
Ainda pouco associada ao cultivo de insumos para a cadeia da cerveja artesanal, Alagoas começa a ganhar protagonismo no cenário nacional com projetos inéditos de cultivo de lúpulo, um ingrediente essencial para proporcionar amargor, aroma e conservação da bebida. O bairro de Ipioca foi escolhido por um grupo mineiro que planta lúpulo e produz cerveja para abrigar a primeira fazenda de lúpulo à beira-mar do país. Em União dos Palmares, um produtor já está na quinta safra e foi premiado pela qualidade da matéria-prima produzida em solo alagoano.
O lúpulo ainda é cercado por mitos, o principal deles é de que somente em locais de clima frio é possível produzir uma boa safra, mas a planta vem ganhando força em diversos estados do Brasil e Alagoas, apesar do clima predominantemente quente e úmido, tem mostrado que é possível cultivar a espécie.
A mais recente dessas experiências é a da Fazenda Cervejeira, pertencente a um grupo de Minas Gerais, que trouxe para Alagoas a experiência de unir produção agrícola e restaurante em um mesmo ambiente.
Segundo Raíssa Alves, engenheira de alimentos e cofundadora da iniciativa, o grupo planta lúpulo em uma fazenda de café no Sul de Minas e desde 2022 iniciou a fazenda urbana em Belo Horizonte.
“A ideia de trazer para Maceió surgiu quando nosso sócio alagoano, o Rodrigo Inojosa, foi conhecer nossa fazenda em Belo Horizonte e, junto com o José Felipe Cordeiro [sócio da Fazenda Cervejeira de BH], decidiram trazer a experiência para Maceió”, explicou.

Em um terreno de 3 hectares à beira-mar de Ipioca, a Fazenda Cervejeira de Maceió realizou um primeiro plantio de lúpulo que acabou não tendo um resultado satisfatório. A segunda leva foi plantada em fevereiro deste ano e deve ser colhida em agosto.
“Com ela vamos aprender sobre como se adaptou, para podermos pensar nos próximos passos, avaliar a viabilidade de beneficiar o lúpulo aqui e de fornecer para cervejarias como já fazemos em Minas”, explica Raíssa.
A produção mineira fornece 80% do lúpulo utilizado pela cervejaria Stad Jever em sua produção. A expectativa é que o lúpulo alagoano seja utilizado em receitas em parceria com a Hop Bros, que é de um dos sócios da Fazenda Cervejeira, e se consolide no mercado local.
A Fazenda Cervejeira de Maceió também possui um restaurante, que abre aos fins de semana e projeta receber eventos maiores, como casamentos.

“Essa experiência trouxemos de Belo Horizonte, que deu muito certo. Aqui, como ainda não temos produção de cerveja, nosso bar oferece os rótulos da HopBros, cervejaria alagoana de um dos nossos sócios. É um espaço para a família, com espaço para as crianças e até para casamentos, já que construímos uma capela pensando nos casais cervejeiros que sonham em fazer a cerimônia no meio das flores de lúpulo”, contou Raíssa.
Na terra de Zumbi, produtor de lúpulo quer aumentar produção
Na Zona da Mata alagoana, a fazenda Sete Léguas, em União dos Palmares, abriga desde 2022 a produção de lúpulo da Hop is All, comandada por Aluysio Righetti. A plantação, ainda considerada experimental, possui 500 plantas de oito variedades de lúpulo, mas o produtor quer ampliar para duas mil unidades ainda este ano.

A ideia de cultivar lúpulo na região surgiu após Aluysio assistir a uma reportagem que falava do cultivo do lúpulo no país, sobre a alta demanda de importação e os bons preços pagos pelo mercado.
“Na reportagem dizia que 99% do lúpulo brasileiro era importado e que o preço era muito bom, algo de R$ 300 o quilo. Quando vi que era possível produzir lúpulo no país e existia esta demanda, me interessei. No dia seguinte, liguei para a pesquisadora que apareceu na reportagem, ela me sugeriu seis tipos de lúpulo, depois contratei um consultor e cheguei ao total de oito espécies, que continuam sendo cultivadas até hoje”, contou.
Foi dialogando com outros produtores do Sul do país e observando como se comportavam as espécies cultivadas em União dos Palmares que Aluysio entendeu quais teriam mais sucesso e probabilidade de serem comercializadas para cervejarias.

“Desde então, já foram colhidas cinco safras, com destaque para as variedades Comet, Zeus, Magno e Vista, mas eu ainda não consegui vender nenhuma grama, porque as cervejarias não consomem lúpulo em flor, tem que estar peletizado. O maquinário para esse processo é caro, então eu esperei para ver se o projeto ia dar certo e recentemente comprei uma máquina para peletizar o lúpulo, então a partir do segundo semestre vamos vender”, explicou o produtor.
Cultivo requer atenção com pragas
Com uma produção em estágio mais avançado, em União dos Palmares, a Embrapa Tabuleiros Costeiros, com apoio de pesquisadores da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e do Instituto Federal de Alagoas (Ifal), realiza o acompanhamento para combate a pragas na fazenda de Aluysio.

O pesquisador Elio Cesar Guzzo explicou que o lúpulo traz alguns cuidados necessários com relação a pragas, para evitar o comprometimento da produção. “As pragas detectadas são generalistas, que já atacavam outras culturas na região e que, com a chegada do lúpulo, encontraram um novo nicho a ser explorado e passaram a infestá-lo. Pelo potencial destrutivo das pragas, o lúpulo precisa ser acompanhado e manejado com muita atenção e seguindo critérios técnicos”, alertou.
Entre os cuidados destacados está o uso preferencial de controle biológico, em vez de pesticidas químicos, devido à sensibilidade da cadeia produtiva e aos riscos à saúde. “Já conseguimos identificar vários inimigos naturais na plantação, o que comprova o potencial de utilização do controle biológico na área em questão”, afirma Elio.
Para o pesquisador, o sucesso da cultura exige não apenas inovação agrícola, mas também valorização do produtor. “Tudo isso requer investimentos e, justamente por isso, o produtor precisa ser reconhecido e devidamente remunerado”, concluiu.

Lúpulo alagoano ganha premiações
Todo o cuidado e a dedicação com a produção de lúpulo renderam a Aluysio reconhecimento nacional. Em 2023 e 2024, a Hop is All foi premiada na Copa Brasileira do Lúpulos, disputando com produtores de todo o país. Em 2023, o lúpulo de Alagoas ganhou duas medalhas de prata nas categorias Chinook e Triple Pearl. No ano passado, foi premiado com medalha de prata na categoria Triple Pearl.
O lúpulo de União dos Palmares também já foi utilizado por seis cervejarias, incluindo duas alagoanas. A Caatinga Rocks produziu o rótulo Alagoas Local Larger em comemoração aos 205 anos de Alagoas. O lúpulo cultivado por Aluysio também foi utilizado pela HopBros, de Alagoas, e pela Vier Brauer, cervejaria que fica em Cabedelo, na Paraíba.
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