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São João em Pernambuco vive entre o glamour e o forró da resistência

Enquanto artistas nacionais recebem até R$ 1,1 milhão, músicos locais enfrentam cachês baixos e falta de estrutura para tocar no São João
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O São João coloca de um lado os popstars da música brasileira, com cachês milionários e, do outro, os forrozeiros, que penam em busca de um pagamento mais justo (Imagem produzida por IA)
O São João coloca de um lado os popstars da música brasileira, com cachês milionários e, do outro, os forrozeiros, que penam em busca de um pagamento mais justo (Imagem produzida por IA)

Imagine a cena: Ivete Sangalo, Xande Avião, Zezé di Camargo e Luciano sentados na galeria de uma Assembleia Legislativa para pressionar os deputados a votarem um crédito suplementar para que o Governo possa pagar seus shows milionários durante os festejos de São João. Visualizou? Agora, vamos trocar os personagens e, principalmente, os valores. Foi exatamente isso que um grupo de 17 forrozeiros e produtores culturais pernambucanos fez na última terça-feira (17). Longe do glamour das grandes produções, com palco high tech, esses artistas locais, que se apresentam sem qualquer estrutura, penam para conquistar espaço e reconhecimento numa festa em que deveriam ser as estrelas principais.

Numa luta desigual em todos os sentidos, enquanto Wesley Safadão recebeu R$ 1,1 milhão por cada show em Caruaru e Surubim, os artistas da região lutam para conseguir três apresentações bancadas pelo Governo do Estado, em que recebem, no máximo, R$ 5 mil por cada uma. E corriam o risco de nem saber quando iriam receber. Dependiam desse crédito suplementar de R$ 100 milhões, por isso ocuparam a galeria da Alepe. No entanto, sem intimidade com o trâmite legislativo, nem se deram conta que a matéria havia sido aprovada e não puderam comemorar.

O grupo é liderado pela produtora Tereza Accioly. Viúva de Accioly Neto, compositor do clássico “Espumas ao Vento”, ela é uma espécie de porta-voz dos forrozeiros. Há 20 anos, fundou a Sociedade dos Forrozeiros Pé-de-Serra e desde então vem atuando para melhorar as condições de trabalho e os cachês desses músicos.Ela conta que o grande desafio dos forrozeiros é conseguir combinar a agenda com os custos. Do cachê máximo de R$ 5 mil, têm que pagar os músicos, refeição e transporte. “Se um trio pé-de-serra sair do Recife para Caruaru, gasta R$ 2 mil de transporte. Ou seja, fica muito pouco para eles. E olhe que hoje o cachê já está melhor”, destaca Tereza.

Mas muitas atrações recebem bem menos que isso. Uma consulta ao Painel de Transparência dos Festejos Juninos, uma iniciativa do Ministério Público de Pernambuco (MPPE), em parceria com o Tribunal de Contas de Pernambuco (TCE-PE), mostra uma realidade bem mais dura. Dos R$ 130 milhões já declarados pelo governo do estado e por 118 dos 184 munícipios pernambucanos no São João, muitos dos 1.159 cantores e grupos se apresentam por menos de R$ 2 mil. É o caso de Anchieta do Pífano, que recebeu R$ 597 para tocar no último dia 14, em São José do Egito.

Músicos e produtores que atuam no São João festejaram a aprovação do crédito suplementar que irá custear os artistas que se apresentarem no período junino Foto Márcio Didier
Músicos e produtores que atuam no São João festejaram a aprovação do crédito suplementar que irá custear os artistas que se apresentarem no período junino Foto Márcio Didier

Cachês milionários para sertanejo

Na outra ponta, o segundo mais bem pago do período junino, que perde apenas para Wesley Safadão no valor do cachê, o astro sertanejo Luan Santana sairá do São João e São Pedro de Pernambuco com R$ 3,9 milhões a mais na conta corrente, por quatro shows nos municípios de Santa Cruz do Capibaribe, Vitória de Santo Antão, Carpina e Surubim. E os números ainda devem mudar. Safadão, por exemplo, se apresentou neste sábado em Gravatá, mas a contratação não aparece no portal do MPPE.

Na capital pernambucana, os números apresentados pela Prefeitura do Recife mostram uma variação menor, mas nem por isso menos desproporcional. Enquanto a cantora de longa estrada Elba Ramalho recebeu R$ 200 mil para se apresentar na última sexta-feira no Sítio da Trindade, os trios Mistura Nordestina e o Tareco e Mariola recebem R$ 2,4 mil cada.

Estrelas do forró na Bahia durante São João

Se os cantores de fora são supervalorizados, o mesmo não pode dizer dos astros locais do forró. Na terra de Luiz Gonzaga, um dos seus principais forrozeiros trocou pelo segundo ano Pernambuco pela Bahia no São João e São Pedro. Santanna o Cantador passará os principais dias do período junino se apresentado pelos municípios baianos. E não só ele. O paraibano Flávio José seguirá o mesmo caminho no São João.

De acordo com a presidente da Sociedade dos Forrozeiros, Tereza Accioly, a contratação antecipada por municípios baianos e os cachês com valores até 100% superiores aos pagos em Pernambuco contribuíram para a agenda cheia dos artistas no estado vizinho. “Tem dia que Santana faz três shows na Bahia. Lá, quando termina um São João, o do ano seguinte já está marcado”, afirmou.

Tereza informou que, apesar do interesse das prefeituras pernambucanas, a demora na definição das grades locais prejudicou a contratação desses nomes. “A Prefeitura ligou para Santana depois do Carnaval, mas ele já tinha fechado as datas. A gestão começou tarde”, explicou. Em Pernambuco, os artistas participaram de eventos no início de junho, como em Caruaru, Serra Negra e Itapecerica, mas no período principal das festas juninas, entre 23 de junho e início de julho, seguiram agenda exclusivamente na Bahia.

Além da antecedência e dos valores, a presidente da sociedade destaca que o pagamento mais ágil e sem burocracia também pesa na escolha. “Teve show em Ouro Velho, na Paraíba, que Bia Marinho recebeu o cachê antes de subir no palco. Lá, é com dotação garantida”, relatou. Para ela, a saída de artistas tradicionais de Pernambuco reflete um modelo cultural que privilegia atrações de fora e abandona o protagonismo do forró pé de serra em seus próprios palcos. “Enquanto isso, os artistas locais fazem até quatro shows no ciclo inteiro e ainda pagam transporte, banda e alimentação do próprio bolso.”

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