
Representantes do setor sucroalcooleiro nordestino realizaram uma reunião de emergência na manhã de quinta-feira (10) para tratar das consequências da nova tarifa de importação de açúcar anunciada pelos Estados Unidos. A medida, que poderá chegar a 50%, ameaça inviabilizar o escoamento de parte da produção do Nordeste, comprometendo embarques históricos a partir dos portos de Recife (PE) e Maceió (AL) e gerando perdas estimadas em US$ 90 milhões por ano-safra. A nova situação foi classificada como um “baque” para o trade açucareiro, que sozinho responde por cerca de 6% das exportações da região.
A articulação envolveu entidades como a Associação de Produtores de Açúcar, Etanol e Bioenergia (NovaBio), a Bioenergia Brasil e a Frente Parlamentar Agropecuária. O encontro marcou o início de uma mobilização institucional que deve incluir reuniões com o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, além do chanceler Mauro Vieira.
Além dessas autoridades, o setor também prevê tratativas com o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, que já sinalizou interesse em participar das articulações voltadas à defesa da cadeia sucroenergética brasileira no cenário internacional.
Volume de açúcar representa quase 6% das exportações nordestinas
O Nordeste, onde a indústria da cana-de-açúcar gera mais de 250 mil empregos diretos e indiretos, seria o principal afetado pelo tarifaço norte-americano de 50%, que ameaça comprometer a estabilidade de uma cadeia produtiva fortemente regionalizada.
A produção de açúcar no Nordeste gira em torno de 3,75 milhões de toneladas por safra. A cota norte-americana destinada ao Brasil é de 150 mil toneladas, das quais a totalidade é fornecida pela região. Esse volume representa 4% da produção e 5,88% das exportações nordestinas. Embora pequena em percentual, a cota garante receita significativa e regularidade operacional às usinas envolvidas.
Os montantes derivam de um acordo entre os países e são uma forma de trazer mais previsibilidade aos produtores do Norte-Nordeste. O rateio segue regras previamente impostas pelo Ministério da Agricultura e Pecuári (Mapa) e, desta forma, 37 usinas puderam se beneficiar da medida em 2024.
O presidente executivo da NovaBio e do Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool de Pernambuco (Sindaçúcar-PE), Renato Cunha, observa que “esse volume exportado gera cerca de R$ 600 milhões a R$ 700 milhões por ano-safra, período entre 1º de outubro a 30 de setembro do ano posterior. É uma operação trabalhosa, mas vital”. Ele também ressalta que, apesar da eficiência brasileira, “a maior cota é da República Dominicana, país com capacidade de produção inferior à brasileira”.
Segundo Renato Cunha, que possui mais de 40 anos de atuação no setor, a elevação tarifária anunciada por Donald Trump não tem fundamento técnico. Para ele, trata-se de uma reação política a recentes tensões diplomáticas. “Essa carta entre Trump e Lula tem um teor absolutamente político. Não há base técnica para esse tipo de medida, até porque os Estados Unidos são superavitários na balança comercial com o Brasil”, afirmou.

Rota histórica em risco entre Nordeste e Flórida
A exportação de açúcar a granel para os Estados Unidos a partir do Nordeste é uma operação consolidada desde os anos 1960, com base em cotas anuais estabelecidas pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Essas cotas são distribuídas pelo governo brasileiro com base na Lei nº 9.362/1996, que garante prioridade ao Norte e ao Nordeste por critérios socioeconômicos.
A logística da operação exige uma cadeia integrada, com navios adaptados para transporte a granel e divisão da carga entre diversas usinas. A performance das exportações ocorre apenas a partir dos portos de Recife e Maceió, que operam rotas com destino a refinarias na Flórida, principalmente ao terminal de Savannah.
Essa ligação comercial envolve percursos de mais de 6 mil quilômetros por via marítima e dura, em média, dez dias de viagem. Trata-se de uma conexão regular e estratégica que abastece o mercado norte-americano com açúcar cru destinado à refinação de acordo com o perfil de consumo local.
