
Recursos estimados em até R$ 86 bilhões deixam o Nordeste a cada ano por meio de apostas esportivas online, sem retorno para a economia da região. A projeção considera dados da consultoria Strategy& (PwC), que estimou movimentação anual de R$ 240 bilhões nesse segmento. A exclusão da tributação sobre as apostas esportivas na Medida Provisória 1.303/2025, aprovada na terça-feira (7) pela Comissão Mista do Congresso, provocou reação imediata no setor produtivo regional. A Associação Nordeste Forte, que reúne as federações das indústrias dos nove estados nordestinos, divulgou nota pública criticando a “manutenção de privilégios a um setor de alta rentabilidade”.
No documento, o presidente da Associação e da Federação das Indústrias da Paraíba (FIEPB), Cassiano Pereira, afirma que “a última versão da medida provisória não conta com o trecho que previa ampliar de 12% para 18% a alíquota sobre a receita bruta das apostas”, enquanto manteve aumento do imposto de renda sobre juros sobre capital próprio, pagos por empresas a acionistas.
Segundo ele, a decisão “causa surpresa e revolta” e representa “um desrespeito não só à indústria brasileira, como também a todo o setor produtivo, que é atingido por incrementos constantes da carga tributária, comprometendo significativamente a sua competitividade nos mercados nacional e internacional”.
Impacto das bets no consumo e na atividade industrial
A nota também menciona os efeitos sociais da atividade no orçamento doméstico: “Conforme pesquisa realizada pelo Ipespe, a nossa região é uma das mais afetadas pelas apostas esportivas online, com 51% dos nordestinos considerando que elas impactaram negativamente suas finanças pessoais ou familiares”, diz o presidente da FIEPB.
Outro levantamento, da Febraban, aponta que 65% dos nordestinos afirmam que os gastos com bets comprometeram o orçamento mensal, acima da média nacional. Estudo da XP estima que os gastos com apostas podem consumir até 20% do orçamento discricionário das classes C e D, público predominante entre os apostadores da região.
Com base nesses dados, Cassiano Pereira afirma que é necessário “um olhar mais criterioso, e menos leniente, com essa questão das apostas esportivas online”, destacando que o debate deve considerar “não apenas os impactos psicossociais, como também a necessidade de uma política tributária mais justa, que utilize como critério prioritário a relevância social de cada setor ou atividade econômica”.
Segundo dados da Receita Federal, o setor arrecadou R$ 3,03 bilhões entre janeiro e maio de 2025, com movimentação mensal superior a R$ 20 bilhões. Estimativas indicam que a fatia atribuída ao Nordeste representa até R$ 86 bilhões por ano, valor que deixa de circular na economia regional.
Articulação política
No texto, Cassiano relata que cumpriu agenda em Brasília e manteve interlocução com parlamentares da bancada paraibana. “Estive nos gabinetes do senador Efraim Filho (União-PB) e do deputado Romero Rodrigues (Podemos-PB), reforçando junto à bancada esse posicionamento”, diz. Segundo ele, o mesmo tema foi tratado pelo presidente da CNI, Ricardo Alban, com os presidentes da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado Federal, Davi Alcolumbre (União-AP).
“Esse é um tema sensível e urgente, que merece a atenção e o empenho de todos nós, para que o Congresso Nacional reconsidere o conteúdo da medida provisória, minimizando os impactos ao setor produtivo e à sociedade brasileira como um todo”, conclui a nota.
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