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BC mantém PIB em 1,6%, mas eleva inflação a 3,9% por guerra no Irã

Conflito eleva risco estagflacionário, pressiona combustíveis e pode conter ciclo de cortes da Selic, alerta o Banco Central
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Conflito Irã Estados Unidos PIB
Banco Central classifica o choque externo como de oferta, com potencial de elevar preços e reduzir o crescimento simultaneamente, configurando risco de caráter estagflacionário e impacto no PIB. Foto: Whitehouse/Instagram

O conflito no Oriente Médio reconfigurou as projeções macroeconômicas para o Brasil em 2026. O Banco Central (BC) manteve em 1,6% a estimativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em seu Relatório de Política Monetária divulgado nesta quinta-feira (26), mas elevou a projeção de inflação medida pelo IPCA de 3,5% para 3,9% — reflexo direto da alta dos preços internacionais de energia. Se confirmado, o crescimento de 1,6% será o mais fraco desde 2020, quando a economia recuou 3,3% em meio à pandemia de Covid-19.

A estabilidade da projeção do PIB decorre, segundo o BC, do resultado do quarto trimestre de 2025, próximo ao esperado, e da manutenção da perspectiva de expansão trimestral moderada ao longo do ano. O cenário é condicionado pela política monetária em campo restritivo, pelo baixo nível de ociosidade dos fatores de produção, pela desaceleração da economia global e pela ausência do impulso agropecuário observado em 2025 — ano em que o PIB fechou em 2,3%, com expansão em todas as atividades.

Fatores de sustentação da demanda doméstica também foram incorporados às estimativas: o aumento real do salário mínimo, a isenção do Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF) para rendimentos até R$ 5 mil e o desconto para quem ganha até R$ 7 mil, além do mercado de trabalho aquecido, com queda do desemprego e aumento dos salários. O endividamento e o comprometimento de renda das famílias, contudo, aumentaram pelo segundo ano consecutivo em 2025 e se aproximam de recorde — fator que limita a capacidade de absorção de novos choques pelo consumo doméstico.

O BC classifica o choque externo como de oferta — com potencial de elevar preços e reduzir o crescimento simultaneamente, configurando risco de caráter estagflacionário. O petróleo, que estava em US$ 72 por barril antes do início do conflito, ultrapassou US$ 100 por barril desde a eclosão da guerra, pressionando diretamente os preços dos combustíveis no país.

O ponto de maior atenção é o Estreito de Ormuz, rota estratégica para o transporte global de petróleo. “Se o trânsito pelo Estreito de Ormuz continuar interrompido por tempo prolongado, ou se o conflito ganhar contorno regional, o impacto sobre os preços e sobre a atividade econômica pode ser significativo e duradouro”, alertou o BC no relatório.

Inflação, crédito e contas externas

O BC projeta que o IPCA termine 2026 em 3,6%, “em boa medida advinda do aumento dos preços do petróleo”, com trajetória de alta até o fim do ano e retomada da queda a partir de 2027. A projeção anual de 3,9% permanece abaixo da estimativa do mercado financeiro, de 4,17% para 2026, segundo o boletim Focus de 23 de março.

A probabilidade de estouro do teto da meta de 4,5% subiu de 23% para 30% neste relatório. Para o horizonte relevante de política monetária — terceiro trimestre de 2027 — a inflação projetada é de 3,3%, recuando a 3,1% no terceiro trimestre de 2028. A meta estipulada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) é de 3%, com intervalo de tolerância entre 1,5% e 4,5%.

A projeção para o crescimento do saldo de crédito foi elevada de 8,6% para 9% em 2026, puxada pelo desempenho acima do esperado do crédito livre a pessoas físicas — cuja projeção subiu 0,5 ponto percentual, para 9,5% — e do crédito direcionado a pessoas jurídicas, que passou para 11,5%. Apesar do aumento, a projeção segue indicando desaceleração pelo segundo ano consecutivo, após crescimento de 10,3% em 2025.

Nas contas externas, o déficit em transações correntes foi reduzido de US$ 60 bilhões para US$ 58 bilhões (2,2% do PIB), com melhora no saldo comercial sustentada por exportações mais altas — em especial de petróleo, cujos preços subiram com o conflito. O déficit estará financiado pelos investimentos diretos no país (IDP), com projeção de entrada líquida de US$ 70 bilhões (2,7% do PIB).

OCDE aprofunda o corte do PIB brasileiro

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) foi além na revisão. No relatório interino de Perspectivas Econômicas Globais divulgado em 26 de março, a organização reduziu em 0,2 ponto percentual a projeção de crescimento do Brasil para 2026, a 1,5% — abaixo dos 1,7% previstos em dezembro de 2025. Para 2027, a projeção recuou 0,1 ponto percentual, para 2,1%.

A inflação brasileira, segundo a OCDE, deve desacelerar de 5% em 2025 para 4,1% em 2026 — revisão levemente para baixo ante a estimativa anterior de 4,2% — e permanecer em 3,8% em 2027. O relatório aponta o Brasil entre os países com ampla dependência do Oriente Médio para importações de fertilizantes e entre aqueles em que a inflação segue acima da meta do banco central. A organização estima que, uma vez moderada a inflação, as taxas de juros devem cair no Brasil, México, África do Sul e Turquia.

No cenário global, a OCDE projeta desaceleração do PIB mundial de 3,3% em 2025 para 2,9% em 2026 — revisão que apagou ganho potencial de 0,3 ponto percentual que seria incorporado se o conflito não tivesse se agravado. A inflação do G20 deverá ser 1,2 ponto percentual mais alta do que o esperado anteriormente em 2026, atingindo 4,0%, antes de recuar para 2,7% em 2027. A organização aponta que o movimento compensará o impulso de crescimento proveniente dos investimentos em tecnologia, das tarifas efetivas mais baixas do que o previsto e das políticas fiscais e monetárias amplamente favoráveis.

Selic e política monetária

De setembro de 2024 a junho de 2025, a Selic foi elevada sete vezes consecutivas, sem alteração nas cinco reuniões seguintes do Copom. Na reunião encerrada em 18 de março, a taxa foi reduzida de 15% para 14,75% ao ano — primeiro corte após o período prolongado de manutenção. Diante das incertezas provocadas pelo conflito, o BC não descarta rever o ciclo de baixa.

Ao contrário do ocorrido em janeiro, quando sinalizou corte na reunião seguinte, o Copom evitou desta vez dar indicações sobre os próximos passos, destacando que as decisões dependerão da evolução dos dados econômicos e do cenário internacional. O mercado financeiro, segundo o boletim Focus de 23 de março, elevou a estimativa para a Selic ao fim de 2026 de 12,25% para 12,5% ao ano, com projeção de recuo para 10,5% em 2027 e 10% em 2028.

*Com informações da Agência Brasil

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