
Pernambuco é o único estado brasileiro com infraestrutura urbana de criptografia quântica em operação real, tecnologia considerada estratégica para a proteção de sistemas de defesa e financeiros contra a próxima geração de ataques computacionais. Pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) operam uma rede de comunicação quântica de 7 quilômetros sob o asfalto do Recife desde 2023, com meta de expansão para 40 quilômetros, segundo o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), que apoia a iniciativa.
O avanço de Pernambuco ocorre num cenário de corrida global por tecnologias quânticas. A China opera a maior rede quântica do mundo, com mais de 4.600 quilômetros, e a União Europeia destina 1 bilhão de euros ao seu programa de tecnologias quânticas no horizonte de dez anos.
O Brasil participa do ciclo como desenvolvedor, não apenas como consumidor, com o Recife posicionado como o único polo urbano nacional com rede quântica em operação real. O MCTI incluiu o tema no ciclo de webinars do Ano Internacional da Ciência e da Tecnologia Quântica, em 2025, com participação do professor Daniel Felinto como um dos especialistas convidados.
No plano nacional, o MCTI financia uma segunda iniciativa em desenvolvimento: a Rede Rio Quântica, que envolve o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), a Universidade Federal Fluminense (UFF), a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a PUC-Rio e o Instituto Militar de Engenharia (IME), com cerca de R$ 7 milhões investidos. A diferença em relação ao projeto pernambucano é o estágio: enquanto o Rio ainda desenvolve e testa seus protocolos em ambiente controlado, o Recife já opera sobre a infraestrutura urbana real da cidade, com resultados validados em publicação científica internacional.
Projeto de expansão da rede quântica
A Fase 2 prevê ampliar a rede para 40 quilômetros, incorporando o Porto Digital, o CESAR e a Universidade de Pernambuco (UPE) ao ecossistema quântico da Região Metropolitana do Recife. Não há prazo definido para a conclusão da etapa. O governo federal considera o domínio da tecnologia QKD proteção cibernética de nível estratégico para defesa nacional e sistemas financeiros, segmentos apontados como alvos prioritários na nova geração de ataques computacionais, incluindo os baseados em computação quântica.
A Rede Quântica Recife (RQR) foi construída sobre cabos de fibra óptica já instalados na malha urbana da cidade pela Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), mas inativos, as chamadas dark fibers. O Ponto de Presença da RNP em Pernambuco (PoP-PE) conectou os seis nós da rede: UFRPE, UFPE, o Instituto de Tecnologias Quânticas (Quanta), a Superintendência de Tecnologia da Informação (STI), o Centro de Ciências Exatas e da Natureza (CCEN) e o Centro de Tecnologia e Geociências (CTG).
“O apoio do PoP-PE foi fundamental para executar o projeto”, afirma o time de pesquisadores do Quanta. A rede opera pelo sistema de Distribuição de Chaves Quânticas (QKD): qualquer tentativa de interceptação rompe instantaneamente a conexão, o sistema detecta o ataque e a mensagem torna-se ilegível. Não existe poder computacional capaz de contornar esse mecanismo, nem os futuros computadores quânticos, cuja capacidade de processamento ameaça tornar obsoletos os sistemas convencionais de criptografia em uso hoje por bancos, governos e forças armadas.

Próximo passo operacional
Antes da expansão para 40 km, o Instituto Quanta tem uma meta intermediária com prazo declarado: conectar à rede, até meados de 2026, uma memória atômica capaz de gerar sete fótons simultâneos para um computador quântico fotônico de 10 qubits. O equipamento será usado para simular a dinâmica de moléculas e executar algoritmos de aprendizado de máquina.
A integração entre a rede quântica e o computador quântico abre o que o próprio coordenador do projeto, professor Daniel Felinto, descreve como “todo um outro horizonte”: o processamento de informação quântica compartilhada em rede, estágio que vai além da distribuição de chaves criptográficas e aproxima o projeto da chamada internet quântica.
Resultados publicados
Os resultados foram publicados no Brazilian Journal of Physics em dezembro de 2025 e confirmaram que a proteção quântica se mantém íntegra mesmo nas condições reais de uma rede urbana, com as interferências e perdas típicas de uma metrópole. O experimento validou dois protocolos internacionais de distribuição quântica de chaves, BB84 e Ekert91, os padrões adotados pelas principais redes quânticas em operação no mundo.
O grupo integra pesquisadores do Departamento de Física e do Departamento de Eletrônica e Sistemas da UFPE, além de membros do Departamento de Física da UFRPE. O projeto foi iniciado em 2022 no âmbito de chamada conjunta Fapesp/MCTI/MCom/CGI.br, com aporte inicial de R$ 2,5 milhões, e evoluiu para o Instituto Quanta, estrutura multidisciplinar que reúne especialistas de física, engenharia eletrônica, engenharia de produção e ciência da computação.
Financiamento e impacto regional
O projeto recebeu recursos do CNPq, da Capes, da Facepe, da Fapesp, do Office of Naval Research dos Estados Unidos e da Finep, que aprovou o Instituto Quanta como Centro Temático com aporte de R$ 15 milhões. Em 2025, a iniciativa venceu o Prêmio Finep de Inovação na categoria Infraestrutura de Pesquisa e Desenvolvimento da Região Nordeste.
Toda a infraestrutura do Instituto Quanta será instalada no ParqueTec da UFPE, no Recife, com geração de empregos e conhecimento fixados na região. A aposta é que o polo quântico recifense se torne referência nacional em tecnologias aplicadas à defesa, indústria e segurança digital, segmentos em expansão acelerada no mercado global.
*Com informações do MCTI
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