
O Brasil reúne condições reais de crescimento de forma sustentável nos próximos anos, desde que alinhe produtividade, inovação tecnológica e investimentos em infraestrutura e energia. A avaliação é de Joaquim Levy, diretor de Estratégia Econômica e Relações com o Mercado do Banco Safra.
Durante sua apresentação no Energia 360, evento promovido pela Origem Energia, em Maceió (AL), Levy ressaltou que há uma janela de oportunidade para o país, mesmo em um cenário global marcado por juros elevados, tensões geopolíticas e mudanças estruturais nas principais economias. “Há espaço para um crescimento de 2,5% ao ano e isso já permitiria estabilizar a dívida pública. Mas é preciso fazer o trabalho, com esforço conjunto de políticas públicas e investimentos”, afirmou.
Para o diretor do Safra, o crescimento brasileiro precisa ser impulsionado por ganhos de produtividade e isso exige mais do que inovação tecnológica: é preciso gerar emprego, ampliar o consumo e viabilizar grandes projetos de infraestrutura e energia.
Ele lembrou que os Estados Unidos conseguiram nos últimos anos evitar uma recessão mesmo diante de uma política monetária agressiva. O motivo, segundo ele, está nos chamados “choques de oferta positivos”, que viabilizaram crescimento com baixa inflação.
“Foram quatro fatores principais: imigração, que aumentou a força de trabalho; produção de energia, especialmente gás de xisto; preços de importados mais baratos, com destaque para semicondutores; e o aumento de produtividade com inteligência artificial. Isso ajudou o Fed a conter a inflação sem travar a economia.”
Levy destacou que o Brasil pode seguir caminho semelhante, respeitando suas particularidades, desde que crie condições para destravar investimentos e acelerar a produtividade. “Se a gente conseguir usar energia como plataforma — seja gás, bioenergia ou renováveis – e combinar isso com tecnologia e mão de obra qualificada, há espaço para o país se mover”, afirmou.
Crescimento com responsabilidade fiscal
Outro ponto enfatizado por Levy foi a importância da credibilidade fiscal como alicerce do crescimento. Segundo ele, o Brasil já viveu situações muito mais delicadas no passado e, atualmente, conta com fundamentos macroeconômicos mais sólidos: reservas internacionais elevadas, inflação em desaceleração, câmbio estável e um arcabouço fiscal aprovado.
“Temos um juro real elevado que, embora tenha seu custo, permite atrair capital. Se houver confiança nas contas públicas, esse diferencial pode ser usado como alavanca para crescimento.”

Ele explicou que, mesmo com um crescimento de 2,5% ao ano, é possível manter a dívida pública sob controle, desde que haja racionalidade nos gastos e uma estratégia voltada à ampliação da capacidade produtiva. “A lógica é simples: com disciplina fiscal e estímulo à produtividade, o Brasil pode crescer sem romper limites macroeconômicos.”
Desafios externos: riscos para o dólar e a reorganização global
Ao analisar o cenário internacional, Levy alertou para possíveis reconfigurações nos fluxos financeiros e comerciais globais, com impactos sobre moedas, cadeias produtivas e decisões de investimento.
Segundo ele, os Estados Unidos enfrentam hoje pressões simultâneas: déficit fiscal elevado, déficit em conta corrente, polarização política e desaceleração da imigração. Ainda assim, o dólar segue extremamente valorizado mas, na visão do diretor, isso pode mudar.
“O dólar está entre os mais valorizados dos últimos 50 anos. Mas há pressões acumuladas e uma tentativa da China e da Europa de reduzir sua dependência da moeda americana. Isso pode gerar uma transição lenta, mas com impactos profundos.”
Outro ponto destacado foi o aumento do protecionismo global, com novas tarifas e medidas unilaterais sendo adotadas pelos EUA e pela Europa. Para Levy, o risco é de fragmentação econômica, o que pode prejudicar países que não se posicionarem estrategicamente.
China em transição e implicações para o Brasil
Levy também analisou o atual momento da economia chinesa, apontando que o país passa por uma transição delicada, com menor ênfase em construção e exportações e maior foco em tecnologias e autossuficiência industrial.

“A China está tentando mudar seu modelo de crescimento, mas enfrenta dificuldades. O investimento em imóveis caiu e o consumo interno não decolou como esperado. Isso afeta o Brasil, sobretudo nos setores de commodities e exportações industriais.”
Segundo ele, o Brasil precisa diversificar sua pauta exportadora e aproveitar a nova dinâmica para se posicionar como fornecedor de soluções energéticas e de valor agregado.
Levy também destacou que o crescimento do Brasil dependerá da capacidade de o país se inserir com inteligência na nova economia global, marcada pela transição energética, digitalização e reorganização das cadeias produtivas. Segundo ele, a estabilidade fiscal e o controle da inflação são importantes, mas não suficientes. É preciso olhar para o futuro com uma agenda que combine produtividade, geração de empregos e investimentos em setores estratégicos.
“A inteligência artificial é uma revolução em curso. Mas, se não for acompanhada de políticas públicas que gerem emprego e consumo, ela só vai deslocar trabalhadores e concentrar renda. O Brasil precisa pensar crescimento com inclusão”, pontuou.
Nesse contexto, o potencial das fontes renováveis e do gás natural no Nordeste ganha relevância, não apenas pela contribuição energética, mas pela capacidade de induzir reindustrialização, dinamizar economias locais e abrir novas frentes de geração de renda. Para Levy, o país tem capital humano, reservas e conhecimento técnico. O desafio é transformar esse conjunto em projetos concretos que articulem inovação, produtividade e desenvolvimento com base sólida.
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