
O Porto de Fortaleza fechou o primeiro semestre de 2026 com 2.589.359 toneladas movimentadas, alta de 10,06% sobre igual período de 2025 e 6,87% acima da meta traçada pela Companhia Docas do Ceará (CDC), empresa pública federal que administra o porto, para o intervalo. Ao mesmo tempo, a estatal projeta crescimento de 70% no número de escalas de cruzeiros na temporada 2026/2027, de cinco para nove navios, entre outubro e abril, com 14 mil passageiros esperados.
“O crescimento previsto é de aproximadamente 70% no número de navios, demonstrando a retomada do mercado e o fortalecimento do destino Fortaleza no roteiro dos cruzeiros marítimos”, afirmou o diretor-presidente da CDC, o engenheiro civil Quintino Vieira, em entrevista exclusiva ao Movimento Econômico.
Terminal de passageiros recebe obra de R$ 6 milhões
O Terminal Marítimo de Passageiros, operado pela ABA Infra, concessionária responsável pela gestão do equipamento por contrato de arrendamento, acaba de concluir uma requalificação de R$ 6 milhões em seu acesso viário. Segundo Vieira, o objetivo é “proporcionar mais segurança, fluidez e conforto aos usuários, além de qualificar a experiência de passageiros, turistas, organizadores de eventos e operadores logísticos”. A CDC também executa a modernização do sistema de iluminação em LED (diodo emissor de luz) de toda a área do porto e a ampliação do videomonitoramento.
Apesar de concebido como equipamento multifuncional, apto a sediar eventos corporativos, culturais e institucionais, o diretor reconhece que “a principal vocação do Terminal Marítimo é receber navios de cruzeiro durante a temporada, que tradicionalmente ocorre entre os meses de outubro e abril”. Questionado sobre o que ainda limita a chegada de mais cruzeiros a Fortaleza, Vieira foi direto: “o principal desafio é ampliar a competitividade de Fortaleza como destino de cruzeiros no cenário nacional e internacional”. Segundo ele, “hoje, o Porto de Fortaleza possui capacidade operacional e acesso aquaviário capaz de receber cruzeiros de grande porte”, ou seja, a limitação não é estrutural, mas de atratividade turística, custo operacional e integração com outros portos das rotas.

Trigo, combustíveis e contêineres puxam as cargas
Na movimentação de cargas, o crescimento é disseminado: carga geral avançou 30,14%, puxada por equipamentos do setor eólico, como pás e máquinas, contêineres subiram 14,57%, granéis líquidos 7,63%, granéis sólidos agrícolas 9,93% e granéis sólidos minerais 1,40%, este último batendo recorde histórico mensal em maio de 2026. A meta institucional da CDC para 2026 é de 5.083.000 toneladas, alta de 2,51% sobre 2025. “O resultado alcançado, no entanto, superou essa projeção com um desempenho 6,87% acima da meta, o que demonstra o fortalecimento da competitividade e da capacidade operacional do Porto de Fortaleza”, disse Vieira.
Os granéis líquidos, combustíveis como diesel, gasolina, GLP (gás liquefeito de petróleo) e QAV (querosene de aviação), respondem por 48,4% do volume do semestre. Os granéis sólidos somam 36,3%, entre agrícolas (21,6%, com destaque para o trigo) e minerais (14,7%). É no trigo que está um dos dados mais expressivos citados pelo diretor: “O Porto de Fortaleza movimenta cerca de 1,2 milhão de toneladas de trigo por ano, sendo atualmente o maior porto movimentador desse produto no Brasil, à frente de portos como o de Santos”, afirmou Vieira, atribuindo o desempenho à presença de três grandes moinhos instalados na poligonal portuária.
O trigo chega majoritariamente da Argentina, dos portos de Rosário, San Lorenzo e San Pedro, enquanto o coque de petróleo vem dos Estados Unidos e da Colômbia, e combustíveis do México e do Caribe. Nas exportações, frutas destinadas ao porto de Roterdã, na Holanda, e a outros mercados europeus lideram a pauta. Vieira também apontou a nova linha de cabotagem operada pelo grupo CMA CGM em parceria com a Mercosul Line, iniciada em abril, como fator que deve sustentar o crescimento no segundo semestre, ao lado do desempenho recorde dos granéis sólidos minerais.

Novos terminais e ampliação do canal de acesso
O plano de expansão da CDC para os próximos cinco anos passa pelo arrendamento de três novos terminais, identificados internamente como MUC 03, MUC 04 e MUC 05: dois destinados a granéis sólidos minerais (MUC 03 e MUC 05) e um a contêineres e carga geral (MUC 04). Paralelamente, estudos aquaviários conduzidos pela Fundação para o Desenvolvimento Tecnológico e Engenharia da USP (Universidade de São Paulo) resultaram na ampliação do Canal Oeste e na identificação de um novo canal natural, o Canal Norte-Sul, com até 12 metros de profundidade, ambos em processo de atualização das cartas náuticas junto à Marinha do Brasil.
“Com a reavaliação do Canal Oeste, o Porto ampliou seu calado operacional de 8 para 11,75 metros, independentemente da maré, permitindo a atracação de embarcações de maior porte e aumentando sua capacidade de movimentação de cargas”, explicou Vieira. A nova sinalização náutica também amplia a largura do canal de 160 para 220 metros. “Em uma segunda etapa, o complexo contará com dois canais de acesso, fortalecendo sua competitividade logística e criando melhores condições para expandir suas operações”, completou.
Ainda assim, o diretor reconhece um limite estrutural à expansão física: “O Porto de Fortaleza é um porto cidade, o que naturalmente impõe limites para sua expansão física. Por isso, a estratégia de crescimento está baseada na otimização da infraestrutura existente, na modernização operacional e na atração de investimentos privados.”

Fortaleza e Pecém: papéis complementares, não concorrentes
Diretamente questionado sobre como o Porto de Fortaleza se posiciona diante do Complexo do Pecém, historicamente o principal destino de investimentos portuários do Ceará, Vieira rejeitou a ideia de disputa: “O Porto de Fortaleza e o Complexo do Pecém desempenham papéis complementares na logística do Ceará, com vocações distintas e estratégicas para o desenvolvimento do Estado.”
Segundo ele, “o Complexo do Pecém possui uma forte vocação industrial, voltada para grandes projetos, cadeias produtivas e operações de maior escala”, enquanto “o Porto de Fortaleza se consolida como um porto-cidade, beneficiado por sua localização estratégica na capital.” Para o diretor, “essa complementaridade entre os terminais fortalece a infraestrutura logística cearense, amplia a competitividade do Estado e oferece soluções diversificadas para o setor produtivo”.
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