
Imagine poder escolher entre um hambúrguer ou uma bisteca e imprimir a peça desejada em uma bioimpressora. Pode parecer enredo de ficção científica, mas esse cenário já está em execução no Brasil. No Centro Integrado de Manufatura e Tecnologia (Cimatec) do Senai, que fica em Salvador, pesquisadores desenvolvem carne bovina cultivada a partir de células vivas e impressa em 3D, com textura, gordura e formato semelhantes à carne convencional. O projeto, denominado CELLMEAT3D, venceu o Prêmio Finep Nordeste de Inovação 2025 na categoria Agroindustriais Sustentáveis, demonstrando que a tecnologia está ganhando tração além da teoria.
O projeto baiano não está isolado no mercado, já que grandes players brasileiros de proteína animal também vêm investindo em pesquisa e desenvolvimento de carne cultivada a partir de células bovinas, que pode colocar o país em outro patamar mundial neste segmento.
Em entrevista ao Movimento Econômico, a gerente executiva do Cimatec BA, Tatiana Nery, explica como o projeto foi iniciado e as perspectivas de o avanço das pesquisas contribuírem para que a carne produzida em laboratório e impressa em uma bioimpressora contribua com a pecuária e promova o acesso do alimento à população.
“Há cerca de três anos iniciamos os estudos porque identificamos o surgimento de startups no mundo e percebemos que, como o Brasil é um dos maiores produtores e exportadores de carne bovina, poderíamos ter protagonismo também nessa proteína alternativa”, conta Tatiana.
No laboratório, segundo explica a pesquisadora, o processo começa com a retirada de células musculares de um bovino vivo por meio de biópsia, sob protocolo veterinário e autorização ética. Essas células são cultivadas em meios líquidos nutritivos e duplicadas em biorreatores até formarem volume suficiente para manipulação.
“Esse material ainda é apenas células em meio líquido e para que se transforme em carne que pareça carne, usamos matrizes poliméricas comestíveis que dão tanto o aspecto visual quanto a textura similar à carne que mordemos”, explica Tatiana. Em seguida, uma bioimpressora 3D usa “biotintas” compostas por mix de células musculares e adiposas, segue um desenho já programado num sistema CAD, que pode ser um hambúrguer ou uma bisteca, por exemplo, e imprime a peça camada por camada.
“Uma peça de carne, por exemplo, uma bisteca, ela é formada, por uma parte de carne e camadas também de gordura. Toda essa estrutura conseguimos reproduzir através da impressão com biotintas que vão dar essa formação das células musculares. Podemos também usar células adiposas para dar o formato da gordura da carne, conforme desejamos”, explica.
Apesar dos desafios, o time da Cimatec enfatiza que está em escala de protótipo funcional. A tecnologia já possibilita a criação de peças com formas reconhecíveis, e o projeto avança de forma multidisciplinar na engenharia de alimentos, biotecnologia, gastronomia e mecânica de precisão. “Somos uma equipe multidisciplinar composta por farmacêuticos, veterinários, engenheiros, especialistas em gastronomia. Sem essa integração não funciona”, observa Tatiana.

A carne produzida em laboratório também prevê ganhos potenciais, como a redução do desmatamento, do consumo de água e de grãos que alimentam animais.
“Atualmente, cerca de 70% a 80% da produção mundial de grãos destinam‑se à ração. Para produzir volumes similares em carne bovina convencional, o ciclo leva cerca de 18 meses. Na bioimpressação, precisamos de 24 a 30 dias. Com população estimada em 10 bilhões até 2030, não temos terras nem recursos hídricos para aumentar produção da forma tradicional. A carne cultivada será complementar, não substituta”, reforça Tatiana.
Carne cultivada em laboratório entra no radar de gigantes do mercado
Esse avanço tecnológico não está isolado do mercado. Grandes players brasileiros da proteína animal já entraram nessa corrida. A BRF S.A. investiu em 2021 US$ 2,5 milhões na startup israelense Aleph Farms para produção de carne cultivada a partir de células bovinas.
Já a JBS instalou um centro de P&D (Pesquisa e Desenvolvimento) em Florianópolis com aporte estimado de US$ 62 milhões, espalhados em três fases, para proteína cultivada em escala industrial. Estas iniciativas demonstram que o Brasil não só produz carne tradicional, mas também pesquisa os cortes do futuro.
“Há interesse das empresas para desenvolver essa tecnologia e elas estão fazendo isso em todo mundo. Holanda e Israel são alguns dos países que estão mais avançados, com startups já produzindo essa proteína e comercializando em Singapura. O MIT, nos Estados Unidos, também tem estudos avançados sobre isso e tem startups norte-americanas avançando nos estudos”, analisou a pesquisadora.

A escolha da cadeia brasileira como base desse tipo de inovação torna‑se estratégica. O Brasil acumula não apenas rebanho e competência, mas agora pesquisa avanços em carne celular e bioimpressão. A participação das grandes empresas reforça este movimento. A interseção entre agronegócio, biotecnologia e design de alimentos inicia o ciclo de produção de proteínas alternativas que, embora incipiente, já conta com investimentos e reconhecimento.
Apesar das pesquisas em andamento no país, ainda é necessário adaptar à indústria, já que a pesquisa e produção feita nos laboratórios da Bahia são adaptados da indústria médica. A gerente do Cimatec BA destaca que ainda é preciso desenvolver insumos a custo compatível, criar biotintas e matrizes acessíveis e gerir biorreatores que operem em escala comercial. Empresas brasileiras, como a Duas Rodas, já testam fornecimento de ingredientes e algumas startups exploram células de peixe e frango, além de matrizes poliméricas. Esse ecossistema se move em torno da carne cultivada e da gastronomia de tecnologia.
“Contamos muito com a colaboração de empresas parceiras, fornecedores parceiros para desenvolver tecnologia ou aprimorar a tecnologia para esse fim. A produção dos insumos que utilizamos para esses estudos, a indústria que fornece esses insumos, ela também precisa se atualizar e começar a pensar nesse mercado”, disse.
Para que o produto chegue ao consumidor brasileiro, é necessário também habilitar o uso como alimento no Brasil, conforme as normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), que ainda não existem.
“Esse é um projeto que ele vai desencadear inovação e economia em diversos setores, tanto na parte de equipamentos, na parte de insumos, quanto na parte também do cultivo celular e de matrizes aí de hidrogeologia. Então, são várias frentes de estudo e várias cadeias que precisam estar envolvidas para viabilizar isso no futuro”, completou Tatiana.
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