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Nordeste reage acima da média nacional no início de 2026

A avaliação do Banco do Nordeste é que o ciclo atual pode se consolidar, mas dependerá da evolução dessas variáveis
Patricia Raposo
Patricia Raposo
De Recife CEO do Movimento Econômico [email protected]
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~7:24
  1. Economia nordestina mostra recuperação mais intensa que média nacional no início de 2026
  2. Indústria, comércio e serviços apresentam retomada disseminada, com fevereiro marcando inflexão mais consistente
  3. Setor de serviços lidera recuperação em fevereiro com crescimento de 1,2%, sinalizando maior densidade
  4. Índice de Atividade Regional cresce 2,81% interanual, superando avanço de 1,88% do Brasil
  5. Retomada regional ganha força após virtual estagnação brasileira, refletindo dinâmica superior do Nordeste
Rogério Sobreira
Rogério Sobreira, economista-chefe do Banco do Nordeste/Foto: ME

A economia nordestina atravessa, no início de 2026, um momento de transição que combina retomada da atividade com sinais crescentes de pressão estrutural. A leitura do Banco do Nordeste, a partir do estudo “Economia brasileira e regional: retomada ameaçada”, elaborado pelo economista-chefe Rogério Sobreira, mostra que esse novo ciclo não pode ser compreendido apenas pelo avanço do PIB, mas pela interação entre mercado de trabalho, crédito, custo financeiro e capacidade de consumo das famílias.

O último trimestre de 2025 foi marcado por virtual estagnação da economia brasileira, com crescimento de apenas 0,1% e desaceleração disseminada entre os setores. A mudança começa a aparecer no primeiro bimestre de 2026. Em janeiro, a atividade reage de forma ainda tímida e influenciada por uma base deprimida de comparação. Em fevereiro, no entanto, a retomada ganha consistência e passa a se espalhar entre os setores. As pesquisas setoriais do IBGE sugerem o início de uma inflexão da atividade econômica também no Nordeste no começo de 2026, reproduzindo, em linhas gerais, o movimento observado no Brasil, mas com maior intensidade.

Indústria

Na comparação com o Brasil, o Nordeste apresentou recuperação mais intensa em todos os setores de atividade, especialmente em fevereiro na comparação com janeiro.

Tal como no cenário nacional, a indústria apresentou forte recuperação em janeiro, com crescimento de 2,0% frente a dezembro, embora tenha perdido algum fôlego em fevereiro na comparação com janeiro. O comércio varejista também exibiu forte recuperação em janeiro, seguido de alguma perda de tração em fevereiro, refletindo um consumo ainda sensível às condições financeiras. Já o comércio varejista ampliado manteve, em fevereiro, a trajetória de recuperação observada no mês anterior, sinalizando maior resiliência em segmentos mais dependentes de crédito .

O setor de serviços, por sua vez, apresentou comportamento distinto. Iniciou o ano sem sinais de recuperação, registrando queda de 0,6% frente a dezembro de 2025, mas, em fevereiro, a retomada foi expressiva, com crescimento de 1,2% frente a janeiro. Esse desempenho é particularmente relevante por se tratar do segmento com maior peso na economia regional, indicando que a retomada começa a ganhar densidade .

Desempenho superior X desemprego

Assim, o que inicialmente se configurava como uma recuperação lenta e heterogênea passa a se revelar mais forte e disseminada entre os setores produtivos. Esse comportamento também se reflete nos indicadores agregados. A atividade econômica regional, medida pelo Índice de Atividade Regional do Banco Central, cresceu 2,81% em termos interanuais entre janeiro de 2024 e fevereiro de 2026, acima do avanço de 1,88% registrado no Brasil no mesmo período, reforçando a leitura de que o Nordeste vem apresentando desempenho relativamente superior .

