
A escalada do conflito no Oriente Médio gerou uma onda de choque que atinge diretamente o transporte brasileiro. Com o petróleo em alta, o setor aéreo entrou em estado de alerta devido à pressão sobre o combustível de aviação (QAV), enquanto no Rio Grande do Norte, o aumento de 20% no diesel ameaça paralisar parte da frota de ônibus. O cenário de incerteza global já faz com que companhias e operadoras revisem a viabilidade de linhas essenciais.
Segundo a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), o combustível de aviação (QAV) responde por cerca de 30% da estrutura de custos das companhias. “Oscilações no preço do petróleo tendem a pressionar os custos operacionais, reduzindo a oferta de serviços e prejudicando o acesso da população ao transporte aéreo”, destacou a entidade, reforçando que o cenário compromete a conectividade do país.
Apesar de o Brasil produzir 80% do seu QAV internamente, o preço final ainda é fortemente influenciado pelo mercado externo. A Abear ressalta que, embora o país reúna condições para amortecer choques, o diálogo com o Governo Federal é essencial para proteger os investimentos e a democratização do transporte aéreo. Sem medidas de mitigação, a tendência é uma redução drástica na oferta de voos e o encarecimento das passagens.
No plano regional, o impacto no transporte terrestre é alarmante. A Federação das Empresas de Transporte de Passageiros do Nordeste (Fetronor) manifestou preocupação com a sustentabilidade das operadoras no Rio Grande do Norte.
O combustível é o principal insumo do setor e o reajuste acumulado compromete o equilíbrio financeiro das empresas que atendem a população potiguar, especialmente em linhas consideradas essenciais.
Ônibus no RN: risco de corte na frota
O presidente da Fetronor e vice-presidente da Confederação Nacional de Transporte (CNT), Eudo Laranjeiras, informou que pretende buscar o governo do estado para discutir soluções urgentes.
“Estamos diante de um aumento expressivo nos principais insumos do setor. O diesel tem um peso determinante na estrutura de custos, e essa elevação impacta diretamente a sustentabilidade das empresas”, afirmou o dirigente. O receio é que, sem subsídios ou reajustes, as empresas sejam forçadas a reduzir a frota nas ruas.
A complexidade da formação de preços no Brasil é outro fator que agrava a crise. Entidades como Abicom, Brasilcom e Fecombustíveis explicam que o pacote do Governo Federal para zerar o PIS/Cofins e conceder subvenções de R$ 0,32 por litro ainda não surtiu o efeito esperado.
Segundo as entidades, que enviaram nota conjunta, isso ocorre porque o óleo diesel comercializado nos postos (Diesel B) é composto por 85% de diesel puro (A) e 15% de biodiesel, o que impede um repasse automático das desonerações.
O “nó” da Petrobras e das refinarias
Além disso, a recente decisão da Petrobras de elevar o preço do diesel A em R$ 0,38 por litro praticamente anulou os benefícios fiscais anunciados. “Aplicado à proporção do diesel B, o aumento representaria, aproximadamente, R$ 0,32 por litro no produto adquirido nos postos de revenda pelos consumidores”, explicaram as instituições.
Esse movimento de alta da estatal se une à pressão exercida pelas refinarias privadas e importadores. Diferentemente da Petrobras, que possui extração própria, as refinarias privadas e os importadores dependem inteiramente das referências internacionais.
Com o conflito iraniano pressionando o valor do petróleo no mercado externo, esses agentes praticam preços que refletem a volatilidade imediata. Isso gera um cenário de preços não uniformes ao longo da cadeia nacional, variando conforme a origem de aquisição do produto e a logística de cada região.
Volatilidade nos leilões e custos de reposição
As entidades do setor explicam que nos leilões realizados pela Petrobras, o diesel puro tem sido negociado entre R$ 1,80 e R$ 2,00 por litro, valores que superam o preço de referência das próprias refinarias da companhia.
Essa defasagem, esclarecem, somada aos custos de reposição baseados em preços correntes de mercado, cria um ambiente de incerteza para os distribuidores, que precisam lidar com estoques avaliados constantemente sob novas altas.
A magnitude do efeito líquido para o consumidor final depende de uma combinação de variáveis: custo do biodiesel, alíquotas de ICMS estaduais, valor do frete e custos operacionais de cada posto.
De acordo com as representantes do setor, a soma desses fatores, sob a sombra da crise no Oriente Médio, cria um cenário onde a desoneração tributária federal acaba sendo absorvida pelos aumentos sucessivos na base da cadeia.
Perigo de desabastecimento nacional
O risco de desabastecimento também entrou no radar das autoridades e do mercado. Com a redução da previsibilidade financeira, importadores podem reduzir o volume de compra de combustível no exterior, o que comprometeria o suprimento nacional.
“Diante desse cenário se faz necessária a adoção de providências, com a maior brevidade possível, de modo a evitar o agravamento dos riscos de desabastecimento nacional”, alertaram as instituições representativas do setor.
Sem uma solução coordenada entre o governo e os agentes de mercado, o reflexo final será sentido no bolso do passageiro e na qualidade dos serviços. O monitoramento contínuo das tensões entre Irã e Israel é agora o principal termômetro para os próximos passos da política energética brasileira, aponta o comunicado assinado pelas entidades.
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