
Os cortes de geração de energia chegaram às pequenas usinas de fontes renováveis administradas por empresas, reforçando a necessidade de políticas para ampliar o armazenamento de energia e estimular o consumo nos horários de maior produção, como o final da manhã. Para o CEO da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSolar), Rodrigo Sauaia, o acionamento do plano emergencial de gestão de excedentes do Operador Nacional do Sistema (ONS) mostra que o Sistema Interligado Nacional (SIN) chegou a um ponto de inflexão por falta de planejamento para acompanhar o crescimento das fontes renováveis. No domingo (7), 12 distribuidoras cortaram 1 mil MW de geração entre 10h e 14h, seguindo o planejamento do ONS. A medida foi adotada devido à combinação de elevada geração de energia e baixo consumo durante o feriado prolongado de Corpus Christi. o excesso de oferta em relação à demanda pode comprometer a estabilidade do sistema e aumentar o risco de apagões.
“O sistema elétrico nacional cresceu em geração renovável solar, eólica, hídrica a fio d’água, biomassa e biogás, porém sem o correspondente investimento em mecanismos de flexibilidade, armazenamento de energia elétrica e controle de carga. O desequilíbrio não é resultado da expansão de apenas uma fonte, tecnologia ou modalidade de geração, mas da falta de política pública estrutural adequada para acompanhar essa natural expansão”, afirma Rodrigo.
Para a ABSolar, o plano emergencial acionado pelo ONS foi necessário, mas revela um problema estrutural do setor elétrico brasileiro: a expansão acelerada da geração de fontes renováveis não foi acompanhada pelos investimentos necessários em armazenamento de energia, flexibilidade operacional e modernização da infraestrutura elétrica.
Como sugestão para evitar novos cortes, a ABSolar defende a realização anual de leilões de baterias, a redução imediata da carga tributária sobre sistemas de armazenamento e a criação de mecanismos regulatórios para administrar os excedentes de energia sem prejudicar investimentos já realizados pelos agentes do setor. Alguns consultores do setor também já sugeriram aumentar o estímulo ao consumo nas manhãs de domingo.
Os cortes fazem as empresas perderem receita por não comercializarem a energia. Foi a primeira vez que os cortes de geração atingiram usinas da minigeração distribuída, formada por empresas menores. Até então, os cortes de geração, também conhecido como curtailment, cortavam a produção de energia das usinas centralizadas – que são maiores – , o que vem ocorrendo desde 2023, determinado pelo ONS. A maioria das usinas que tiveram cortes de geração são eólicas e solares e quase a totalidade está instalada no Nordeste.
No Brasil, a fonte solar fotovoltaica é a segunda maior fonte de geração com uma potência instalada de 70.338 MW, perdendo apenas para a hídrica que tem 110.293 MW de potência instalada. No mês passado, a geração distribuída correspondeu a 68% de toda a geração solar fotovoltaica com uma potência instalada de 48.010 MW, enquanto a geração centralizada representou 32% (deste tipo de geração) com uma potência instalada de 22.327 MW.
As empresas que tiveram os cortes determinados pelo ONS
Os 1 mil MW foram cortadas de usinas tipo III de geração distribuída como Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs), usinas de biomassa, eólicas e solares, todas administradas por empresas, e que têm no máximo uma potência instalada de 5 MW, dependendo do tipo de fonte. No Brasil, o sistema não foi preparado para cortar a energia produzida pelas usinas de microgeração, como por exemplo, as instaladas por consumidores nos seus telhados, embora isso tenha contribuído para o aumento da oferta da energia durante o final da manhã.
O corte foi feito por 11 distribuidoras que concentram 80% da potência instalada no País: a CPFL Paulista, Cemig, Energisa Mato Grosso, Copel, Elektro, Equatorial Goiás, Energisa Mato Grosso do Sul, Coelba, RGE, EDP Espírito Santo e Neoenergia Pernambuco. Em nota, a Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee) informou que as distribuidoras executaram os cortes nas usinas conectadas às redes de distribuição (Tipo III), de acordo com os montantes estabelecidos pelo ONS. A entidade anunciou também que, posteriormente, divulgaria o impacto da medida.
Ainda de acordo com o ONS, o plano foi indicado para poder equilibrar a alta geração de micro e mini geração distribuída, combinada a uma carga menor por conta do final de semana prolongado por causa do feriado. E, de agora em diante, o cortes do plano emergencial vão incluir as pequenas usinas, quando for necessário, e as grandes vão continuar com os curtailment.
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