Esse comportamento mais dinâmico da atividade está diretamente associado ao desempenho do mercado de trabalho, que se mantém como principal pilar de sustentação da economia regional. Mesmo com leve elevação recente, a taxa de desemprego permanece em níveis historicamente baixos, em torno de 5,8%. Mais relevante que isso é a trajetória da renda. O rendimento médio real segue em crescimento, ampliando a massa de renda disponível e sustentando o consumo, mesmo em um ambiente de crédito mais caro .

No Nordeste, esse fator ganha ainda mais importância. Entre o primeiro trimestre de 2023 e o quarto trimestre de 2025, o rendimento médio real acumulou alta de 14%, superando o avanço observado no Brasil. Já a massa de renda cresceu mais de 21% no período, indicando não apenas melhora nos salários, mas também expansão do número de ocupados. Esse conjunto reforça a resiliência do consumo regional, funcionando como um amortecedor frente ao aperto monetário .

Outro vetor relevante é o crédito bancário, que continua exercendo papel central na sustentação da atividade. Mesmo com desaceleração recente, o estoque de crédito segue em expansão. No Brasil, o saldo cresceu mais de 25% entre janeiro de 2024 e março de 2026. No Nordeste, esse avanço é ainda maior, superando 30% no mesmo período .

A característica mais relevante desse movimento na região é o equilíbrio entre crédito para pessoas físicas e jurídicas. Diferentemente do restante do país, onde há maior diversificação das fontes de financiamento empresarial, o Nordeste ainda depende fortemente do sistema bancário. Isso faz com que o crédito tenha impacto direto tanto sobre o consumo quanto sobre a capacidade de investimento das empresas, ampliando sua relevância no ciclo econômico regional.

No entanto, é exatamente nessa combinação entre renda, crédito e juros que começam a surgir os principais sinais de alerta. A manutenção das taxas de juros em patamar elevado por um período prolongado tem produzido um efeito cumulativo sobre o orçamento das famílias. Entre janeiro de 2024 e fevereiro de 2026, a parcela da renda comprometida com juros aumentou de forma significativa, assim como o peso do serviço da dívida no orçamento familiar .

Esse movimento revela uma deterioração gradual da capacidade financeira das famílias. Ainda que a renda esteja crescendo, uma fatia cada vez maior desse ganho é absorvida pelo pagamento de dívidas. Na prática, isso reduz o espaço para consumo futuro e limita a continuidade da expansão da demanda.

Como consequência direta, a inadimplência começa a subir, especialmente no segmento de pessoas físicas. O estudo aponta que esse aumento se intensifica a partir de janeiro de 2026, indicando que o ciclo de crédito pode começar a enfrentar restrições mais severas à frente. Entre as empresas, a inadimplência permanece mais estável, o que reforça que o principal ponto de pressão está concentrado nas famílias .

Esse conjunto de fatores evidencia uma dinâmica complexa. De um lado, o mercado de trabalho aquecido e a expansão do crédito sustentam a retomada da atividade no curto prazo. De outro, o custo elevado do dinheiro pressiona o orçamento das famílias e compromete a sustentabilidade desse crescimento no médio prazo.

Inflação peso sobre Nordeste

No campo macroeconômico, inflação e política monetária seguem como elementos determinantes desse equilíbrio. O nível elevado dos juros, embora necessário para o controle inflacionário, continua sendo o principal fator de contenção da demanda, afetando tanto o consumo quanto, principalmente, os investimentos — que já vinham em trajetória de queda desde 2025.

O resultado é um cenário de retomada com fragilidades. A economia nordestina cresce mais rápido que a média nacional no início de 2026, com avanço mais disseminado entre os setores e sustentação relevante do mercado de trabalho e do crédito. Ao mesmo tempo, acumula pressões importantes vindas do endividamento das famílias e do ambiente financeiro restritivo.

A avaliação do Banco do Nordeste é que o ciclo atual pode se consolidar, mas dependerá da evolução dessas variáveis. A trajetória dos juros, o comportamento da inadimplência e a capacidade de manutenção do emprego e da renda serão determinantes para definir se a retomada observada no curto prazo conseguirá se transformar em um crescimento mais robusto e sustentável ao longo de 2026.

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