
A governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD), defendeu o adiamento da votação das próximas etapas da regulamentação da reforma tributária no Congresso Nacional. Durante evento do Porto Digital realizado na segunda-feira (15), no Recife, a gestora afirmou que o tema exige aprofundamento técnico e não deve avançar em meio ao ambiente eleitoral de 2026.
Ao abordar os desafios econômicos dos próximos anos, Raquel destacou que a nova configuração tributária poderá alterar a dinâmica de competitividade entre os estados, especialmente aqueles que historicamente utilizaram incentivos fiscais para atrair investimentos.
“Estamos diante da reforma tributária que se avizinha sem saber exatamente como é que ela vai nos afetar. Esse é um tema para agora”, afirmou a governadora.
Preocupação com os efeitos da reforma tributária
A principal preocupação do governo pernambucano está relacionada ao impacto das mudanças sobre setores considerados estratégicos para a economia estadual, como o polo automotivo, a cadeia de saúde, a indústria farmacêutica e, especialmente, os segmentos de serviços e tecnologia.
A avaliação do governo é que a nova estrutura tributária pode alterar a competitividade de atividades intensivas em mão de obra, inovação e conhecimento, justamente áreas que vêm sustentando o crescimento econômico de Pernambuco nos últimos anos.
Durante o evento no Porto Digital, Raquel Lyra destacou que o debate é particularmente sensível para o ecossistema de tecnologia instalado no centro do Recife, responsável pela geração de milhares de empregos e pela atração de investimentos.
“A gente tem muita clareza de como o setor de serviços será afetado pela reforma tributária e, por isso, aqui no coração do Recife, onde tem o Porto Digital e onde há milhares de empresas e empregos sendo gerados, existe uma preocupação do setor de serviços e do polo de tecnologia sobre como vai ficar após essa reforma”, afirmou.
Segundo a governadora, é necessário construir soluções capazes de preservar a competitividade da economia pernambucana. “Mais do que saber como vai sair depois, é construir junto o que vem para agora”, disse.
Raquel ressaltou ainda que a discussão não pode ser limitada a interesses isolados e deve considerar o impacto das mudanças sobre toda a economia regional.
“Diversos segmentos têm a mesma angústia. Ninguém vai escapar sozinho. Não adianta achar que vou conseguir um percentual específico para salvar o meu setor. O meu não é só seu, é o nosso”, declarou.
Debate fora do calendário eleitoral
Durante o discurso, Raquel Lyra afirmou que o ambiente político de 2026 não é o mais adequado para discutir um tema de tamanha complexidade.
“Tomara que ela não venha este ano para não ser mal pensada e estruturada. Não é o momento da gente discutir isso no meio de uma eleição presidencial”, disse.
A declaração ocorre em um momento de articulação entre governadores e representantes do setor produtivo, que buscam ampliar a participação dos estados na definição das regras de transição e dos mecanismos de compensação previstos pela reforma.
A avaliação é que decisões tomadas sem o devido aprofundamento podem comprometer a capacidade de atração de investimentos de estados fora do eixo Sul-Sudeste.
A governadora afirmou que vem tratando do assunto de forma permanente com a bancada federal pernambucana e defendeu uma atuação coordenada dos estados nordestinos durante a tramitação da regulamentação no Congresso Nacional.
“O nosso apelo sempre é para que o Congresso Nacional não vote a reforma este ano em razão das eleições, para que a gente tenha tempo suficiente para aprofundar esses temas do setor de serviços de maneira geral e dos estados do Nordeste brasileiro”, afirmou.
Crescimento econômico e visão de longo prazo
Ao defender mais tempo para o debate, Raquel Lyra destacou que Pernambuco vive um momento de expansão econômica, impulsionado por investimentos em infraestrutura, logística, energias renováveis e inovação.
Segundo a governadora, o Estado registrou crescimento de 8% no primeiro quadrimestre do ano e tem ampliado a geração de empregos formais.
“O que a gente precisa apresentar para o mundo é como um estado bom para investir, que forma capital humano de altíssimo valor e que é capaz de atrair novos negócios”, afirmou.
O que está em jogo para Pernambuco
A reforma tributária foi aprovada pelo Congresso Nacional em 2023, por meio da Emenda Constitucional nº 132, e prevê a substituição gradual de tributos como ICMS, ISS, PIS e Cofins pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS).
O novo modelo também cria o Imposto Seletivo e estabelece um longo período de transição, com implementação gradual entre 2027 e 2033.
Embora especialistas apontem ganhos de eficiência e simplificação, estados que dependem de incentivos fiscais acompanham o processo com cautela, diante da possibilidade de perda de competitividade em setores estratégicos.
No caso de Pernambuco, a preocupação é preservar a atratividade de polos industriais e tecnológicos e garantir que a nova estrutura tributária não comprometa a capacidade de atração de investimentos em áreas intensivas em inovação. A discussão ganha relevância diante da reorganização das cadeias globais de produção e da disputa entre estados e regiões por novos empreendimentos ligados à economia verde, à transformação digital e à indústria de maior valor agregado.
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