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Ciro Gomes abandona sonho presidencial e entra na disputa no Ceará em 2026

Ex-ministro confirma candidatura ao governo do estado e deixa de lado a quarta tentativa de chegar ao Planalto; lançamento da pré-candidatura ocorre neste sábado, 16, no Conjunto Ceará, bairro popular de Fortaleza
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  1. Ciro Gomes abandona candidatura presidencial após quatro tentativas frustradas e baixa votação nacional.
  2. Ex-ministro lança pré-candidatura ao governo cearense em 2026 com apoio de pesquisas favoráveis.
  3. Pesquisa Quaest aponta Ciro com 41% das intenções de voto contra 32% de Elmano.
  4. Em 2022, Ciro obteve apenas 3,04% dos votos presidenciais, seu pior resultado em quatro disputas.
  5. Candidatura estadual representa estratégia pragmática com maior potencial de êxito eleitoral que disputa nacional.
Ciro Gomes durante evento político: ex-ministro aposta no Ceará após quatro tentativas frustradas de chegar à Presidência - Foto: Reprodução Instagram
Ciro Gomes durante evento político: ex-ministro aposta no Ceará após quatro tentativas frustradas de chegar à Presidência – Foto: Reprodução Instagram

Depois de décadas tentando chegar ao Palácio do Planalto, Ciro Gomes decidiu mudar de rota. O ex-ministro e ex-governador disputará o governo do Ceará em 2026, descartando uma nova candidatura presidencial, convite do então presidente nacional do PSDB, Aécio Neves. O lançamento oficial da pré-candidatura ocorre neste sábado, 16, no Centro Educacional Evandro Ayres de Moura, no Conjunto Ceará, em Fortaleza, bairro popular que abriga um dos maiores conjuntos habitacionais da América Latina, uma escolha carregada de simbolismo. 

A decisão pôs fim a meses de especulação. Ciro chegou a negar publicamente interesse no governo estadual em mais de uma ocasião, mas, nos bastidores, acompanhava de perto as pesquisas eleitorais. Os números lhe eram favoráveis: levantamento recente da Quaest o coloca com 41% das intenções de voto, contra 32% do atual governador Elmano de Freitas (PT), enquanto o deputado Eduardo Girão (Novo), que também deve ser candidato, aparece com apenas 4%.

O único cenário em que Ciro perde é aquele em que Camilo Santana (PT) entra na disputa. O ex-governador e ex-ministro da Educação lidera com 40% contra 33% de Ciro, mas Camilo reafirma que não pretende disputar o cargo, abrindo espaço para a candidatura à reeleição de Elmano.

Cid Gomes (PSB), Camilo Santana (PT), Elmano de Freitas (PT): o trio simboliza o racha familiar com Ciro Gomes, irmão de Cid, que estará no lado oposto da disputa em 2026 - Foto: Reprodução
Cid Gomes (PSB), Camilo Santana (PT), Elmano de Freitas (PT): o trio simboliza o racha familiar com Ciro Gomes, irmão de Cid, que estará no lado oposto da disputa em 2026 – Foto: Reprodução

Uma derrota que explica tudo

A escolha pelo estado não é apenas estratégica, é também uma resposta às urnas. Em 2022, Ciro viveu sua pior eleição presidencial em quatro tentativas. Pelo PDT, obteve apenas 3,04% dos votos válidos no país, somando cerca de 3,6 milhões de votos, seu piso histórico em disputas presidenciais. Mas o golpe mais duro veio de casa: pela primeira vez em sua trajetória, Ciro não foi o candidato mais votado no Ceará. No estado onde construiu sua carreira, ele ficou em terceiro lugar com apenas 369.222 votos e 6,8% dos votos válidos, atrás de Lula, que venceu com 65,91%, e de Bolsonaro, com 25,38%.

A cientista política Carla Michele Quaresma enxerga na virada estadual uma leitura pragmática do momento: “É mais provável que haja um êxito de Ciro numa eleição estadual, numa eleição em que ele já tem um recall, já é alguém no imaginário do eleitorado, é uma imagem de um bom gestor. O que as pesquisas têm indicado aqui é uma candidatura muito competitiva, diferentemente do que ocorre no plano nacional, em que a polarização já previamente estabeleceu quem são essas candidaturas com um potencial maior.”

E complementa: “Depois da última tentativa de concorrer nacionalmente, com uma votação pífia, inclusive aqui no estado do Ceará, talvez a decisão mais correta seja investir nesse momento em algo que, do ponto de vista eleitoral, seja mais exequível, e aí nós estamos falando da eleição estadual.”

