
A cena das cervejarias alagoanas vem ganhando contornos cada vez mais expressivos no cenário nacional. Segundo o Anuário da Cerveja 2025, elaborado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), o estado conta atualmente com nove estabelecimentos formalmente registrados, distribuídos em quatro municípios, que colocaram no mercado 181 produtos e 240 marcas. Ainda que o número seja pequeno se comparado a centros mais consolidados, o movimento em Alagoas cresce de forma consistente, alicerçado na qualidade, na criatividade e no fortalecimento da identidade cultural.
No Brasil, a produção de cerveja alcançou 15,34 bilhões de litros em 2024. O país registrou aumento de 5,5% no número de cervejarias, enquanto o Nordeste obteve crescimento acima da média nacional, com 16,4% a mais de estabelecimentos. O avanço reflete uma mudança no perfil do consumidor, cada vez mais aberto a novas experiências sensoriais e a rótulos que valorizam a diversidade regional.
Pioneira entre as cervejarias alagoanas, a Cervejaria Deodora nasceu em 2012, quando Celso Nonô decidiu apostar na produção de chope artesanal de alta qualidade. Em 2014, inaugurou sua fábrica própria no Distrito Industrial de Maceió, tornando-se a primeira do estado. Três anos depois, passou a adotar o nome Deodora, inspirado em Maria da Deodora, a filha mais nova de Marechal Deodoro da Fonseca, reafirmando a conexão com as raízes locais.
“O início foi desafiador. Ser pioneira significava quebrar barreiras culturais: o público não estava acostumado a cervejas que fugiam do padrão das grandes marcas. Foi preciso apostar em degustações, eventos culturais e muita conversa com os consumidores para apresentar estilos, explicar sabores e mostrar que cerveja artesanal é sinônimo de qualidade, cuidado e história”, recorda Maria Carolina Nonô, filha de Celso e atual gestora da cervejaria.

Hoje, a Deodora oferece nove estilos fixos e sazonais, entre eles a clássica Pilsen, a Lemondrop e a Session IPA, que caiu no gosto do público pela leveza e frescor adaptados ao clima quente de Alagoas. Mais que uma fábrica, a marca também se consolidou como promotora cultural, criando eventos que já fazem parte do calendário local, como o Festival Alagoaníssimo e o Bloquinho da Deodora.
“Nosso diferencial é estar atentos ao que o público deseja, construindo experiências que unem gastronomia, esporte e música, sempre valorizando o orgulho de ser alagoano”, reforça Carolina.
Hop Bros: da produção de cerveja caseira ao pódio internacional
Se a Deodora abriu caminho, a Hop Bros ajudou a colocar as cervejarias alagoanas em evidência no cenário nacional e internacional. Fundada por três amigos em 2014, a marca se consolidou como a mais premiada do Norte, Nordeste e Centro-Oeste, acumulando mais de 70 medalhas em concursos de prestígio, incluindo prêmios em Londres e na Bélgica.
“No início, havia pouca familiaridade com a cerveja artesanal no mercado local, e muitos bares e restaurantes não acreditavam que o produto seria aceito, principalmente por acharem mais caro. Essa barreira foi superada quando perceberam a qualidade superior em relação às cervejas comerciais”, explica Rodrigo Inojosa, sócio da Hop.

Instalada no bairro histórico do Jaraguá, a Hop expandiu sua atuação com o Casarão da Hop, espaço para eventos, e o Quintal da Hop, voltado para festas e baladas. Na produção, aposta tanto em linhas tradicionais, como Lager, APA e IPA, quanto em criações extremas, como cervejas envelhecidas em barris de vinho, cachaça ou uísque, que chegam a 14% de teor alcoólico.
“Queremos que o público saiba que na Hop encontrará desde cervejas de linha para o consumo diário até produtos únicos, que proporcionam experiências inéditas. É um orgulho levar o nome de Alagoas para além das fronteiras”, ressalta Rodrigo.
Inovação e fortalecimento do setor cervejeiro
Apesar da concorrência com grandes marcas nacionais, as cervejarias alagoanas têm conquistado espaço pela diferenciação. O Sebrae Alagoas atua como parceiro estratégico do setor, apoiando festivais, oferecendo consultorias para adequação às normas legais e promovendo capacitações voltadas à gestão e inovação.

Um marco recente desse movimento foi o início do cultivo de lúpulo em União dos Palmares, conduzido pelo produtor Aluysio Righetti. O insumo, majoritariamente importado, é considerado essencial para dar aroma e amargor à cerveja. Produzi-lo em solo alagoano pode reduzir custos, gerar sabores autênticos e consolidar a identidade local.
“Esse movimento constante de inovação mostra a força do setor em Alagoas. Com o cultivo do lúpulo, caminhamos para consolidar uma cerveja 100% alagoana”, afirma Januacele Vieira, trainee do Sebrae Alagoas.
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