
Uma startup maranhense desenvolveu um caldinho instantâneo de caranguejo em pó a partir do aproveitamento de coprodutos do processamento do crustáceo. O produto é da Biomaré Nutrição, sediada em São Luís (MA) e incubada na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), que se posiciona como a primeira empresa do estado a transformar resíduos do pescado — pele, escamas, ossos e vísceras — em alimentos nutracêuticos e ingredientes funcionais de alto valor agregado.
O segmento escolhido pela empresa parte de um problema de escala da indústria brasileira: o processamento de pescado na forma de filés descarta entre 50% e 70% da matéria-prima. Esse volume, com alto teor de proteínas, minerais e compostos bioativos, segue sendo tratado pela cadeia produtiva majoritariamente como resíduo, sem aproveitamento comercial. A Biomaré opera na conversão desse material em bioprodutos dentro de um modelo de bioeconomia circular, voltado à redução do desperdício e à geração de renda na cadeia do pescado maranhense.
O caldinho instantâneo de caranguejo em pó é o produto mais recente da linha. Antes dele, a empresa já comercializava o caldinho instantâneo de camarão, preparado com camarão desidratado, leite de coco em pó e especiarias naturais, sem adição de açúcares. A porção de 30 g fornece 1,2 g de proteína, 92 kcal, 50 mg de cálcio e 17 mg de fósforo. O produto contém astaxantina, antioxidante marinho presente no camarão com ação anti-inflamatória e protetora celular, e ácidos graxos do leite de coco que auxiliam na absorção de vitaminas lipossolúveis.
O portfólio inclui ainda o cookie de spirulina, desenvolvido com farinha de arroz sem glúten, cacau 100% e spirulina platensis. Cada porção de 60 g entrega 3,9 g de proteína e 1,8 g de fibras, livre de gorduras trans. A spirulina responde pelo aporte de ferro, clorofila e antioxidantes, com ação na oxigenação celular e recuperação muscular. O snack de camarão, também em embalagens de 60 g, completa a linha de produtos já disponíveis.
Mulheres empreendedoras na bioeconomia do pescado
Thoya Yoshikawa, mestranda do Programa de Pós-graduação em Ciência e Tecnologia Ambiental da UFMA e CEO da Biomaré, afirma que a empresa nasceu da inquietação científica e empreendedora de mulheres pesquisadoras voltadas à bioeconomia do pescado. Para ela, pesquisa acadêmica pode gerar negócios sustentáveis capazes de fortalecer cadeias produtivas locais e contribuir para uma economia mais circular e inclusiva. O acesso à infraestrutura da universidade e às redes colaborativas foi, segundo ela, determinante para o desenvolvimento tecnológico dos produtos.
A empresa integra o Programa de Incubação de Startups Inova Maranhão 2025 (PISIM), executado pela Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema) em parceria com a Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Inovação do Maranhão (SECTI-MA), que na edição 2025/2026 selecionou 67 startups, sendo 52 em fase de Ideação e 15 já em operação no mercado. Em oito anos de existência, o programa acumulou investimento em 79 iniciativas ao longo de quatro ciclos anteriores.
Bioeconomia azul: mercado em expansão
A aposta se insere em um mercado global em expansão. A economia azul reúne o conjunto de atividades econômicas baseadas no uso sustentável de recursos marinhos e aquáticos, englobando pesca, aquicultura, biotecnologia marinha e aproveitamento de coprodutos do pescado.
Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), os oceanos representam a 7ª maior economia do mundo e o valor agregado pela indústria oceânica global pode chegar a US$ 3 trilhões até 2030.
No Brasil, estudo da Universidade de São Paulo (USP) publicado em 2025 aponta que a economia azul já responde por 2,9% do PIB nacional de forma direta e por 6,5% quando considerados os efeitos indiretos na cadeia produtiva, envolvendo mais de 4,7 milhões de trabalhadores.

Validação de mercado do caldinho de caranguejo em pó
A Feira Brasil na Mesa, realizada entre 23 e 25 de abril na Embrapa Cerrados, em Planaltina (DF), foi o primeiro teste nacional da linha. O evento, promovido pela Embrapa em celebração aos seus 53 anos, reuniu produtores rurais, pesquisadores, gestores públicos, investidores e distribuidores em torno da diversidade alimentar brasileira.
A Biomaré participou a convite do Ministério da Pesca e Aquicultura. Durante o evento, Thoya Yoshikawa apresentou os produtos diretamente ao presidente Lula, que visitou o estande da startup. Os itens esgotaram ao longo dos três dias de feira, segundo registros do perfil oficial da empresa nas redes sociais. Yoshikawa avaliou que a participação gerou interesse de representantes governamentais, investidores e agentes comerciais, abrindo possibilidades de parcerias e expansão comercial para a startup.
*Com informações da UFMA
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