
Durante o seminário Conexões Transnordestina – A Ferrovia que Moverá Pernambuco, realizado em Salgueiro nesta quarta-feira (24), especialistas e técnicos da área de engenharia e infraestrutura apontaram fragilidades no projeto atual da ferrovia. As críticas recaíram especialmente sobre o traçado dos trilhos e a escolha da bitola, que, segundo eles, podem comprometer o desempenho operacional da linha e a competitividade de importantes polos produtivos da região. O evento, que percorrerá mais seis cidades, é uma realização do Movimento Econômico em parceria com a Sudene.
Os professores universitários e especialistas em logística Maurício Pina e Fernando Jordão estavam na plateia e fizeram suas observações durante o momento de interação com os palestrantes.
Maurício Pina, engenheiro, professor da Unicap e especialista em Transportes, fez um resgate histórico da concepção original da Transnordestina, lembrando que, desde os anos 1950, havia a proposta de conectar as redes ferroviárias de Pernambuco, Ceará e Bahia por meio do trecho Salgueiro–Petrolina. A exclusão desse ramal no traçado atual foi classificada por ele como um equívoco estratégico. “Isso impediu a integração hidroferroviária com a hidrovia do São Francisco, um prejuízo logístico significativo para o Sertão”, afirmou.
O engenheiro também criticou a lógica de implantação dos lotes, priorizando trechos no interior em vez de começar pelo litoral. Segundo ele, isso inverte a racionalidade da ferrovia como instrumento de integração regional e dificulta o pleno aproveitamento da malha. Citou como exemplo Belo Jardim, município com forte atividade industrial, especialmente na produção de baterias, que poderia gerar um fluxo de carga expressivo. “Estudos mostram que um ramal até Belo Jardim permitiria trens a cada dois dias com até 50 vagões. No entanto, o traçado passa a 40 quilômetros da cidade, o que encarece a operação e reduz a atratividade logística”, explicou.

Pina defendeu ainda que a Infra S.A., responsável técnica pela obra, amplie o diálogo com a comunidade científica e as entidades profissionais de engenharia. “É fundamental envolver o CREA, universidades e entidades técnicas do estado, para que os projetos reflitam os interesses da população e as vocações econômicas do território.”
Bitola foge do padrão nacional
As críticas à bitola ferroviária foram aprofundadas por Fernando Jordão, engenheiro ferroviário e professor da UFPE. Ele lembrou que a maior parte da malha ferroviária brasileira é construída em bitola métrica (estreita), mais econômica e adequada para a movimentação de cargas em volumes variados. A adoção da bitola larga no trecho da Transnordestina, segundo Jordão, pode tornar o transporte menos competitivo, especialmente para produtos de menor densidade ou valor agregado. “A escolha da bitola foi feita sem consulta técnica ou audiência pública. O resultado pode ser uma ferrovia que encarece o frete e não atende à demanda regional”, alertou.
Jordão argumentou ainda que a bitola larga, embora mais robusta, exige composições maiores e locomotivas mais potentes, o que pode gerar custos operacionais elevados. “Se você tem uma carga leve ou fracionada, como um eletrodoméstico, não compensa usar um vagão de 130 toneladas. O dono da carga vai optar por outro modal”, explicou. Ele também destacou que a opção técnica influencia diretamente o mercado de frete: “Um erro de concepção pode inviabilizar economicamente o uso da ferrovia.”
Fernando Jordão abordou de forma crítica a presença de helpers (locomotivas auxiliares) no traçado atual da Ferrovia Transnordestina, destacando que sua necessidade revela falhas de concepção técnica e aumenta o custo operacional da ferrovia, algo que vem desde o projeto original.
Ele explicou que, no trecho que liga Salgueiro a Suape — previsto com rampas mais acentuadas — será necessário utilizar helpers em cerca de 88 km do trajeto. Isso ele comparou com o trecho em direção ao Porto do Pecém (CE), onde não há necessidade de locomotiva auxiliar. Para Jordão, esse diferencial coloca Suape em desvantagem competitiva em relação ao Pecém.
Infra S. A. se posiciona sobre ferrovia
Diante das críticas, Rafael Souza, diretor da Infra S.A., respondeu em tom conciliador. Ele reconheceu a importância das contribuições da academia e afirmou que a empresa está aberta ao diálogo com o meio técnico. “Temos limitações contratuais e um cronograma a cumprir, mas estamos totalmente dispostos a ouvir e considerar ajustes que sejam tecnicamente viáveis”, afirmou.
Sobre a questão da bitola, Rafael ponderou que os trechos já construídos em bitola larga impõem restrições à adoção da bitola mista ou métrica, mas não descartou futuras avaliações. Garantiu ainda que a Infra está promovendo melhorias operacionais no projeto, como a redução de rampas que exigiriam locomotivas auxiliares (helpers), contribuindo para a eficiência do transporte.
Terminal multimodal
Além das críticas técnicas, o seminário também serviu como espaço para apresentar propostas de desenvolvimento a partir da ferrovia. O professor Guilherme Magalhães, da Universidade de Pernambuco (UPE), defendeu a criação de um terminal multimodal e de um porto seco em Salgueiro, aproveitando a posição estratégica da cidade para transformá-la em um hub logístico. “Estamos falando de transformar Salgueiro em um polo logístico, formador de mão de obra, gerador de renda e redutor de desigualdades regionais. A ferrovia é o catalisador dessa transformação”, destacou.
Ele apresentou estudos apontando que, com a ferrovia, a produção regional poderá triplicar em volume transportado, gerando mais oportunidades para os arranjos produtivos locais – como o polo gesseiro do Araripe, a avicultura do Agreste, a cadeia sucroalcooleira da Zona da Mata e a produção irrigada do Vale do São Francisco. Magalhães também chamou atenção para a estrutura educacional da cidade, que conta com campus da UPE, cursos técnicos e tecnológicos, e o IF Sertão, capazes de formar profissionais para a nova realidade logística.
A expectativa é que os próximos encontros da série Conexões Transnordestina, promovida pelo portal Movimento Econômico em parceria com a Sudene, aprofundem o debate técnico e tragam à tona propostas que fortaleçam o papel estratégico da ferrovia para o desenvolvimento do Nordeste. Os próximos eventos acontecerão em Petrolina, no dia 13 de agosto, e em Araripina, no dia 15 do mesmo mês.
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