Ciro Gomes ao lado do ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio (União Brasil): a aproximação entre os dois marca a construção de uma frente de oposição ao PT no Ceará - Foto: Reprodução
Ciro Gomes ao lado do ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio (União Brasil): a aproximação entre os dois marca a construção de uma frente de oposição ao PT no Ceará – Foto: Reprodução

Uma aliança improvável — e seus riscos

Para viabilizar a candidatura, Ciro precisou engolir antigas rivalidades e aproximar-se de nomes do campo conservador. O ex-ministro costurou uma aliança com o ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio e o ex-deputado Capitão Wagner, ambos do União Brasil, além do deputado federal André Fernandes (PL), figura que cresceu na onda bolsonarista no estado e é frequentemente comparado ao deputado mineiro Nikolas Ferreira.

Para Quaresma, essa aproximação reflete um movimento mais amplo da política cearense: “Esse grupo ligado ao ex-presidente Bolsonaro adquiriu uma relevância muito grande no estado do Ceará. Se nós considerarmos principalmente o último pleito, há um crescimento muito grande desse espectro político, e eles acabaram se aproximando de uma parcela do eleitorado que estava meio órfão do projeto que eles representam. Então, isso faz com que as lideranças políticas busquem também essa proximidade na tentativa de colher frutos eleitorais.”

A cientista política também aponta que o histórico ideológico de Ciro facilita essa transição: “Se nós considerarmos ainda que o Ciro não é necessariamente um político fiel a ideologias partidárias, já passou por diversas agremiações, nós chegamos à conclusão de que ele age do ponto de vista estratégico, pela necessidade de fortalecimento para o pleito. Então, não é essa pessoa que tem uma identidade bem definida do ponto de vista partidário. Muito provavelmente na campanha assumirá pautas no discurso da moralidade, do que diz respeito à eficiência do Estado.”

De fato, em outubro do ano passado, após uma relação de dez anos, Ciro deixou o PDT e se filiou ao PSDB, legenda à qual já esteve vinculado no início da carreira. A aliança, no entanto, tem um custo político e familiar. Seu irmão, o senador Cid Gomes (PSB), é apoiador declarado do PT e deve engrossar o palanque de Elmano de Freitas, colocando os dois irmãos em lados opostos pela primeira vez em décadas.

Ciro Gomes e o ex-senador Tasso Jereissati (PSDB): veterano da política cearense, Tasso empresta peso e experiência à aliança que desafia a reeleição do governador Elmano de Freitas - Foto: Reprodução
Ciro Gomes e o ex-senador Tasso Jereissati (PSDB): veterano da política cearense, Tasso empresta peso e experiência à aliança que desafia a reeleição do governador Elmano de Freitas – Foto: Reprodução

O antipetismo como estratégia

Quaresma avalia que a associação com nomes bolsonaristas pode ser uma faca de dois gumes, mas que Ciro tem condições de explorar o antipetismo sem assumir as bandeiras mais radicais da direita: “Com certeza essa relação do Ciro Gomes com um grupo muito vinculado ao ex-presidente Bolsonaro será explorado pela oposição. Até porque há no estado do Ceará também uma forte rejeição, por uma parte significativa do eleitorado, em relação ao projeto do ex-presidente Bolsonaro. Mas ao mesmo tempo, dentro desse espectro político, Ciro pode aparecer como uma candidatura que tem uma possibilidade maior de conversar com segmentos mais ao centro, diferentemente de outros candidatos da direita.”

E acrescenta que esse posicionamento híbrido pode ser uma vantagem eleitoral: “Ciro Gomes tem a condição de representar um grupo político que tem esse discurso muito forte da moralidade, o antipetismo e, ao mesmo tempo, é defensor de um projeto desenvolvimentista. Então, conversa com os segmentos médios do eleitorado, um público mais ao centro. E isso pode representar um ganho, do ponto de vista eleitoral.”

Sobre a postura de Ciro em relação às pautas mais associadas ao bolsonarismo, a análise é clara: “Muito provavelmente Ciro não vai subir no palanque, mesmo que seja ao lado dessas lideranças bolsonaristas, para defender essas pautas que são muito vinculadas às questões morais. Então, esse apoio pode ser importante no sentido de fortalecer essa postura antipetista, de combate a um governo não tão bem avaliado.”

O peso do sobrenome Gomes

Se há um ativo que Ciro carrega independentemente de alianças, é o imaginário construído pela família em décadas de política cearense. Quaresma aponta esse capital simbólico como um diferencial: “Existe no imaginário do eleitor a ideia de que ele pode ser um excelente gestor, do comprometimento. E isso está vinculado à personalidade dele, mas também está muito relacionado ao histórico da família. A própria atuação do seu irmão no estado do Ceará, do Cid Gomes, com grandes obras no governo do estado. Então, é claro que ele já tem esse protagonismo. Mas ele pode, com essa aliança, conquistar o voto desse eleitorado que cresceu muito, principalmente no último pleito na eleição municipal, mais à direita.”

Com o lançamento marcado para este sábado num dos bairros mais populosos de Fortaleza, Ciro Gomes dá o primeiro passo oficial de uma candidatura que promete mexer com o tabuleiro político do Ceará  e que começa com os números do seu lado, mas com uma série de apostas ainda em aberto.

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