
Reportagem de Antonio Carlos Garcia, de Sergipe; Vanessa Siqueira, de Alagoas; e Edward Pena, do Recife
O microcrédito tem transformado a vida de milhares de mulheres, dando autonomia financeira e perspectiva profissional. Este é o caso da jovem cearense Patricia Loureiro. Quando o mundo parou na pandemia, a vida de Patrícia desacelerou de forma abrupta. Afastada do trabalho formal por problemas de saúde e com a renda da família comprometida, ela se viu diante de um cenário de incerteza que exigia reação imediata. Foi nesse intervalo entre o medo e a urgência que um gesto cotidiano — trançar o próprio cabelo — deixou de ser apenas cuidado pessoal e passou a garantir o sustento da casa.
Em Maracanaú, na Região Metropolitana de Fortaleza, Patrícia começou a atender mulheres da própria comunidade. Em um período em que salões estavam fechados e o atendimento informal ganhou espaço, o trabalho se espalhou por indicação. Cada nova cliente trazia outra, formando uma rede que crescia junto com a confiança. Ali surgia, ainda de forma improvisada, o embrião de um negócio.
Ccom a clientela consolidada, Patricia sentiu a necessidade de ampliar o alcance do serviço e criou então o projeto “Tranças nas Praças”, levando o atendimento a espaços públicos da cidade. A iniciativa garantiu renda em um dos períodos mais difíceis da sua trajetória e ampliou a visibilidade do trabalho, que passou a circular por escolas, feiras culturais e eventos públicos e privados. O crescimento abriu novas frentes.
A possibilidade de transformar aquela atividade emergencial em trabalho contínuo veio com o acesso ao microcrédito. Por meio do Crediamigo, do Banco do Nordeste, Patrícia conseguiu investir em materiais, fazer curso, organizar o atendimento e planejar o crescimento. O crédito orientado deu fôlego para sair da improvisação e construir uma base mínima de autonomia financeira.
Conhecida hoje como AfroPatty, Patrícia passou a ministrar cursos e palestras, compartilhando conhecimento e fortalecendo outras mulheres. Hoje, integra a coordenação da Feira da Beleza, Moda e Gastronomia de Maracanaú e é reconhecida como uma das principais referências do empreendedorismo feminino afro no município.
Com novo apoio do Crediamigo, do Banco do Nordeste, ela iniciou a reforma da garagem de casa para estruturar um salão afro. O espaço terá dupla função: atendimento ao público e centro de capacitação gratuita para mulheres de comunidades periféricas. “O microcrédito me deu condições reais de transformar uma necessidade em um projeto de vida”, afirma, ela, que vive exclusivamente da atividade que nasceu em um momento de crise, ganhou forma com o crédito orientado e se consolidou com trabalho e identidade. Essa trajetória que mostra como o microcrédito, quando chega na hora certa, não apenas sustenta — ele transforma.
Da trança ao doce
Assim como Patricia, a confeiteira Masigleide Bittencourt encontrou no microcrédito o impulso necessário para estruturar a Nina Bittencourt Confeitaria. Após deixar o emprego formal por problemas de saúde, ela recorreu ao Banco da Mulher Empreendedora, programa da Prefeitura de Maceió, para adquirir equipamentos e insumos que profissionalizaram a produção.
O negócio funciona a partir de casa, com vendas feitas pelas redes sociais e presença constante em feiras e eventos promovidos pelo município. Datas comemorativas se tornaram períodos estratégicos de faturamento, envolvendo toda a família na produção. “O microcrédito abriu portas e me deu visibilidade. Hoje, tenho autonomia financeira e perspectiva de crescimento”, afirma.

Antes de ter seu próprio negócio, ela trabalhou com pizzas e chegou a atuar como recepcionista em uma loja de shopping. Mas problemas de saúde, que preferiu não relembrar, a obrigaram a pedir demissão. Foi nesse momento de transição que conheceu o Banco da Mulher, programa da Prefeitura de Maceió voltado ao microcrédito e fortalecimento de negócios liderados por mulheres.
Com os recursos obtidos, Masigleide conseguiu adquirir equipamentos fundamentais para profissionalizar a produção, como insumos e uma panela que facilita o preparo das massas. “Esse recurso tem me ajudado muito”, afirma. Com isso, expandiu o cardápio da confeitaria: atualmente, oferece bolos, doces, pizzas e os populares “kit festas”, um conjunto de produtos voltado para pequenas comemorações, que se tornaram sua marca registrada.
Mais do que vender bolos e doces, Masigleide tem construído um caminho de independência financeira e fortalecimento pessoal. “Eu sempre tento aproveitar as oportunidades que vêm surgindo. O Banco da Mulher abriu muitas portas para mim. Tenho conseguido ganhar visibilidade, e estamos sempre buscando formas de manter o negócio”, afirma.