Setor teme substituição por países menos eficientes
Mesmo sendo o segundo maior fornecedor da cota, o Brasil é historicamente convocado pelos Estados Unidos para suprir falhas de fornecimento de outros países. Segundo Cunha, a performance brasileira é reconhecida por sua confiabilidade e capacidade logística. “Com essa medida, os Estados Unidos correm o risco de trocar o certo pelo duvidoso. Países com menor capacidade de entrega poderão ocupar nosso espaço, mas dificilmente com a mesma regularidade e qualidade”, alertou.
Para o dirigente, a imposição da tarifa configura uma quebra da previsibilidade que sempre marcou a relação comercial entre os dois países. “É praticamente um rompimento tácito de contrato. O modelo atual envolve compradores definidos, logística eficiente e previsibilidade. A mudança abrupta afeta diretamente esse fluxo”, avaliou.
Relação técnica entre os países permanece ativa
Apesar da tensão política, Cunha afirmou que os canais técnicos seguem abertos. Em setembro de 2023, representantes de Pernambuco e Alagoas foram recebidos em Washington pelo USDA e pelo Departamento de Comércio Exterior (SDA), com retorno positivo.
Além disso, missões técnicas norte-americanas visitam regularmente as usinas da Mata Norte e da Mata Sul em Pernambuco. “A relação entre os técnicos do Itamaraty e dos órgãos norte-americanos sempre foi construtiva. Por isso acreditamos que ainda há margem para negociação, desde que prevaleça a sensatez no alto escalão”, disse.
Etanol também sob pressão com desequilíbrio tarifário
Além do açúcar, o setor também acompanha com preocupação o cenário tarifário do etanol. Atualmente, o etanol brasileiro enfrenta tarifa de 10% ao entrar nos Estados Unidos, enquanto o produto norte-americano (especialmente o de milho) entra no Brasil com alíquota de 18%. A diferença impacta a competitividade do produto nacional. Cunha afirma que “as distribuidoras que importam o etanol norte-americano deixam de comprar o produto nacional. Isso afeta o fluxo de caixa das usinas e pressiona o mercado interno”.
Além da diferença tarifária, Cunha apontou que o modelo de importação do etanol norte-americano compromete diretamente o fluxo de caixa das usinas brasileiras. Segundo ele, as distribuidoras que importam etanol de milho costumam negociar com prazos longos e travas cambiais feitas nas bolsas, mas quando o produto chega ao Brasil, é vendido à vista, competindo com o produto das usinas locais. “A distribuidora que importa passa a se autoabastecer. Deixa de comprar o etanol que está sendo moído aqui, e isso estrangula financeiramente a operação do produtor brasileiro”, disse.
Empresariado teme escalada tarifária e desgaste institucional
O dirigente também destacou que a pressão tarifária sobre o açúcar é apenas uma entre várias enfrentadas por cadeias produtivas brasileiras em diferentes estados. Segundo Cunha, “há um acúmulo de desgastes que envolve setores como o aço e o alumínio no Ceará, frutas no Vale do São Francisco, minério em Minas, químicos em São Paulo e combustíveis no Centro-Oeste”. Para ele, o atual momento exige coordenação institucional, pois “a palavra tarifa hoje é repugnante para o empresário nacional”.
No campo institucional, Renato Cunha afirmou que o nome do vice-presidente Geraldo Alckmin surgiu de forma natural como interlocutor junto ao governo norte-americano. Segundo ele, Alckmin reúne o perfil de moderação necessário para “distensionar” o ambiente entre os países. “O caminho é pelo ministro da Indústria e Comércio. É uma pessoa calma, que pode recompor o diálogo no alto nível”, afirmou. Ele acrescentou que o setor aguarda também definição de agenda com o chanceler Mauro Vieira.
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