
A entrada de tilápia importada do Vietnã no mercado brasileiro atingiu um volume de 1,6 mil toneladas no primeiro bimestre de 2026, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Esse fluxo comercial preocupa a cadeia produtiva nacional, devido aos preços significativamente inferiores aos praticados internamente. Em Pernambuco, quinto maior produtor nacional e líder no Nordeste, entidades do setor monitoram a situação com cautela e preocupação.
Em estados como Minas Gerais, o impacto já é mensurável, com o registro de 122 toneladas de tilápia importadas apenas em fevereiro deste ano. O cenário ecoa crises recentes em outros setores, como o do leite em pó do Mercosul e do morango egípcio, onde a competitividade do produto estrangeiro pressionou as margens de lucro dos produtores locais, que lidam com custos operacionais e exigências regulatórias mais elevadas.
No Nordeste, Pernambuco produz anualmente 31,7 mil toneladas do pescado, gerando um valor bruto de produção de R$ 415 milhões. A cidade de Jatobá, no Sertão, destaca-se como o terceiro maior polo produtor municipal do país, sendo um termômetro vital para a saúde financeira da piscicultura regional. No município, grande parte da produção é voltada para o consumo regional e mercados informais, o que preserva, temporariamente, o pequeno produtor.
Reconhecido pelos produtores locais como uma espécie de mentor, por dar assistência técnica às diversas associações de piscicultores ligadas à Diocese de Floresta, o padre Pier Antônio Miglio admite a apreensão com a nova concorrência, mas garante que o impacto ainda não alcançou Jatobá.
“Estamos acompanhando as notícias e estamos preocupados. Por enquanto, ainda não sentimos o impacto porque 90% da nossa produção vai para as feiras livres e peixarias”, afirma.
Segundo ele, atualmente, o excesso de normas internas também preocupa os produtores. “O que mais pode inviabilizar as pisciculturas é a carga burocrática da atividade. Nem todo mundo vai conseguir manter em dia todas as licenças, outorgas e permissões”, argumenta.
O padre Antônio auxilia os produtores com capacitação no manejo, orientando sobre limpeza e manutenção dos criatórios, na gestão administrativa e na busca por parcerias técnicas, colocando especialistas em aquicultura à disposição da produção local.
Riscos sanitários e barreiras comerciais
Para a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Pernambuco (Faepe), o desafio vai além do preço. A entidade aponta que a retomada das importações ocorre em um ambiente de fragilidade regulatória e possível insegurança jurídica para o produtor brasileiro. A preocupação central reside na entrada de patógenos exóticos que poderiam comprometer o status sanitário nacional.
“A Faepe defende condições equitativas de mercado, incluindo a avaliação de medidas de defesa comercial e sanitária, bem como o avanço de iniciativas legislativas”, destaca o presidente da Faepe, Pio Guerra.
Ele reforça que o setor precisa de “políticas públicas que assegurem a competitividade do setor, promovam segurança jurídica e valorizem a produção local, essencial para a geração de emprego e renda em Pernambuco”.

Investimento em infraestrutura tecnológica
O enfrentamento à concorrência externa tem sido pauta de ações integradas entre o governo estadual e federal. A Secretaria de Desenvolvimento Agrário, Agricultura, Pecuária e Pesca de Pernambuco (SDA) detalhou investimentos para fortalecer a base produtiva, especificamente na Estação de Piscicultura de Serra Talhada.
Segundo a SDA, “o espaço está incluído em um convênio firmado com o MPA, que prevê recursos para sua reestruturação e modernização”. A secretaria informou ainda que “o projeto já tem R$ 2 milhões destravados, com o projeto topográfico em execução e previsão de investimentos em modernização da estrutura e expansão da capacidade produtiva”.
Fomento à piscicultura familiar
A estratégia de defesa do setor também passa pela assistência técnica e pelo fornecimento de insumos básicos para os produtores do semiárido. O Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA) atua na ponta para garantir que a produção de pequena escala mantenha-se viável frente às oscilações de mercado e pressões das importações.
“A proposta do projeto é atender até dez mil agricultores e aquicultores de base familiar de Pernambuco, com a oferta anual de dez milhões de formas jovens de organismos aquáticos”, declarou a secretaria em nota oficial.
O órgão ressaltou que “a modernização e reativação da unidade deverá ampliar a capacidade de produção de formas jovens para abastecer a aquicultura familiar e apoiar programas de pesquisa, inovação, formação técnica e profissional”.
Agregação de valor e resíduo zero
Em Floresta, o governo estadual articula a implantação de uma bioindústria focada no aproveitamento integral do pescado. A iniciativa busca dar vazão aos subprodutos da tilápia, transformando o que seria descarte em itens de alto valor agregado, como colágeno e óleo de peixe, aumentando a rentabilidade do produtor local.
Segundo destacado pela SDA, a Feira de Negócios da Tilápia de Jatobá (Fentija) “evidencia os resultados das ações integradas entre o Governo Federal e o Governo do Estado no fortalecimento da produção, geração de renda e desenvolvimento sustentável no Sertão”. A meta é que essas unidades de processamento funcionem como um escudo econômico, reduzindo a dependência da venda do peixe apenas in natura.
Cenário para o mercado nacional
O Brasil é atualmente o quarto maior produtor mundial de tilápia, com um crescimento de consumo doméstico que supera os 10% ao ano. Esse dinamismo torna o mercado nacional um alvo estratégico para grandes exportadores globais que operam com custos de produção reduzidos e subsídios governamentais.
Especialistas indicam que o fortalecimento da piscicultura brasileira dependerá de uma combinação entre eficiência produtiva e vigilância governamental. A manutenção de sistemas de vigilância sanitária rigorosos e a implementação de políticas que valorizem a produção regional são vistas como essenciais para proteger os empregos gerados no semiárido pernambucano frente à nova dinâmica das importações.
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