
No coração do Matopiba — região que engloba Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — a adoção de sistemas integrados de produção tem mostrado resultados positivos no desempenho agrícola e na mitigação de gases de efeito estufa. Estudo realizado por pesquisadores da Embrapa Meio-Norte (PI) e da Embrapa Caprinos e Ovinos (CE) identificou que práticas como Integração Lavoura-Pecuária (ILP) e Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) têm elevado a produtividade e aumentado o estoque de carbono no solo na área que envolve os quatro estados, considerada a nova fronteira agrícola do país.
A pesquisa, iniciada em 2024, observou áreas de transição entre o Semiárido e o Cerrado e comparou os resultados de propriedades que adotaram os sistemas integrados com áreas de vegetação nativa. Em solos manejados com consórcios de culturas como milheto ou sorgo com capim Massai, os pesquisadores registraram aumento de até 50% no estoque de carbono orgânico e elevação de até 60% no teor de nitrogênio em relação às áreas nativas.
Os dados indicam que esses modelos agropecuários regenerativos contribuem para a sustentabilidade do solo, favorecendo o sequestro de carbono e a fertilidade natural ao longo do tempo. Parte desse carbono provém da decomposição de raízes e folhas, bem como da serrapilheira resultante da cobertura vegetal dos sistemas, que permanece sobre o solo, em linha com práticas como o plantio direto.
Em regiões semiáridas, onde a perda de matéria orgânica pode atingir entre 12% e 27% em razão do clima e do manejo, a adoção de sistemas integrados atua como uma forma de compensação ambiental, reduzindo emissões e recuperando a estrutura química do solo. Os estudos também mostraram aumento da biomassa produzida, com ganho de produção primária líquida e melhor ciclagem de nutrientes.
Além disso, espécies leguminosas como o feijão-guandu, utilizadas em consórcios, favorecem a fixação biológica de nitrogênio. Essa combinação, aliada à adubação, proporciona um enriquecimento relevante do solo, reforçando o papel dos sistemas integrados na sustentabilidade agrária.
Manejo na estocagem de carbono
Segundo o pesquisador Edvaldo Sagrilo, da Embrapa Meio-Norte, o sucesso na estocagem de carbono depende diretamente do manejo. “Tanto um pecuarista que implantar uma pastagem bem manejada, quanto um agricultor que investir em um sistema ILP bem conduzido terão como consequência esse benefício ambiental”, explicou. Ele também destacou que a melhoria da fertilidade gera ganhos econômicos e técnicos, e pode futuramente se traduzir em pagamento por serviços ambientais, com a regulamentação do mercado de carbono.
O produtor Fernando Devicari, do município de Brejo (MA), é um dos que adotaram a ILP há mais de 15 anos. Ele relata que o sistema foi uma solução para o problema crônico de baixa matéria orgânica nos solos da região. “Quando avaliamos o solo nas áreas em que começamos primeiro, temos o dobro de matéria orgânica”, afirmou. Como resultado, sua produtividade de soja aumentou em 7,8 sacas por hectare.
Produtividade sustentável no Matopiba
A adoção dos sistemas ILPF e ILP ganha relevância diante da expansão da fronteira agrícola do Matopiba, que concentra mais de 73 milhões de hectares agrícolas, segundo o IBGE. A incorporação dessas práticas pode reduzir a pressão sobre áreas nativas e aumentar a produtividade de forma sustentável. Em solos anteriormente degradados, por exemplo, o incremento de carbono com sistemas integrados pode chegar a 16% em profundidades de até 30 cm.
Estima-se que aproximadamente 15 milhões de hectares no Brasil já adotem práticas semelhantes. Projetos como Carbioma, Fluxus e programas como o Plano ABC+, com metas até 2030, têm incentivado a disseminação desses modelos no campo, alinhando produção agrícola a metas ambientais e climáticas.
*Com informações da Embrapa
Leia mais: Desertificação ameaça o Matopiba, a principal fronteira agrícola brasileira










