
A escalada do conflito no Oriente Médio já acende um sinal de alerta para a economia de Alagoas diante da possibilidade de alta dos combustíveis e de encarecimento de insumos ligados à produção e à distribuição. A avaliação é reforçada por análise de economistas e entidades ouvidas pela reportagem, que apontam possíveis reflexos sobre o custo de vida, a logística, o agronegócio e setores dependentes do consumo e dos serviços no estado.
O principal canal de transmissão da crise para o Brasil é o mercado de energia. Com o agravamento das tensões no Oriente Médio e os impactos sobre o Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo mundial, o barril do tipo Brent superou os US$ 100 nos últimos dias. Na avaliação do economista Fábio Leão, esse fato já é significativo para a preocupação com a inflação: o aumento nos preços de gasolina e diesel pressiona os custos de frete e logística, gerando um efeito em cadeia nos preços de alimentos e produtos industriais.
Segundo Leão, com alta acumulada de 23% no preço do petróleo em 30 dias, cresce a pressão sobre os preços domésticos de combustíveis, o que pode ter efeitos distintos caso o conflito se prolongue.
“Os aspectos positivos são a preservação do bolso da população no curto prazo, com a atuação do governo em medidas como subsídios, cortes de impostos federais e estoques reguladores. No lado negativo, há o risco de aumento dos gastos públicos para além do que já está posto na economia, pressionando os juros internos, fazendo com que a economia volte a operar com o freio de mão puxado”, analisou.
Para Fábio Leão, o primeiro e mais imediato impacto para Alagoas está justamente na elevação dos custos logísticos e no avanço do custo de vida. A alta dos combustíveis, segundo ele, tem potencial de repercutir sobre fretes, alimentos e atividades que dependem fortemente do transporte rodoviário, uma realidade central para a economia alagoana.
“O primeiro reflexo tende a aparecer no custo de vida, porque a alta dos combustíveis afeta o frete, pressiona preços e repercute em diferentes atividades da economia alagoana”, disse.

Ele completa sua análise afirmando que Alagoas importa grande parte dos produtos industrializados e hortifrutis consumidos no estado. Nesse cenário, a alta de 20% no diesel encarece o frete e eleva o preço final no supermercado para o consumidor alagoano.
Esse entendimento também é compartilhado pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Alagoas (Fecomércio AL). Segundo o assessor econômico do Instituto Fecomércio AL, Lucas Sorgato, um eventual aumento no preço dos combustíveis preocupa especialmente pela dependência do transporte rodoviário na circulação de mercadorias no estado e no país.
A avaliação é de que, como o combustível representa um dos principais insumos da logística, qualquer pressão mais forte sobre esse custo tende a atingir diretamente a distribuição e o atacado.
“Em Alagoas, o transporte rodoviário tem peso central na logística, e o combustível é um dos principais insumos dessa operação. Qualquer aumento nesse custo tende a pressionar a distribuição e, diante das margens apertadas do setor, pode acabar sendo repassado ao consumidor final”, avalia.
Importações e insumos entram no radar da indústria
Além dos combustíveis, a preocupação também alcança insumos importantes para a atividade econômica local. O Centro Internacional de Negócios (CIN), da Federação das Indústrias do Estado de Alagoas (FIEA), informou que, embora os dados da balança comercial de março ainda não estejam consolidados, a expectativa é de impacto sobre itens ligados às importações do estado, especialmente betume de petróleo e adubos.
Segundo o CIN, os produtos químicos também entram no radar, diante de reajustes constantes observados no segmento e da possibilidade de que esses aumentos sejam repassados ao preço final dos produtos. A avaliação reforça a leitura de que os efeitos do conflito não se limitam ao mercado de combustíveis, mas podem avançar sobre cadeias produtivas que dependem de insumos importados ou sensíveis à variação de custos internacionais.
Em fevereiro de 2026, os adubos e fertilizantes químicos apareceram como o principal produto importado por Alagoas, com 6,4% do total, à frente de outros hidrocarbonetos e seus derivados, com 5,6%, e de equipamentos para distribuição de energia elétrica, com 4,4%. O recorte ajuda a dimensionar o peso de insumos sensíveis ao mercado internacional na economia estadual.
Segundo o economista Fábio Leão, o Irã é um dos maiores fornecedores de ureia e fertilizantes nitrogenados. A interrupção do comércio no Estreito de Ormuz eleva o custo de produção para o setor sucroenergético em Alagoas e para a fruticultura irrigada no Vale do São Francisco.
“Cerca de 93,5% das importações brasileiras vindas do Irã no início de 2026 eram de adubos e fertilizantes, o que gera uma escassez imediata de insumos para a próxima safra regional”, explicou.

Turismo e serviços também podem sentir efeito indireto em Alagoas
Outro setor citado na análise de Fábio Leão como sensível ao agravamento do conflito é o turismo, uma das atividades com peso relevante na economia alagoana. Nesse caso, o impacto aparece menos como efeito imediato e mais como consequência indireta de um cenário de custos mais altos, especialmente em itens como combustíveis, transporte, energia e alimentação.
A avaliação é de que uma alta mais persistente nesses componentes pode pressionar a operação de hotéis, bares, restaurantes e demais serviços ligados à atividade turística, além de afetar o orçamento do consumidor e o planejamento de viagens. “O aumento nas passagens aéreas e no custo de operação de hotéis, devido à energia e alimentos, pode desestimular o turismo, um pilar central da economia de Alagoas”, diz Fábio Leão.
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