
Os cortes de geração geraram uma perda de receita de R$ 4,2 bilhões às empresas de geração renovável entre janeiro e setembro deste ano, segundo informações da renomada consultoria Volts Robotics. As empresas mais afetadas foram as eólicas e usinas solares de Minas Gerais, Ceará, Rio Grande do Norte, Bahia e Pernambuco.“A situação está ficando insustentável”, diz o CEO da Volt Robotics, Donato da Silva Filho.
Somente em setembro último, os cortes de geração atingiram 6.788 megawatts médios, sendo 14% a mais do que em agosto passado. Para o leitor ter ideia, essa montante de energia que deixou de ser gerado (no mês passado) corresponde a mais de 47% da garantia física de produção -para o ano inteiro da Usina de Belo Monte, no Pará, a maior hidrelétrica 100% brasileira, de acordo com informações da Volt Robotics. É também 65% a mais do que foi gerado, em média, pela Itaipu brasileira em setembro.
Os cortes de geração ocorrem, quando as empresas geradoras deixam de produzir energia a pedido do Operador Nacional do Sistema (ONS), que gerencia o sistema elétrico nacional. Ou seja, elas se organizaram para produzir, mas não puderam gerar devido a uma determinação do ONS.
Não é pouca a energia que está deixando de ser produzida no Brasil. Os cortes de geração atingiram 47,8% de toda a energia que poderia ser gerada de janeiro deste ano a 28 de setembro último.
Os Estados que tiveram mais cortes de geração foram: Minas Gerais (28%), Ceará (25%), Rio Grande do Norte (20%), Bahia (19%) e Pernambuco (17%). Os percentuais representam a proporção da geração de energia que deixou de ser injetada, por estado, no sistema, segundo o levantamento da Volt Robotics.
“É um problema que não afeta só os geradores de energia, mas toda uma cadeia que eles sustentam”, explica Donato. E esta cadeia inclui vários players, como os fabricantes de equipamentos, os bancos que financiaram os projetos de geração, os prestadores de serviços às empresas e algumas comunidades que recebem percentuais sobre a geração, como ocorre, por exemplo, com pessoas que alugam uma parte do seu terreno para a geração eólica. “É uma preocupação que vai se alastrando. Esta situação é impraticável”, comenta Donato.

Soluções que amenizariam os cortes de geração
Um dos fatores que fariam diminuir os cortes de geração seria a entrada em operação de novas linhas de transmissão, que deveriam ser adiantadas para entrarem em operação em 2027 e 2028, de acordo com Donato. Ele também cita algumas iniciativas que poderiam contribuir para ajudar os produtores de energia renovável, como a criação de mecanismos de ressarcimento para reduzir os impactos financeiros sobre os geradores afetados pelos cortes. Ele argumenta que o gerador impedido de produzir por ordem do sistema elétrico, não deveria ser penalizado por não ter cumprido a geração que estava programada.
Esse ressarcimento, poderia vir de algumas fontes, como por exemplo, os valores que os próprios geradores devolvem ao governo, quando produzem energia abaixo do volume que foi contratado (comprado) por algum problema como a falta de sol ou de vento, matérias-primas da geração solar ou eólica.
Outra proposta apresentada por Donato envolve as usinas hidrelétricas, que poderiam bancar parte dos recursos para compensar o ressarcimento pela perda de receita dos cortes de geração em troca de extensão no prazo de suas concessões. “Isso não aumentaria a tarifa de energia”, diz Donato, acrescentando que as hidrelétricas ganhariam alguns anos adicionais de operação.
“Tem que se criar o marco regulatório do armazenamento, pois as baterias ajudariam a diminuir os cortes de geração”, explica Donato. E aí ele diz que até as casas – que posssuem pequenos sistemas de geração solar – poderiam ter baterias para armazenar a energia.
Um dos grandes problemas do setor elétrico é que a geração é maior pela manhã e começo da tarde por causa da geração solar feita por pequenos sistemas de geração, como os que ficam nos telhados. Esses pequenos sistemas não sofrem cortes de geração do ONS, que atinge a geração centralizada – feita por usinas de médio e grande porte.
Segundo Donato, a própria tarifa de energia poderia inteligente, sendo mais barata pela manhã e mais cara à tarde e à noite. “Há muitas questões técnicas que podem ser adotadas e resolverem as questões econômicas para os geradores não morrerem. E os mais afetados estão no Nordeste”, conclui.
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