
A crise enfrentada pelos fornecedores de cana em Alagoas voltou a colocar pressão sobre o Conselho de Produtores de Cana de Açúcar e Etanol dos Estados de Alagoas e Sergipe (Consecana-AL), sistema que define parâmetros de remuneração da matéria-prima em Alagoas e Sergipe. Em reunião promovida pela Associação dos Produtores de Cana-de-Açúcar da Região do Vale do Coruripe (Asprovac), nesta quarta-feira (13), representantes do setor defenderam a modernização do modelo, num momento em que o campo atravessa perdas de produção, queda no ATR e dificuldades financeiras.
A discussão ganhou força após a Asprovac conquistar, no fim do ano passado, uma cadeira no conselho e passar a participar mais diretamente das reuniões do Consecana.
Segundo o vice-presidente da entidade, Aloisio César Misquita, a associação passou a ser procurada por fornecedores interessados em entender por que mudanças debatidas em outros estados, como São Paulo e Pernambuco, não chegaram a Alagoas e Sergipe. A avaliação é de que a atualização do sistema pode ampliar a transparência das informações, rever critérios de remuneração e tornar mais equilibrada a relação entre fornecedores e indústria.
“Vivemos um cenário de pressão nos preços e, no ano passado, tivemos também uma forte crise hídrica. Se o Consecana-AL já tivesse passado pelo processo de modernização, o produtor teria mais segurança para atravessar momentos como esses. São Paulo avançou e Pernambuco também evoluiu, enquanto Alagoas permaneceu parada. Precisamos de mais transparência, acesso às informações e um modelo que acompanhe a realidade atual da produção para fortalecer o campo e a economia do estado”, afirma.
A Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil (ORPLANA) também manifestou apoio à modernização do conselho estadual, defendendo o avanço de mecanismos que ampliem a previsibilidade e clareza nas relações entre fornecedores e indústria.
“A modernização do modelo é necessária para fortalecer o ambiente da produção canavieira em Alagoas e Sergipe. A ORPLANA apoia a ASPROVAC porque entende que a modernização do Consecana-AL pode contribuir para relações mais equilibradas, maior segurança ao campo e avanço da atividade em Alagoas e Sergipe”, afirmou José Guilherme Nogueira, CEO da ORPLANA.

Crise tem afetado produtores de cana em Alagoas
A cobrança por mudanças no Conselho de Produtores de cana ocorre em um contexto de forte deterioração das condições enfrentadas pelos produtores. Embora a safra 2025/2026 tenha sido encerrada com alta de 0,15% no total de cana processada em Alagoas, alcançando 17,6 milhões de toneladas, representantes dos plantadores afirmam que o dado agregado não reflete a realidade dos fornecedores independentes.
Segundo dados do Sindicato da Indústria do Açúcar e Etanol em Alagoas (Sindaçúcar-AL), o estado produziu 1.392.574 toneladas de açúcar e 472,913 milhões de litros de etanol na safra. A produção do biocombustível cresceu 16,8% em relação ao ciclo anterior, em um movimento atribuído pelas usinas a condições mais favoráveis de mercado. Com isso, 12 das 15 unidades em operação priorizaram mais o etanol do que o açúcar.
Apesar disso, o presidente da Associação dos Plantadores de Cana de Alagoas (Asplana), Edgar Antunes, afirmou que os produtores amargaram perdas superiores a 20% na produção. Segundo ele, o resultado da safra ficou próximo ao do ciclo anterior porque houve maior participação de cana própria das usinas e compra de matéria-prima de outros estados, o que, na visão dos fornecedores, mascara a gravidade da situação enfrentada no campo alagoano.
“O clima foi muito severo, a safra não desenvolveu e, além disso, o ATR caiu 40% em comparação à safra anterior”, afirmou Antunes ao Movimento Econômico.

Setor canavieiro quer socorro emergencial
A crise no campo também levou o setor a buscar apoio direto do governo de Alagoas. Segundo Edgar Antunes, deve ocorrer na próxima semana uma reunião com o governador de Alagoas, Paulo Dantas, quando representantes da cadeia canavieira pretendem apresentar um documento com uma lista de pedidos e proposições para enfrentar o momento de dificuldade.
Entre os argumentos que serão levados ao Executivo está a necessidade de uma injeção rápida de recursos para dar fôlego ao produtor. A avaliação da Asplana é de que esse suporte permitiria o pagamento de insumos básicos, como adubo e herbicida, além da realização do plantio, o que ajudaria a manter o canavial vivo enquanto o setor aguarda uma recuperação dos preços.
Antunes afirmou ainda que o aperto financeiro já compromete etapas essenciais do cultivo e que muitas usinas não quitaram integralmente os pagamentos aos fornecedores, algumas pedindo prazo adicional de até três meses. Segundo ele, a dificuldade de caixa tem levado produtores a priorizar despesas de sobrevivência em vez de reinvestir no canavial, o que pode trazer reflexos para a próxima safra.
Leia mais: De mel a concreto: novo acordo amplia pauta exportadora de Alagoas à Europa










