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Desembolsos do BNDES ao Nordeste caem 30% no 1º trimestre de 2025

Para economistas, o programa Nova Indústria Brasil está direcionando recursos do banco para o Sul Sudeste. BNDES justifica com sazonalidade
Patricia Raposo
Patricia Raposo
De Recife CEO do Movimento Econômico [email protected]
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Sergipe calçados polo calçadista indústrias
Indústria de calçados do Nordeste: região à espera de mais crédito para o setor/Foto: Arthur Paganini/Sedetec

O volume de desembolsos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para o Nordeste apresentou queda expressiva no primeiro trimestre de 2025. De acordo com o Boletim de Desempenho divulgado pela instituição, os financiamentos liberados para a região somaram R$ 2,6 bilhões entre janeiro e março, o que representa uma redução de 30% em relação ao mesmo período do ano passado. As aprovações de projetos também caíram expressivamente no período, para R$ 1,7 bi, recuo de 33%.

No acumulado dos últimos 12 meses, os desembolsos ao Nordeste totalizaram R$ 12,1 bilhões, com queda de 8% frente ao período anterior. Assim como caíram as aprovações, para R$ 15,9 bilhões, com redução de 16%. A região passou a representar apenas 9% do total nacional dos recursos desembolsados pelo banco, ficando atrás do Sudeste (39,5%), Sul (39,1%), Centro-Oeste (9,5%) e Norte (6,52%). Ou seja, Sul e Sudeste receberam 75% dos recursos liberados pelo banco.

Economistas ouvidos pelo ME dizem que o desempenho chama atenção em um momento em que os estados do Nordeste buscam ampliar investimentos em infraestrutura, energia renovável e industrialização.

“O PIB do Nordeste representa aproximadamente 14% do PIB nacional e tem cerca de 30% da população brasileira. E os desembolsos do BNDES geralmente acompanham essa participação de 14% para a região. Contudo, eles baixaram para 10,5% no primeiro trimestre de 2025 e para apenas 9% no acumulado de 12 meses”, ressalta um economista pernambucano que preferiu não se identificar.

O Nordeste fora dos plano

Já para Paulo Cavalcanti, professor do Departamento de Economia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e membro do grupo de trabalho do Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial (CNDI), o problema vai além da simples flutuação estatística: trata-se de uma opção estratégica do governo federal que concentra no Sul e Sudeste a política industrial brasileira.

“O programa Nova Indústria Brasil (NIB) precisa mostrar resultados rápidos. Por isso, o governo está apostando nos territórios com maior densidade industrial e capacidade instalada — o que, no Brasil, significa Sul e Sudeste”, resume Cavalcanti.

Segundo ele, as cadeias produtivas prioritárias da NIB foram desenhadas com foco nos territórios já industrializados, ignorando as fragilidades históricas do tecido produtivo nordestino, que é majoritariamente composto por micro e pequenas empresas.

“É mais fácil alcançar metas onde já existe infraestrutura, aprendizado tecnológico e grandes empresas.” O economista afirma que o empresariado do Nordeste, em muitos casos, nem conhece os instrumentos de apoio do governo federal. E quem conhece, tem dificuldade em acessar.

Ausência de metas regionais

O grupo de trabalho do qual Paulo Cavalcanti faz parte — vinculado ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial (CNDI) — já apresentou, com apoio do Consórcio Nordeste, do Banco do Nordeste e da Sudene, uma proposta para que o governo federal estabeleça metas regionais obrigatórias na alocação dos recursos da política industrial. A proposta sugeria um piso de 14% dos investimentos do BNDES para o Nordeste, equivalente ao peso da região no PIB nacional, com uma meta de longo prazo de 27%, alinhada à sua participação na população brasileira.

Mas a ideia não foi aceita. A estratégia, segundo os economistas ouvidos pelo ME, tem sido apostar no que é menos desafiador. “É como montar uma turma para passar no vestibular de medicina e investir apenas nos alunos que já tiram nota alta. Estamos brigando para chegar ao piso. Hoje, o que temos é menos que isso, o que agrava a desigualdade regional e contraria o próprio discurso do governo de inclusão produtiva e desenvolvimento equilibrado”, afirma Cavalcanti.

Assim, para os especialistas, o Nordeste foi praticamente restrito a dois eixos dentro da NIB: energia renovável e segurança alimentar, esta última relacionada à mecanização da agricultura familiar — um setor onde apenas 5% da produção é mecanizada na região.

Contudo, Paulo Cavalcanti alerta para uma lógica perversa nesse modelo: “O BNDES financia a compra de máquinas agrícolas no Nordeste, mas essas máquinas continuam sendo produzidas no Sul e Sudeste. Somos tratados apenas como mercado consumidor da reindustrialização nacional”, pontua.

agricultura familiar
Mecanização da agricultura familiar é um dos alvos do governo federal, mas levanta polêmicas/Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Crescimento que não reduz desigualdade

Embora os números absolutos de crédito para o Nordeste possam parecer positivos em relação a gestões anteriores, Cavalcanti explica que o crescimento é mais intenso nas outras regiões, ampliando a distância entre o perfil econômico do Nordeste e o do Sul-Sudeste.

“Estamos crescendo, mas em descompasso. A industrialização está acelerando fora do Nordeste, e isso nos afasta ainda mais. Crescimento relativo importa: não adianta o Brasil crescer 3% se o mundo cresce 6%.”

O economista aponta que a infraestrutura econômica no Nordeste tem sido pensada de forma fragmentada, projeto a projeto, muitas vezes apenas para atender a demandas pontuais de grandes empresas. “A gente precisa de uma estratégia regional integrada. O que vemos é o Nordeste virando fornecedor de energia para a nova indústria do Sul-Sudeste, o que reforça nosso papel histórico de exportadores de commodities”, critica. “Antes foi o açúcar, depois o algodão, o cacau. Agora é a energia. Só que isso não nos industrializa, apenas abastece a produção de fora.”

