
Responsável por cerca de 70% da produção de mel de Pernambuco, o Sertão do Araripe consolidou-se como o maior polo apícola do estado e uma das principais referências da atividade no Nordeste. A região gera aproximadamente mil toneladas anuais de produção, segundo estimativas da Federação dos Apicultores de Pernambuco, e concentra uma cadeia produtiva que movimenta pequenos negócios e amplia a presença do mel pernambucano em mercados nacionais.
Araripina aparece como o principal município produtor do estado, respondendo sozinho por quase 20% da produção estadual. Impulsionada pelas características únicas da Caatinga, a apicultura ganhou força no Araripe nas últimas décadas e hoje se espalha por municípios como Bodocó, Exu, Trindade e Ouricuri.
Esta é a terceira matéria da série de reportagens “DNA regional: produtos de Pernambuco avançam rumo à IG”, do Movimento Econômico, que mostra como pequenos produtores agropecuários do estado estão se capacitando para melhorar seus produtos e alcançar a certificação nacional. Na primeira reportagem, mostramos como cafeicultores de Triunfo estão concluindo o processo protocolar junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) o registro de Indicação Geográfica (IG).
Já na segunda reportagem, abordamos como os pequenos agricultores de abacaxi, na cidade de Pombos, estão se destacando no cultivo e ampliando a profissionalização da cadeia produtiva.
Caatinga impulsiona qualidade e identidade do mel
A vegetação típica do semiárido funciona como um grande pasto apícola natural. Plantas como marmeleiro e cipó-uva fornecem néctar e pólen para as abelhas e influenciam diretamente as características do mel produzido na região.
Além da biodiversidade da Caatinga, a altitude da Chapada do Araripe e os períodos de floração intensa favorecem a produtividade dos apiários. Em anos mais favoráveis, a produção regional já ultrapassou 1,7 mil toneladas. Em períodos de estiagem severa, no entanto, os produtores podem perder até 80% dos enxames.
Apesar dos desafios climáticos, a atividade tornou-se uma alternativa econômica importante para centenas de famílias sertanejas, sobretudo pelo baixo custo de implantação e pela possibilidade de convivência produtiva com o semiárido.
Certificação amplia mercados e valoriza produto
O avanço das certificações sanitárias vem mudando o cenário da apicultura regional. Por meio do Consórcio Intermunicipal do Sertão do Araripe (CISAPE), produtores passaram a ter acesso ao Serviço de Inspeção Municipal compartilhado, permitindo a comercialização formal do mel em diversos municípios pernambucanos.
A Fazenda Doce Mel, localizada na região, foi uma das pioneiras no processo. A empresa familiar conquistou o selo SIM em 2023 e, em 2025, obteve o SISBI, certificação federal que autoriza a venda em todo o território nacional.
O presidente da Associação de Desenvolvimento da Apicultura do Estado de Pernambuco, Petrônio Pereira, afirma que a conquista dos selos ampliou a credibilidade do produto junto ao consumidor e abriu novos mercados. Ele também é sócio da Fazenda Doce Mel.
“A certificação trouxe garantia de qualidade, inspeção e rastreabilidade. Isso permitiu expandir as vendas para outros municípios e estados, além de fortalecer a imagem do mel produzido no Sertão pernambucano”, afirmou.
Hoje, a Fazenda Doce Mel comercializa produtos para estados como Maranhão, Bahia, Ceará e São Paulo, além de mercados em Recife e Fernando de Noronha. Segundo Petrônio, a produção da cadeia ligada à associação varia entre 300 e 400 toneladas anuais.