Desde 2023, o Banco da Mulher Empreendedora já beneficiou 5.332 mulheres em Maceió, com mais de R$ 6,3 milhões investidos, consolidando-se como política pública voltada à autonomia econômica feminina, especialmente para mulheres em situação de vulnerabilidade.
Assim como o banco alagoano, iniciativas públicas e privadas têm permitindo que milhares de mulheres alcancem sua independência financeira ampliado, ao combinar financiamento com orientação, capacitação e redes de apoio. Programas como o Crediamigo e o Agroamigo, do Banco do Nordeste; as linhas da Agência de Empreendedorismo de Pernambuco (AGE); e iniciativas privadas como o Ella Bank mostram que o crédito, quando bem desenhado, vai além do dinheiro e se transforma em política de desenvolvimento.
Microcrédito ajuda mulheres no campo
No meio rural, o impacto também é expressivo. Em Sergipe, o Pronaf Mulher respondeu, em 2025, por 39% das operações do programa no estado, somando R$ 174,1 milhões em recursos. A atuação do Agroamigo, do Banco do Nordeste, tem sido central nesse processo, ao combinar crédito e acompanhamento técnico.
É nesse contexto que se insere a história de Ângela Maria de Jesus. Natural da Aquidabá (SE), ela vive há 13 anos no povoado Colônia Treze, no município de Lagarto, no Centro-Sul sergipano. Ali Angela encontrou na produção agrícola uma forma de sustento e realização pessoal. Há cerca de oito anos, ela investe na produção de alface por meio da hidroponia, tecnologia que permite cultivo sem solo, com uso racional da água e sem aplicação de agrotóxicos.
Atualmente, mesmo em fase de reforma da estufa, a produtora mantém uma estrutura organizada com oito bancadas de cultivo, das quais quatro entram em produção semanal. Cada bancada rende, em média, 300 pés de alface por semana, resultando em uma produção aproximada de 1.200 pés por mês, comercializados diretamente na comunidade e na feira livre da Colônia Treze, realizada aos domingos.
O crédito do Pronaf Mulher foi fundamental para a continuidade da atividade. Ângela explica que os recursos foram utilizados na reforma e ampliação da estufa, que já tinha mais de dez anos de uso e foi construída de forma artesanal pela própria família. Inserida na categoria CAF B (Cadastro de Agricultor Familiar), ela contratou recentemente R$ 12 mil, enquanto o marido, Silvanor Feitosa, acessou outros R$ 10 mil, ambos direcionados à melhoria da infraestrutura produtiva. “Esse apoio do Agroamigo faz toda a diferença. É um aperto de mão que nos ajuda a trabalhar com mais facilidade e dignidade”, afirma.
Crédito com educação financeira e mentoria

No ambiente urbano, novas iniciativas privadas apostam em modelos que unem microcrédito e formação. Lançado no final de 2025, o Ella Bank, sediado em Recife, prepara para 2026 uma linha de microcrédito voltada exclusivamente para mulheres empreendedoras, acompanhada de trilhas obrigatórias de educação financeira e mentoria. Embora o foco esteja em mulheres, o banco também é acessado por homens, o que reforça seu potencial de escalar.
Com foco em gestão financeira, uso estratégico do capital e redução de riscos de inadimplência, a edtech integrada ao banco garante que o dinheiro do crédito seja bem utilizado.
Segundo a fundadora do Ella Bank, Rosana Bezerra, cerca de 30% das pessoas que abriram conta na instituição buscaram financiamento no primeiro contato. “Isso mostra o tamanho da demanda reprimida por crédito com orientação. Muitos buscam empréstimos para pagar dívidas, mas nosso papel é mostrar que o ideal é utilizar o microcrédito como capital de giro, para manter o negócio vivo e sustentável”, afirma.
Neste entrevista com Rosana Bezerra, fundadora do Ella Bank, conversa com Patricia Raposo e Paulo Goethe sobre educação financeira, microcrédito, empreendedorismo feminino e inclusão bancária no Brasil.
A proposta do banco vem se destacando em um ambiente ainda desigual: segundo dados do Sebrae, mulheres empreendedoras no Brasil ainda enfrentam mais dificuldade em acessar crédito, geralmente por não cumprirem exigências bancárias padrão ou por operarem negócios informais. “Queremos mudar essa lógica. O Ella nasceu para ser um banco de impacto, com soluções desenhadas com base na realidade das mulheres”, resume Rosana.
Microcrédito como política de desenvolvimento
Em Pernambuco, o microcrédito vai muito além de um empréstimo: é uma porta de entrada para a transformação social e econômica de milhares de mulheres. À frente da Agência de Empreendedorismo (AGE), Carla Novaes resume a missão da instituição como “ferramenta de desenvolvimento”.
Por meio de programas como Bora Empreender, Bora Empreender Mulher, AGE Empresas MEI e AGE Microcrédito, a agência oferece crédito com taxas reduzidas e condições acessíveis. A proposta é simples, mas poderosa: apoiar desde quem ainda vende bolos ou artesanato na informalidade até quem já possui CNPJ e busca expandir sua atuação.