Falta visão estratégica — e política

Na leitura de Cavalcanti, o silêncio dos governadores e de parte do empresariado nordestino sobre o tema também contribui para a marginalização da região. “Há muita comemoração por causa dos investimentos sociais, que são importantes. Mas a política industrial e a infraestrutura econômica não estão na agenda regional. As federações da indústria também parecem satisfeitas com o que passaram a receber com a NIB, sem perceber que o Nordeste está ficando para trás”, alerta.

O economista lembra ainda que o BNDES já teve, no passado, uma diretoria voltada ao combate à desigualdade regional — extinta nos últimos anos. “Hoje existe apenas uma unidade dentro da diretoria social, com pouquíssima influência estratégica. Isso diz muito sobre a prioridade dada ao tema.”

Caminhos e resistência

Apesar do cenário preocupante, Cavalcanti reconhece que há esforços pontuais para mudar a lógica vigente. No grupo de trabalho do CNDI, representantes do BNDES, do Ministério da Indústria e de instituições regionais têm discutido alternativas. Mas falta coordenação, instrumentos eficazes e vontade política para transformar a estrutura da distribuição de crédito no Brasil.

“Se o BNDES continuar com esse desempenho, mesmo com grupos de trabalho e diagnósticos corretos, nada vai mudar. É preciso acionar as alavancas certas para reverter o quadro.”

O BNDES se posiciona

A diretora de Crédito Digital para Micro, Pequenas e Médias Empresas do BNDES, Maria Fernanda Coelho, reconhece o cenário, mas afirma que há fatores conjunturais e operacionais que explicam o recuo dos recursos para a região, além de estratégias em curso para reverter esse quadro ainda este ano.

“Os números são reais e exigem atenção, mas o primeiro trimestre de 2025 ainda não reflete as principais linhas que o banco oferecerá este ano, especialmente voltadas para inovação, equipamentos e projetos verdes”, destacou Maria Fernanda em entrevista ao Movimento Econômico.

Segundo a diretora, o banco observou queda nas aprovações de crédito no comparativo entre os primeiros trimestres de 2024 e 2025 — de R$ 2,5 bilhões para R$ 1,7 bilhão. Contudo, ela ressalta que o recuo foi concentrado nas grandes empresas, enquanto as micro e pequenas cresceram 20% e 30%, respectivamente.

“As grandes empresas têm estratégias de investimento mais sensíveis ao cenário macroeconômico. A instabilidade global, especialmente nos EUA, pesou nas decisões de expansão”, pontuou.

Sazonalidade e ausência temporária de linhas estratégicas

A diretora também destacou o peso da sazonalidade na agropecuária, cujo ciclo de crédito se concentra nos meses seguintes ao primeiro trimestre, com o pico do Plano Safra ocorrendo a partir de junho. Maria Fernanda lembra que três linhas estruturantes do banco ainda não estavam disponíveis até março: Mais Inovação (dentro do programa Brasil Mais Produtivo); Mais Equipamentos (com foco em modernização industrial); Fundo Clima, com recursos para projetos sustentáveis.

Essas linhas, segundo ela, entrarão em operação a partir de junho e devem impulsionar o crédito na segunda metade de 2025.

Maria Fernanda Coelho com Rafael Fonteles
Maria Fernanda Coelho com o governador do Piauí, Rafael Fonteles no evento BNDES Mais Perto de Você para apresentar as linhas e produtos do banco aos empresários do estado/Foto: divulgação BNDES

Ao responder à crítica de que o Nordeste tem sido tratado apenas como consumidor de equipamentos produzidos no Sul e Sudeste, Maria Fernanda concordou com a necessidade de fomentar uma indústria de base local, especialmente voltada à mecanização da agricultura familiar.

“Não basta importar máquinas. A região precisa de uma indústria adaptada à sua realidade. Temos discutido isso com a Abimaq e explorado experiências internacionais, como a parceria do Consórcio Nordeste com universidades agrícolas da China”, afirmou.

A diretora lembrou que outro setor que o BNDES tem focado é o de saneamento. Segundo ela, o banco passará a operar, pela primeira vez, com recursos do FGTS para projetos de saneamento no Nordeste, em articulação com a Caixa Econômica Federal e a Sudene. “Água, esgotamento e infraestrutura urbana são prioridades. Estamos estruturando operações para destravar projetos com alto impacto social e ambiental na região.”

Desafio da integração

Maria Fernanda reconheceu que ainda há falta de integração no planejamento da infraestrutura econômica regional, mas defendeu o papel do Consórcio Nordeste como inovação política e instrumento de articulação.

“É um processo que leva tempo. Mas o consórcio já se provou eficaz na pandemia e agora começa a atuar com mais intensidade em temas estratégicos. O governador Rafael Fonteles pediu que o BNDES esteja presente nos nove estados da região, apresentando suas linhas e ouvindo as demandas locais.”

O programa “BNDES Mais Perto de Você” já passou por cinco estados nordestinos e deve cobrir os nove até o final do ano, com a meta de ampliar o acesso ao crédito, especialmente entre micro e pequenas empresas. O último foi o Piauí.

Expectativa para 2025

Apesar do desempenho fraco no início do ano, a expectativa do banco é de superar o volume de crédito concedido ao Nordeste em 2024, que foi de R$ 16,7 bilhões — 27% superior ao ciclo anterior.

“Estamos confiantes de que 2025 será um ano de recuperação e avanço. O banco está trabalhando com novas linhas, presença territorial e parcerias para garantir que os recursos cheguem onde são mais necessários”, concluiu Maria Fernanda.

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