Sebrae aposta em qualificação e acesso ao mercado
Há mais de duas décadas, o Sebrae Pernambuco acompanha o desenvolvimento da cadeia apícola no Sertão do Araripe. O trabalho envolve capacitações técnicas, consultorias em manejo e gestão, orientação sobre produtividade e apoio ao acesso a mercados.
De acordo com o gerente da unidade do Sebrae no Sertão do Araripe, Danilo Silva, a atuação também envolve estratégias de comercialização, design de embalagens e participação em feiras e rodadas de negócios. “O mel do Araripe tem qualidade reconhecida, mas é importante que o produtor também saiba apresentar esse produto ao mercado. Embalagem, comunicação visual e certificação ajudam a agregar valor e abrir portas em grandes redes varejistas”, destacou.
Atualmente, o Sebrae acompanha diretamente um grupo de 50 apicultores da região, mas ações coletivas acabam alcançando um público ainda maior. Segundo Danilo, um dos principais desafios da cadeia produtiva é a ausência de um grande entreposto regional de processamento e registro do mel.
“Muito mel produzido em Pernambuco acaba sendo formalizado em outros estados, como Piauí e Ceará, porque eles possuem estruturas maiores de beneficiamento e certificação”, explicou.
Indicação geográfica pode fortalecer mel do Araripe
Outro passo estratégico para o setor é o processo de reconhecimento da Indicação Geográfica (IG) do Mel do Araripe, iniciativa articulada pelo Sebrae Pernambuco e pela Adepe. A documentação já foi protocolada junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). O objetivo é garantir reconhecimento oficial para o mel produzido no Sertão do Araripe, valorizando as características ligadas ao território e à biodiversidade da Caatinga.
“A indicação geográfica vai mostrar que temos um produto com origem única, ligado ao clima, à flora e à cultura da região. Isso agrega valor e fortalece o mel pernambucano nacional e internacionalmente”, afirmou Petrônio Pereira.
Pequenos produtores apostam em derivados

Além do mel tradicional, produtores da região vêm investindo em derivados e produtos com maior valor agregado. Em Bodocó, o produtor Joel Feitoza, do Apiário Ibiapina, produz pão de mel, hidromel, sabonetes, velas aromáticas e mel saborizado com café e pimenta.
Ex-marceneiro em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, Joel começou na atividade há três anos. Depois de algumas tentativas frustradas de produção, buscou capacitação. Há um ano e meio, possui 72 colmeias e projeta triplicar a produção até o próximo ano.
“A certificação vai mudar completamente nosso negócio. O consumidor percebe a diferença da embalagem, da procedência e da qualidade do produto”, afirmou. Enquanto parte dos produtores vende mel bruto para atravessadores por valores entre R$ 10 e R$ 25 o quilo, Joel consegue comercializar produtos certificados entre R$ 40 e R$ 80 o quilo.
A expectativa agora é ampliar a chamada “Casa do Mel”, unidade onde o produto será processado, envasado e rotulado dentro das normas sanitárias. O projeto prevê aquisição de maquinário, veículos para escoamento e expansão da estrutura de beneficiamento.
Apicultura também impulsiona recuperação ambiental

Além da geração de renda e do fortalecimento da economia regional, a cadeia da apicultura no Sertão do Araripe também vem sendo associada a iniciativas de recuperação ambiental da Caatinga. Em Oricuri, produtores locais transformaram parte da comercialização do mel em uma ação permanente de reflorestamento do bioma.
Segundo Petrônio Pereira, 20% da receita obtida com a venda de produtos da Fazenda Doce Mel é destinada a projetos de recuperação ambiental. A iniciativa começou após a participação da empresa na COP 30, quando o grupo passou a vincular diretamente a comercialização do mel ao plantio de mudas nativas da Caatinga.
“A cada produto vendido, parte do valor é destinada ao reflorestamento. Começamos com uma ação menor e conseguimos plantar cerca de 3 mil mudas. Depois, firmamos parceria com a ONG CEPAN e o projeto ganhou uma dimensão muito maior”, afirmou. Com apoio da organização ambiental, os produtores já reflorestaram 33 hectares na região de Oricuri. Somente na área da Fazenda Doce Mel foram plantadas 17 mil mudas de espécies nativas da Caatinga.
A iniciativa também começou a mobilizar outras propriedades rurais da região. Segundo Petrônio, atualmente 12 produtores aderiram ao projeto, fazendo com que o número de mudas plantadas ultrapassasse a marca de 100 mil unidades no município. “Hoje já temos outros agricultores participando da iniciativa. O reflorestamento passou a ser visto como parte da sustentabilidade da própria atividade apícola, porque preservar a Caatinga também significa preservar a produção de mel”, destacou.
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