A linha AGE Microcrédito, por exemplo, atende empreendedores informais com até R$ 3 mil, a uma taxa de 0,89% ao mês. Já a AGE Empresas MEI oferece até R$ 21 mil para negócios formalizados, com prazo de até 36 meses e taxa de apenas 0,75%.
“Quando um pernambucano tem acesso ao crédito, ele começa a entender que pode vencer investindo em suas ideias. A autoestima cresce junto com a capacidade de empreender”, explica Carla. A AGE, segundo ela, atua como elo entre o sonho e a realização com crédito, orientação e acompanhamento técnico.
O impacto vai além do caixa da empresa. Segundo dados da AGE, cada real investido em microcrédito gera um retorno de quatro reais para a economia local, criando um ciclo virtuoso que movimenta bairros, comunidades e pequenos comércios. “O vizinho compra, indica, volta a consumir. A economia criativa gira e todos ganham”, destaca a diretora-presidente.
Para as mulheres, o suporte tem significado ainda mais profundo. No programa Bora Empreender Mulher, as condições são adaptadas à realidade das empreendedoras. Informais podem acessar até R$ 4 mil, com dois meses de carência e taxa de apenas 0,75% ao mês. Formalizadas com CNPJ chegam a R$ 21 mil, com até 36 meses para pagar e taxa de 0,65%. Mas o dinheiro vem acompanhado de qualificação obrigatória e mentoria.
“Muitas dessas mulheres estão em situação de vulnerabilidade. O acesso ao crédito e à formação profissional mostra que elas podem transformar suas vidas”, afirma Carla. E transforma mesmo. Casos como o de Dona Vera, que começou vendendo bolo de rolo em casa e hoje comanda um negócio consolidado que gera empregos, são exemplos da força desses programas.
Esse salto da informalidade para a formalização é cuidadosamente acompanhado pela AGE. A instituição trabalha em parceria com a Secretaria de Desenvolvimento Profissional e Empreendedorismo de Pernambuco (Sedepe), o Sebrae e a Agência de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco. A proposta é garantir que as empreendedoras não apenas acessem o crédito, mas saibam como utilizá-lo da melhor forma.
“Ver uma mulher que fazia batata frita numa frigideira pequena se tornar empresária com CNPJ, metas e controle financeiro é algo que nos emociona. A gente vê o brilho no olhar delas, a confiança que nasce”, relata Carla.
A etapa seguinte é ampliar o acesso à formalização e permitir que mais mulheres saiam do ciclo da dependência econômica. Com a qualificação e o crédito certo, muitas passam a contratar outras mulheres, multiplicando o impacto social. “É assim que a gente rompe ciclos de vulnerabilidade: com oportunidade, educação e crédito responsável.”
Com taxas acessíveis, carência para pagamento e orientação personalizada, a AGE tem se consolidado como uma referência em política pública de microcrédito no Nordeste. Em vez de empurrar o endividamento, promove autonomia e protagonismo, especialmente para quem sempre esteve à margem das grandes instituições financeiras. “O microcrédito é só o começo. O que a gente entrega é a chance de mudar de vida”, conclui Carla Novaes.
Violência contra a mulher
O microcrédito torna-se ainda mais relevante no contexto de violência contra a mulher. Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher (DataSenado, 2025) traz um recorte direto sobre vulnerabilidade: “8,5 milhões” e “mais de 1/3 das vítimas” afirmam não conseguir se sustentar, no grupo que sofreu violência doméstica/familiar nos últimos 12 meses anteriores à pesquisa.
A dependência econômica do parceiro aparece como um dos fatores que dificultam a saída de relações violentas, junto com medo de morrer e medo de perder a guarda dos filhos. A isso soma-se a desigualdade histórica no mercado de trabalho, onde as mulheres ainda recebem, em média, cerca de 20% menos que os homens, segundo o IBGE. Esse cenário expõe como a ausência de renda está diretamente associada à insegurança social, econômica e pessoal de parte da população feminina.
Por outro lado, os números também revelam um movimento crescente de mulheres em busca de autonomia por meio do empreendedorismo. O Brasil encerrou 2024 com mais de 10 milhões de mulheres donas de negócio, de acordo com levantamento do Sebrae com base na PNAD Contínua, o maior patamar já registrado. Elas já representam 46,8% dos empreendedores iniciais e mais da metade é chefe de domicílio, o que reforça o papel do microcrédito como alternativa de geração de renda e independência financeira. Apesar de ainda enfrentarem desigualdade de ganhos em relação aos homens, o avanço do empreendedorismo feminino indica uma transformação gradual, em que mais mulheres buscam no próprio negócio um caminho para romper ciclos de dependência e ampliar sua autonomia econômica.
*Com reportagem de Antônio Carlos Garcia, Bruno Brandão, Edward Pena, Vanessa Siqueira e edição de Patricia Raposo
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