
As regras para os leilões de Reserva de Capacidade (LRCAP) de Armazenamento que vão contratar grandes sistemas de baterias, tipo BESS, definiram apenas como “geradores” quem vai pagar a conta pela implantação desse tipo de equipamento. Em geral, quase toda despesa do setor elétrico é rateada por todos os consumidores que pagam suas contas de luz, com exceção da baixa renda que é subsidiada. Geradores são todos aqueles que produzem energia, incluindo as fontes hidráulica, térmica, e renováveis, como a eólica e solar. “Essa é uma inovação desse leilão. É um dos primeiros que você não sabe quem vai pagar a conta, mas como o certame é em dezembro, há tempo para fazer essa regulamentação”, explica o diretor da consultoria Thymos Energia, Fillipe Soares, que considera o leilão “um avanço importante para a modernização do sistema elétrico brasileiro”.
A regulamentação, dizendo quem vai bancar a despesa, pode ser feita pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) ou pelo governo federal. Geralmente, no setor elétrico os empresários apresentam os projetos nos leilões e os vencedores do certame implantam os empreendimentos tendo em vista a remuneração pelo preço da energia vendida nos certames. E a conta dos sistemas de armazenamento não será barata.
As baterias que quiserem participar, do primeiro leilão de armazenamento do Brasil, precisarão operar como formadores de rede, um padrão técnico concebido para funcionar melhor exatamente onde a rede elétrica está mais sujeita às variações que deixam o sistema mais vulnerável, como ocorre no Nordeste, quando há excesso de geração de energia, por exemplo, ao meio dia. Elas vão usar o sistema Grid Forming, mais robusto às flutuações de geração de energia e às oscilações que isso causam no sistema.
As regras exigem que as baterias operem como formadoras de rede, capazes de controlar tensão e frequência de forma autônoma, sem depender do restante do sistema elétrico para funcionar. Esse padrão, conhecido internacionalmente como Grid Forming, representa um nível de sofisticação técnica mais elevada. Na prática, significa que uma bateria conectada ao sistema precisa agir como uma fonte de energia estável, não apenas como um equipamento que segue o que a rede determina. “Não vai poder ser qualquer bateria, tem que estar dentro das especificações do ONS, que opera o Sistema Interligado Nacional (SIN)”, comenta Fillipe. O SIN leva energia a 99% dos brasileiros.
Ainda de acordo com as regras, as baterias precisarão cumprir especificações como resposta muito rápida, respondendo a uma variação de tensão em 1/60 segundo, e também ter a capacidade de suportar picos de corrente de até 130% de capacidade nominal por 5 segundos durante perturbações no sistema.
A contratação das baterias é muito importante, porque pode reduzir os cortes de geração realizados pelo ONS que atinge principalmente as geradoras renováveis do Nordeste, como a eólica e solar. No ano passado, estas empresas tiveram uma perda de receita estimado em R$ 6 bilhões, porque produziram menos do que o previsto devido à falta de infraestrutura nas linhas de transmissão e também por não ter como armazenar o excesso da energia gerada, por exemplo, no final da manhã, horário que ocorrem mais cortes de geração. Atualmente, a energia gerada por fonte solar fotovoltaica é a segunda maior do País. Segundo Fillipe, o efeito das baterias nos cortes de geração depende da quantidade de projetos implantados.
No leilão das baterias, o Nordeste e MG terão notas diferenciadas
Nos futuros leilões, há um diferencial para o Nordeste e Minas Gerais formado pelos 129 pontos de conexão citados pelos organizadores que terão uma pontuação a mais, caso o projeto de baterias fique exatamente em um destes locais, espalhados por vários estados da região, como a costa do Ceará e Piauí, sudoeste da Bahia, Agreste de Pernambuco e Centro-Norte de Minas Gerais, sertão do Piauí, entre outros.
Os pontos de conexão elegíveis são exatamente os locais onde há maior incidência de cortes de geração, de acordo com informações divulgadas pelo governo federal. “A modelagem do leilão cria um sinal locacional para direcionar onde as baterias serão instaladas”, diz Fillipe nas suas redes sociais. A argumentação é de que faz mais sentido econômico instalar os sistemas de armazenamento justamente onde há excesso de geração porque desse modo, a energia – que hoje é desperdiçada – poderá ser armazenada e utilizada algumas horas depois, como no começo da noite, horário de maior consumo de energia no Brasil.
As baterias a serem contratadas também terão que ser novas e conectadas ao SIN. De acordo com Fillipe, o Brasil não tem a prática de importar equipamentos e maquinários usados. Os contratos dos vencedores do leilão deverão ser de 15 anos, começando a partir de agosto de 2028, tempo que foi considerado positivo pelo mercado.
Os sistemas de baterias terão que apresentar o mínimo de 30 megawatts (MW) por projeto. “A exigência de escala já sinaliza que o certame foi desenhado para atrair projetos com relevância sistêmica e não aplicações pontuais”,comenta Fillipe. E, por último, o executivo lembra de um ditado popular que diz: “a diferença entre o remédio e o veneno é a dose”, lembrando que o equilíbrio nessas contratações são fundamentais para deixar o setor mais robusto e confiável.
Antes de entrar em operação, cada projeto precisará passar por testes laboratoriais que simulam condições reais da rede e por uma prova de partida isolada em campo, demonstrando que a bateria consegue ligar e operar sem depender de nenhuma outra fonte de energia.
Segundo estimativa da Deloitte publicada pelo Megawhat, o Brasil pode atrair mais de R$ 57 bilhões em investimentos em armazenamento de energia nos próximos dez anos, desde que avance na estruturação do marco regulatório e dos sinais de preço que resultem em projetos competitivos.
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