
A tradição cafeeira de duas regiões de Pernambuco está mais próxima de ganhar reconhecimento oficial. Produtores de Triunfo, no Sertão do Pajeú, e de Taquaritinga do Norte, no Agreste, estão na fase final do processo para protocolar junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) o registro de Indicação Geográfica (IG), na modalidade Denominação de Origem, para os cafés cultivados nessas localidades. O selo reconhece oficialmente produtos cuja qualidade está diretamente associada ao território onde são produzidos, agregando valor e ampliando as oportunidades de mercado. No Nordeste, apenas os estados da Bahia e Ceará possuem áreas com a certificação para cafés.
Em Triunfo, a iniciativa abrange também o município vizinho de Santa Cruz da Baixa Verde. O trabalho foi iniciado no ano passado por meio de uma parceria entre o Sebrae Pernambuco e a Agência de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco (Adepe).
Esta é a primeira matéria da série de reportagens “DNA regional: produtos de Pernambuco avançam rumo à IG”, do Movimento Econômico, que vai mostrar como pequenos produtores agropecuários do estado estão se capacitando para melhorar seus produtos e alcançar a certificação nacional.
Segundo a analista do Sebrae em Triunfo, Glícia Freitas, a região já é reconhecida nacionalmente pela produção de cafés especiais e reúne condições naturais que favorecem a qualidade dos grãos, como clima de altitude, temperaturas mais baixas e características de solo e relevo. A certificação como Indicação Geográfica deverá valorizar ainda mais a produção local, baseada principalmente na agricultura familiar. Hoje, cerca de dez produtores cultivam cafés especiais certificados na região, mas o potencial é que esse número chegue a aproximadamente 30 nos próximos anos. A produção anual gira em torno de 100 toneladas.
Conhecimento é valorizado no processo
Além das características naturais, o processo de certificação também leva em conta o saber-fazer tradicional da região. “Existe um conhecimento que vem sendo transmitido de geração em geração. Esse saber local, aliado às condições naturais, é um dos fatores que justificam o reconhecimento da Indicação Geográfica”, afirma Glícia Freitas.
Para os produtores, o selo representa não apenas valorização comercial, mas também maior visibilidade para o território. Presidente da Associação dos Cafeicultores de Triunfo, Vanda Gonçalves, que cultiva café no Sítio Gonçalves em uma propriedade familiar de dois hectares, acredita que o reconhecimento poderá ampliar as oportunidades para a região. “A Indicação Geográfica traz vários benefícios. Primeiro, o reconhecimento da nossa área e da qualidade do café de Triunfo. Isso agrega valor ao produto e coloca a cidade ainda mais em destaque”, diz.
Ela também destaca que o selo pode fortalecer outras atividades econômicas locais, como o turismo rural. “Triunfo já é uma cidade turística e o café pode fortalecer ainda mais o turismo de experiência, com visitantes conhecendo os cafezais e o processo de produção”, afirma.

Varidade arábica cultivada a 600 metros de altitude
No Agreste pernambucano, a Serra do Taquari, em Taquaritinga do Norte, também avança para o processo de reconhecimento da Indicação Geográfica junto ao INPI. A região, que inclui áreas do município de Vertentes, produz cafés arábica cultivados acima de 600 metros de altitude e, em muitos casos, sob sombra da mata nativa.
De acordo com o analista do Sebrae e gestor de projetos do agronegócio em Caruaru, Lucas Farias, a produção local reúne características históricas e ambientais que justificam o reconhecimento. Para receber o selo, o produtor terá que atender a uma série de exigências que comprovem que o café dele é de qualidade. “Para ele poder ter acesso ao selo, não precisa estar ligado à associação que vai fazer a gestão, porém ele precisa passar por uma avaliação, que será constante, a cada safra”, explica. O projeto envolve atualmente mais de 20 produtores e prevê critérios técnicos rigorosos para a certificação, como a espécie do café (arábica típico), o cultivo sombreado e avaliações sensoriais que comprovem a qualidade do produto.
Para o produtor Antônio Sales, do Café Sítio Gameleira, a certificação pode fortalecer a identidade da produção regional. “Vejo isso como algo muito positivo. O selo vai identificar o nosso microclima e valorizar o café produzido aqui, destacando a qualidade e a origem do produto”, afirma. Ele cultiva café há cerca de 20 anos em uma área de quatro hectares, mantendo uma tradição familiar que começou no final do século 19, desde o seu bisavô.

