imediato sobre portos, empresas e trabalhadores do setor.
De acordo com a Abipesca, os contêineres estariam parados em portos do Nordeste, que concentram os principais terminais de exportação de pescado — como Bahia, Ceará e Pernambuco — e são também importantes polos de pesca artesanal e piscicultura. A entidade disse que não há previsão de embarque.
“Diante do anúncio do governo americano, o que inviabiliza os custos do produto de pescado brasileiro no mercado, houve um imediato cancelamento das operações de embarque previstas”, disse Aniella Banat, diretora de Processamento e Comercialização da Abipesca. Segundo ela, na última quinta-feira, 58 contêineres de pescado destinados aos portos brasileiros tiveram que retornar às áreas de armazenagem após essa quebra comercial.

“Dados comerciais do ano de 2024 confirmam que cerca de 70% dos produtos de pescado tiveram como destino os Estados Unidos. Já quando olhamos para o mercado de tilápia brasileira, esse número sobe para mais de 90%. Nós temos o mercado americano sendo o principal destino das exportações das indústrias de pescado brasileiras”, disse Aniella.
A situação é especialmente delicada porque o transporte marítimo até os EUA leva, em média, três semanas, e qualquer reembarque representa prejuízo imediato aos exportadores, que podem ter de arcar com custos logísticos adicionais.
O presidente da Abipesca, Eduardo Lobo Naslavsky, classificou a situação como desesperadora. Segundo ele, a suspensão já afeta a cadeia produtiva, com riscos concretos de cancelamento de contratos, perda de empregos e interrupção de renda para milhares de trabalhadores, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, onde o mercado interno não tem escala suficiente para absorver o excedente de produção.
Sigilo no portos
Diante do sigilo que envolve as operações portuárias, é difícil saber quantos contêineres de fato estão nos portos nordestinos. No Ceará, o Porto do Pecém informou, por nota, que atua como facilitador das operações de embarque e desembarque de cargas de importação e exportação e que, até o momento, não houve solicitação formal de alteração no cronograma da carga de pescados mencionada. “O Porto apenas é informado oficialmente quando há decisão de manter uma carga em pátio por tempo superior ao previsto, o que, neste caso, ainda não ocorreu. O Porto do Pecém segue operando normalmente para garantir a fluidez e segurança das operações logísticas”, disse a nota. Em Pernambuco, o Tecon Suape informou ao Movimento Econômico que opera normalmente. Na Bahia, o Tecon Salvador disse que não se pronunciaria sobre o assunto.
Produtos como tilápia, lagosta, atum e corvina — todos com forte presença na pauta exportadora — são os mais afetados. Muitos desses itens são oriundos de pequenos produtores e cooperativas, o que agrava o impacto social da suspensão.
A expectativa agora é por um esforço diplomático que permita ao menos a liberação dos lotes já preparados para envio e uma negociação que evite a ruptura de longo prazo com o mercado norte-americano.
*Colaborou Allan Petterson
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