
Desativado desde 2001, quando o Trem do Forró fez sua última viagem entre o litoral e o Agreste, o trecho ferroviário entre Recife e Caruaru pode voltar a operar no transporte de passageiros. A Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) formalizaram um acordo para realizar estudos técnicos que avaliam a reativação da linha de 120 quilômetros — considerando tanto o traçado histórico quanto rotas paralelas à BR‑232 — e a implantação de um ramal de cargas entre Petrolina e Salgueiro.
A parceria foi anunciada nesta quinta-feira (24), durante o seminário “Conexões Transnordestina – A ferrovia que mudará Pernambuco”, realizado no Sertão do estado em uma iniciativa conjunta do site Movimento Econômico com a Sudene. O superintendente da Sudene, Danilo Cabral, declarou que o objetivo da iniciativa é integrar logisticamente a região, ampliar a competitividade e induzir o desenvolvimento sustentável e inclusivo do Nordeste. Segundo ele, os estudos estão alinhados à política federal que prioriza o modal ferroviário como vetor de transformação econômica e social.
Impactos econômicos e potencial turístico no Agreste
O estudo sobre a linha Recife–Caruaru será concluído até o primeiro semestre de 2026 e avaliará a viabilidade da retomada do transporte de passageiros, com comparações entre o antigo traçado da Estrada de Ferro Central de Pernambuco e alternativas pela BR-232. A reativação da linha tem potencial para beneficiar o turismo sazonal, especialmente durante o período junino, e fortalecer o Polo de Confecções do Agreste, responsável por cerca de 12 mil empresas e aproximadamente 140 mil empregos diretos e indiretos nos municípios de Caruaru, Santa Cruz do Capibaribe e Toritama.
Dados da Associação Comercial e Industrial de Caruaru mostram que o município conta com mais de 86 mil empregos formais, registrando crescimento de 4,1% em 2023, acima da média estadual. A ferrovia também contribuiria para aliviar o tráfego na BR-232 e reduzir custos logísticos na região.

Novo ramal para cargas no Sertão
O segundo eixo do estudo contempla a implantação de um ramal ferroviário de cerca de 250 quilômetros entre Petrolina e Salgueiro, onde se conecta à Ferrovia Transnordestina. O objetivo é facilitar o escoamento da produção agrícola do Vale do São Francisco, responsável por 98% das exportações nacionais de manga e uva, além de atender a outros polos produtivos. A interligação com os portos de Suape (PE) e Pecém (CE) e com a hidrovia do São Francisco amplia a eficiência logística regional. Estimativas do setor apontam que a operação ferroviária pode reduzir em até 17% os custos de transporte e em aproximadamente 20% as emissões de CO₂.
Investimentos na Transnordestina e cronograma de obras
A Sudene já destinou R$ 5,6 bilhões à Ferrovia Transnordestina, cujas obras estão 75% concluídas, conectando Eliseu Martins (PI) ao Porto de Pecém (CE). Estão assegurados mais R$ 2,6 bilhões para a finalização dos trechos restantes. O assessor da Diretoria de Empreendimentos da Infra S.A., Rafael Fernandes de Sousa, informou que a primeira licitação será lançada ainda no segundo semestre de 2025, para o trecho entre Custódia e Arcoverde. A contratação da obra está prevista para o primeiro trimestre de 2026, com investimento estimado em R$ 600 milhões provenientes do Orçamento Geral da União.
O valor total previsto para a conclusão do trecho pernambucano da Transnordestina é de R$ 3,5 bilhões, com término estimado até 2029. Segundo Sousa, a definição e construção de terminais ferroviários caberá à iniciativa privada ou à futura concessionária. A decisão sobre a localização será tomada conforme as necessidades do setor produtivo.
Perspectivas estratégicas
O secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Guilherme Cavalcanti, afirmou que a ferrovia representa um elemento estratégico de transformação econômica para Pernambuco e o Nordeste. O reitor da UFPE, Alfredo Gomes, destacou a relevância da parceria para fomentar soluções sustentáveis de mobilidade. O prefeito de Salgueiro, Fábio Lisandro, considerou o momento atual favorável à conclusão da obra ferroviária no estado.
“A retomada do transporte ferroviário é um símbolo do retorno da presença do Estado. O Brasil precisa voltar a fazer planejamento de longo prazo, e esta é uma ação que dialoga com o futuro, com os interesses do povo nordestino”, reforçou Danilo Cabral.
O reitor da UFPE, Alfredo Gomes, afirmou que a instituição vai mobilizar pesquisadores de diversas áreas. “Temos o desafio de contribuir com esse planejamento. A universidade é um espaço de ciência, tecnologia e inovação, e está à disposição da sociedade”, disse.
Segundo o coordenador do projeto na UFPE, o professor Jorge Zattar, os estudos envolvem tanto aspectos técnicos e econômicos quanto o impacto social. “Vamos pensar esse sistema ferroviário não apenas do ponto de vista da eficiência, mas também da inclusão”, explicou.
Também participaram do evento o professor e consultor logístico Guilherme Magalhães, a presidente da CDL de Salgueiro, Regilane Barros, o deputado estadual João Tenório, o presidente da Câmara de Vereadores, Léo Parente, e a vice-reitora da Universidade Federal do São Francisco, Lúcia Ribeiro de Oliveira.
* Com informações da Sudene
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