Ceará e Bahia conquistaram registros de Indicação Geográfica
O Nordeste brasileiro possui outras regiões já conquistaram certificações semelhantes para cafés. No Ceará, a Serra de Baturité recebeu, no início do mês, o registro de Indicação Geográfica na modalidade Indicação de Procedência, reconhecendo mais de dois séculos de tradição na produção de café arábica cultivado em sistema sombreado e sustentável. A certificação abrange o café produzido em 13 municípios. Hoje, a região é conhecida pelo chamado “café sombreado”, cultivado sob a copa da mata nativa em um sistema que integra lavoura e floresta, preservando recursos naturais e contribuindo para a qualidade do produto.
Na Bahia, duas áreas também já obtiveram o selo. Na Chapada Diamantina, 24 municípios estão dentro da área certificada. Estudos acadêmicos realizados pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) e pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) apontam que a qualidade do café produzido na região resulta da combinação entre fatores naturais e práticas tradicionais de manejo.
Itens como variáveis humanas como o manejo pós-colheita e o saber-fazer local influenciam diretamente o resultado final da bebida. Na região, a colheita é realizada majoritariamente de forma manual. Fatores ambientais, como altitude, temperatura e a orientação das encostas onde os cafezais são cultivados, exercem impacto relevante nas características sensoriais do café.

Chapada Diamantina renova selo anualmente
Segundo a presidente da Aliança dos Cafeicultores da Chapada Diamantina, Tadeane Matos, agrônoma e produtora de quarta geração no município de Ibicoara, a certificação envolve cerca de 8 mil pequenos agricultores, com propriedades médias de cinco hectares e produtividade aproximada de 30 sacas por hectare de café arábica.
O uso do selo é controlado anualmente, já que cada safra precisa comprovar que os produtores seguiram as regras definidas no caderno de especificações técnicas. Para Tadeane, a certificação vai além da valorização comercial do produto. “A indicação geográfica vem para valorizar não apenas o café, mas também a cultura, a história e o saber-fazer das pessoas que produzem na Chapada Diamantina”, afirma.
Outra experiência da região é a Indicação Geográfica do Café do Oeste da Bahia, concedida em 2019, mas atualmente sem utilização ativa. A entidade responsável pela gestão da certificação, a Associação Baiana dos Produtores de Café (AbaCafé), foi dissolvida, o que interrompeu o uso do selo pelos produtores.
Representantes da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), produtores locais, Sebrae e do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) discutem alternativas para retomar a IG, entre elas a criação de uma nova associação gestora ou a possível reativação jurídica da AbaCafé. Enquanto não houver uma entidade responsável, não existem dados atualizados sobre a produção vinculada à certificação.
Processo de reconhecimento de indicação geográfica
No Brasil, o reconhecimento de uma Indicação Geográfica é concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), responsável por avaliar se determinado produto ou serviço possui características vinculadas ao território onde é produzido. O registro atesta que a região desenvolveu reputação, qualidade ou atributos específicos associados ao ambiente natural e ao saber-fazer local, comunicando ao mercado que aquele território se especializou na produção de um item diferenciado.
As IGs podem ser classificadas em duas modalidades: Indicação de Procedência (IP), quando o local se torna conhecido como centro tradicional de produção ou prestação de serviço, e Denominação de Origem (DO), quando as qualidades do produto resultam essencialmente da combinação entre fatores naturais, como clima e solo, e fatores humanos, como técnicas produtivas desenvolvidas na região.
O processo de solicitação do registro exige que o pedido seja apresentado por uma entidade representativa dos produtores ou prestadores de serviço, como associações ou sindicatos. Entre os principais documentos exigidos estão o Caderno de Especificações Técnicas, que descreve detalhadamente o produto e as regras de produção, o estatuto da entidade solicitante, atas registradas das assembleias que aprovam o pedido e comprovantes de que os produtores estão estabelecidos na área delimitada.
Também devem ser apresentados documentos que demonstrem a notoriedade do território como centro de produção, no caso de Indicação de Procedência, ou estudos que comprovem a influência do meio geográfico nas características do produto, no caso de Denominação de Origem, além da delimitação oficial da área geográfica e outros documentos complementares.
Processo de reconhecimento demora quase dois anos
Dados do INPI indicam que o tempo médio para a decisão final de um pedido de Indicação Geográfica no Brasil era de 19,6 meses em fevereiro de 2026, com meta institucional de reduzir esse prazo para 14 meses até dezembro.
Atualmente, segundo planilha de acompanhamento publicada pelo instituto, 23 processos de reconhecimento de Indicação Geográfica seguem em tramitação no país, em diferentes fases de análise técnica, complementação de informações ou publicação de pedidos.
O acompanhamento desses processos reflete o crescimento do interesse de regiões brasileiras em buscar certificações de origem como estratégia de valorização econômica e fortalecimento da identidade territorial de seus produtos.
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