
O Piauí será sede de um dos primeiros projetos no Brasil com a tecnologia SOEC (Solid Oxide Electrolysis Cell), considerada de última geração para a produção de hidrogênio verde de baixo carbono. A empresa japonesa Niterra, antiga NGK Spark Plug, escolheu a Zona de Processamento de Exportação (ZPE) Piauí, em Parnaíba, para instalar um projeto de demonstração do sistema, com investimento previsto de R$ 70 milhões e operações a partir do segundo trimestre de 2027, segundo informações do Piauí Negócios.
A tecnologia SOEC difere dos modelos convencionais de eletrólise alcalina e PEM (membrana de troca de prótons) por operar em altas temperaturas, o que reduz o consumo de eletricidade no processo de separação do hidrogênio da água. A Niterra afirma que o sistema pode alcançar eficiência até 30% superior às tecnologias tradicionais, dado relevante num setor em que 70% dos custos de produção estão atrelados ao consumo energético.
O sistema é reversível: quando há excesso de energia renovável, opera no modo SOEC e gera hidrogênio verde; quando há escassez, opera no modo SOFC (Solid Oxide Fuel Cell) e gera eletricidade, funcionando como sistema de armazenamento energético. A vantagem técnica da Niterra nesse campo não é acidental, pois a empresa tem décadas de experiência em componentes cerâmicos industriais, e a SOEC utiliza cerâmica de óxido de zircônio como eletrólito sólido, material no qual a companhia possui expertise consolidada.
O projeto de demonstração terá capacidade total de 100 kW, com unidade inicial de 12 kW e expansão subsequente de 96 kW. Em comunicado publicado no Instagram @niterradobrasil em 8 de maio, a empresa confirmou a seleção pelo METI e descreveu o projeto como parte de sua Visão 2040 para a descarbonização global.
Tecnologia em transição para o mercado
O projeto de Parnaíba se insere numa janela crítica de maturidade da tecnologia SOEC. As únicas unidades em operação no mundo estão em escala de demonstração industrial: a Bloom Energy opera desde maio de 2023 a maior instalação SOEC do mundo no Centro de Pesquisa Ames da NASA, em Moffett Field (Califórnia), com produção de hidrogênio 20% a 25% mais eficiente por MW que os modelos convencionais.
A empresa Sunfire instalou em julho de 2022 o primeiro eletrolisador SOEC multi-megawatt do mundo na refinaria de renováveis da Neste, em Rotterdam, como parte do projeto MultiPLHY. A Mitsubishi Heavy Industries projeta a comercialização em escala da SOEC para o final dos anos 2020, coincidindo com o início da demanda por hidrogênio verde em escala industrial por volta de 2030. O projeto da Niterra em Parnaíba, com operações previstas para 2027, posiciona o Piauí nessa janela de transição entre demonstração e comercialização.

ZPE como âncora estratégica
A escolha de Parnaíba não se explica apenas pelo potencial de geração eólica e solar. A localização dentro da ZPE Piauí oferece incentivos fiscais específicos e infraestrutura voltada à exportação industrial, fatores declarados pela própria Niterra como essenciais para a viabilidade de projetos de hidrogênio e derivados verdes. O mercado-alvo da produção já está definido: a Green Energy Park (GEP), parceira da Niterra no projeto, tem contrato de distribuição via Porto de Krk, na Croácia, e contratos fechados com compradores europeus. O hidrogênio produzido em Parnaíba tem destino estabelecido, não é produção especulativa.
O projeto envolve a parceria entre a Niterra e a GEP, multinacional holandesa que planeja instalar em Parnaíba uma das maiores usinas de hidrogênio verde do mundo, com capacidade inicial de 1,8 GW e produção de até 2,4 milhões de toneladas de hidrogênio renovável por ano. A articulação local conta com apoio do governo estadual por meio da Investe Piauí.
“A Niterra é uma parceira de tecnologia da Green Energy Park. A empresa precisava de um local para fazer testagem no Brasil e o local escolhido foi Parnaíba, na ZPE”, afirmou o diretor de Projetos da GEP Piauí, Dener Miranda. O projeto foi selecionado dentro de um programa estratégico do Ministério da Economia, Comércio e Indústria do Japão (METI), voltado à cooperação tecnológica com países do Sul Global, com financiamento parcial do governo japonês.
Foco em capacitação técnica local
O projeto terá foco direto na formação de profissionais piauienses para operação dos eletrolisadores SOEC. “Serão geradas vagas voltadas à pesquisa científica e engenharia, mas o principal objetivo será o treinamento de operação de eletrolisadores SOEC. Todos os profissionais serão do Piauí”, afirmou Miranda.
A quantidade de vagas e os perfis ainda estão em definição. A expectativa é criar uma base técnica local capaz de operar equipamentos da própria Niterra em futuros projetos de hidrogênio no Brasil e adaptar a tecnologia às necessidades do mercado brasileiro. A tecnologia SOEC é especialmente adequada para setores de difícil descarbonização, como produção de fertilizantes, amônia verde e siderurgia.
UFPI entra na cadeia do H2V
Em 5 de maio, seis dias antes do anúncio da Niterra, a reitoria da Universidade Federal do Piauí (UFPI) recebeu o próprio Dener Miranda para discutir cooperação institucional entre a GEP e a universidade. O encontro reuniu professores de Química, Engenharia de Materiais, Engenharia de Produção e Ciência da Computação. Como encaminhamento, ficou definido o planejamento para submeter ao menos dois editais da Finep em parceria com o grupo.
A reitora Nadir Nogueira situou o movimento dentro de uma narrativa mais ampla de protagonismo piauiense em recursos naturais com valor agregado. “O estado vem assumindo o protagonismo nessa área, seja com a cera da carnaúba ou com o hidrogênio verde. Esse diálogo mostrou como a empresa atua e de que maneira a Universidade pode se inserir dentro desse escopo, gerando conhecimento, tecnologia e desenvolvimento para o Estado”, afirmou.
O pró-reitor de Pesquisa e Inovação, Rodrigo Veras, reforçou o alinhamento com a estratégia de atração de recursos empresariais para pesquisa. “Conseguimos investir mais em novas pesquisas, ampliar as que já estão em andamento, criar startups e ter produtos que saem da Universidade para o dia a dia da população”, disse.
Ecossistema piauiense de H2V
O projeto da Niterra se insere num ecossistema de hidrogênio verde em construção no Piauí. A GEP e a Solatio preveem investimentos combinados de R$ 200 bilhões na ZPE Parnaíba, com a primeira fase gerando 2,3 mil empregos diretos até 2031. A UFPI coordena o projeto H2V-PI, financiado com R$ 14,5 milhões pelo MCTI/Finep, com participação da UESPI e da Fapepi, voltado ao desenvolvimento local de insumos para eletrolisadores, sendo um dos apenas três projetos aprovados no Nordeste num total de 13 no país. A Eletrobras assinou memorando de entendimento para fornecer energia à GEP, e a Comissão Europeia anunciou apoio financeiro ao megaprojeto via iniciativa Global Gateway.
Fundada em 1936, a Niterra é reconhecida mundialmente pela produção de velas automotivas e componentes cerâmicos industriais. Nos últimos anos, a companhia ampliou investimentos nas áreas de energia, meio ambiente e semicondutores, buscando posicionamento no mercado global de descarbonização industrial. A escolha do Piauí como base de demonstração posiciona o estado dentro do movimento de desenvolvimento de soluções energéticas de baixo carbono que a Niterra pretende liderar globalmente ao longo da próxima década.
*Com informações do Piauí Negócios e da UFPI
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